Tuesday, June 30, 2009

NOTAS SOBRE A PASSAGEM DA CPI DA PEDOFILIA POR MANAUS E COARI

ЄO senador Magno Malta (PR/ES) não sabe que a pedofilia mais incisiva e perigosa socialmente é aquela que segrega os signos de uma infância solapada, um infantilismo sequelado, fruto da ilusão dos adultos capturados pela ordem do capital, e que foram interditados em seus fluxos intensivos e potência de agir, e que estão na tevê, na internet, na moda, nos dizeres, na música, nos corporais e incorporais da sociedade de consumo, submetendo as crianças a uma infância que não é a delas. Soubesse, a sua CPI teria que estabelecer uma base de atuação perene nas emissoras de tevê, com suas Anas Marias Bragas, Xuxas, Sashas, Maísas…

ЄNo entanto, a CPI tem se prestado, no plano democrático, a um importante trabalho: aproveitando a comoção emocional em torno da temática a pedofilia, bem mais carregada de elementos de ordem doutrinária igrejal que de ciência e de reflexão racional, desvelando aquilo que era evidente, mas que não se atualizava como real para o plano midiático: o envolvimento de membros das chamadas esferas do poder em práticas de violência sexual e exploração de mulheres, crianças e adolescentes, não apenas no sentido da tara psicopatológica, mas na tara social: o lucro pela exploração. Tal como no Caso Wallace, Adail, apontado como o chefe do esquema de desvios de royalties do gás natural de Urucum, é chefe, mas não apareceu ainda o chefe-do-chefe.

ЄO presidente da CPI da Pedofilia, senador Magno Malta, ao chegar a Manaus, afirmou ter recebido muitas pressões para que a CPI não viesse à cidade. De certa forma, não veio. Contando com apenas o presidente como membro titular, que criticou a ausência dos colegas de CPI e dos três senadores do Amazonas, os trabalhos terão de se reduzir àquilo que já estava previamente estabelecido. Malta não poderá, por exemplo, convocar para depôr ninguém além daqueles que já estavam previamente convocados, nem mesmo se denunciados em audiência pública.

Є Um déjà vu: o senador Arhur Neto, por exemplo, já atuou em defesa do Amazonas quando o assunto era exploração sexual infanto-juvenil. Foi ele quem articulou, junto com o senador Ney Suassuna (PMDB/PB), a retirada do nome de Omar Aziz da lista de indiciados da CPI da Prostituição Infantil, numa articulação que deixou boquiaberta a relatora, Deputada Maria do Rosário (PT/RS) – leia aqui e aqui. O tratamento amplamente favorável à Omar dado pela imprensa local sobre o caso fez com que o professor do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Amazonas, Gilson Monteiro, fosse agredido dentro das dependências do campus, por dois irmãos de Omar, atual vice-governador. Gilson usava a tibieza e comprometimento da imprensa local com os políticos locais como exemplo em uma aula de ética, quando uma sobrinha de Omar, debutante do curso, levantou-se e chamou o pai para defender a honra da família – leia aqui.

ЄEm Manaus, a CPI tomou os depoimentos de 12 pessoas, dentre elas, Fábio Marques Martins, da agência Mega Models, Andréa Domingues de Abreu, ambos considerados agenciadores das adolescentes, e Haroldo Portela, ex-secretário de comunicação da prefeitura de Coari. Portela é considerado a peça-chave no inquérito do Ministério Público sobre os desmembramentos da Operação Vorax. Era Portela quem organizava a exploração, mantinha contatos com os agenciadores e realizava o pagamento. Uma adolescente, identificada como Brenda, supostamente vítima da exploração pela quadrilha de Coari, também foi ouvida. Os programas eram pagos sempre com dinheiro público, e discriminados como “prestação de serviços para eventos sociais”. Em Coari estão previstos mais dez depoimentos, entre eles o de Adriano Salam, ex-secretário de administração e o do ex-prefeito, apontado como o chefe da quadrilha, Adail Pinheiro. A CPI realiza hoje os trabalhos na cidade do gasoduto e da Operação Vorax.

Posted by AFIN at 16:12:13 | Permalink | No Comments »

GOLPE DE ESTADO EM HONDURAS MOSTRA QUE OS TIRANOS NÃO DORMEM

O Golpe de Estado praticado pelas forças armadas hondurenhas, apoiadas pela Suprema Corte e o Congresso, vem chamar atenção sobre as ameaças que ainda vivem as democracias nos territórios latinos. O que confirma que ainda não se encontram fortemente protegidas das ambições dos tiranos. Por isto ainda se respira odores fortes de ditaduras sangrentas que permaneceram décadas dominando as Américas Latinas. Daí que a atenção maior sobre a defesa das democracias deve ser desdobrada, principalmente com políticas que aproximem solidariamente os governos dos povos, verdadeiras fortalezas democráticas.

FORÇAS DO GOLPE

Apoiados no entendimento de que o plebiscito convocado pelo presidente Manuel Zelaya, para uma possível reforma política, que seria realizado no domingo passado, era inconstitucional, o grupo não titubeou: deu o golpe e se apossou do palácio presidencial, elegendo Roberto Micheletti para governante interino. Alegando que, embora tenham tomado o poder, vão manter o compromisso de realizar eleições em novembro.

Enquanto isso, a população protesta veemente e é reprimida com violência pelas forças armadas. Ao mesmo tempo que OEA, Organização dos Estados Americanos, e governantes de todo mundo repudiam a força tirânica que se instalou em Honduras. Por sua vez, os países que formam o Grupo de união de vizinhança da América Central, Nicarágua, Guatemala e El Salvador, cortaram todas as relações como o governo tirânico, impedindo qualquer contato por qualquer via.

A mesma posição tomaram todos os países da América do Sul e os Estados Unidos, levantando a tese da defesa da democracia.

De sua parte, o presidente deposto, Manuel Zelaya, promete voltar à Honduras ainda esta semana, provavelmente quinta-feira, acompanhado por representantes de organismos latinos.

Posted by AFIN at 07:21:33 | Permalink | No Comments »

Thursday, June 25, 2009

CARTA ABERTA DE TONI REIS, PRESIDENTE DA ALGBT, CONTRA HOMOFOBIA TELEVISIVA

Carta Aberta ao apresentador Fausto Silva

Programa Domingão do Faustão

Fausto Silva,

Tomo a liberdade de me dirigir publicamente a você, infelizmente ao que parece meus e-mails anteriores não chegaram até você.

Sou paranaense, professor, tenho 45 anos e vivo há 19 anos como meu companheiro David. Ano que vem completamos nossas bodas de porcelana.

Geralmente assisto a seu programa, principalmente às vídeos cacetadas. Te admiro pela inserção no seu programa de matérias e quadros de cunho social e principalmente pelo seu bom humor. Enfim, Faustão você é gente boa. Sabemos por sentir isso e por declarações de muita gente que fala de você como alguém muito generoso com todos.

Seu programa é muito assistido e admirado por milhões de brasileiros e de brasileiras. Você é referência nacional,como apresentador.

Com certeza suas opiniões influenciam no comportamento dos seus(as) telespectadores(as).

Dirijo-me a você Faustão de uma forma, amistosa e gentil para falar do meu descontentamento sobre a forma como você aborda a homossexualidade no Domingão do Faustão. Esse é nosso papel na luta pela inclusão social e respeito à nossa forma de ser.

Veja uns exemplos:

10/05/2009 – você referiu um “suposto” homossexual pelo termo GAZELA

17/05/2009 – você refere-se a um “suposto” homossexual pelo termo BOIOLA

17/06/2009 – diz que um “suposto” homossexual MORDE A FRONHA

17/06/2009 – No programa leva ao ar o comentário do participante Leandro Hassun : ISTO É UMA BICHONA!

2009 – refere-se ao suposto homossexual pelo termo LIBÉLULA

2009 – ao ver dois homens se cumprimentando, diz: ISTO É COISA DE BOIOLA!

Estes são alguns poucos exemplos durante os quais a platéia ri de uma situação que é muito triste no Brasil e no mundo: a Homofobia.

Fausto Silva, você sabia que em sete países há pena de morte para os homossexuais e 80 países criminalizam os atos homossexuais? Que no Irã gays são enforcados em praça pública?

Que na pesquisa da UNESCO publicada em 2004 consta que 40% dos adolescentes não gostariam de estudar com um gay, uma lésbica ou uma pessoa trans? Que se utilizam dos mesmos adjetivos listados acima para nos designar? Inclusive eu mesmo já fui taxado assim na escola nos velhos tempos. No programa Profissão Repórter do competente Caco Barcelos (exibido no dia 19/05/2009) a reportagem apresentou a triste história de Iago um adolescente de 14 anos que se suicidou porque era discriminado na escola.  Infelizmente isso é muito comum.

Faustão, você sabia que na última Parada LGBT (conhecida como parada Gay) de São Paulo 22 pessoas foram feridas com uma bomba que uma pessoa jogou de um prédio, e que numa Rua próxima a Praça da República -no final da parada – um gay de 35 anos apanhou tanto que sofreu traumatismo craniano e morreu?

Fausto Silva, você sabia que a maioria dos pais não gostariam que seus filhos fossem gays, lésbicas, travestis ou transexuais porque temem que seus filhos e filhas sofram violência, discriminação e por serem motivo de piadas de mau gosto e assédio moral?

Aqui em Curitiba, cidade em que vivo, no ultimo mês 6 travestis e um gay foram barbaramente assassinados. E aqui e outras cidades somos perseguidos por grupos de extermínio como skinheads. Nos últimos 20 anos 2992 pessoas LGBT foram barbaramente assassinadas pelo simples fat ode serem LGBT, segundo pesquisa do Grupo Gay da Bahia.

O Código de ética dos jornalistas, (artigo n° 10, item d), a Resolução nº 489 do Conselho Federal de Serviço Social e Resolução nº 001/99 do Conselho Federal de Psicologia, todos determinam que os respectivos profissionais dessas áreas devam respeitar a orientação sexual e a identidade de gênero de todas as pessoas. Lutamos para que sejamos respeitados como cidadãos com direitos e sem medo de viver.

Atualmente são realizadas no Brasil 150 Paradas LGBT, esses eventos têm como objetivo pedir respeito e consideração a nossa condição de cidadãos e cidadãs. Inclusive, o próximo domingo – 28 de Junho – é o Dia Internacional do Orgulho LGBT, e será comemorado em várias cidades no Brasil e no mundo inteiro.

O atual governo federal elaborou o Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de LGBT, com 180 ações contra a homofobia e a favor do respeito à diversidade humana, fruto de conferências LGBT nas 27 unidades da federação e da 1ª Conferência Nacional LGBT, cuja abertura foi prestigiada pelo presidente da república.

No Congresso Nacional existe uma Frente Parlamentar pela Cidadania LGBT com 250 parlamentares (deputados(as) e senadores(as)) participantes que querem a criminalização da homofobia.

Neste sentido, Faustão, gente boa, gostaria muito que ao se referir a LGBT ou pessoas supostamente LGBT, você se dirigisse com mais respeito, na boa mesmo. Sem ressentimentos.

Piadas e chacotas podem levar adolescentes a cometer suicídio, podem levar pais e mães a expulsarem seus filhos de casas, podem reforçar atitudes violentas contra LGBT.

Faustão é triste e é dolorido ser discriminado. Sei que você nunca quis fomentar a violência, por isso Faustão nos ajude a diminuir a discriminação no Brasil. Não encare isto como censura ou policiamento do politicamente correto.

Afinal, nossa constituição é clara nos seus artigos 3º e 5º quando diz todos são iguais e não haverá discriminação de qualquer natureza.

Vamos construir um Brasil em que caibam todas as cores.

Vamos viver em harmonia como as cores do Arco-íris.

Se a cultura é adquirida, conforme definiu Lévi-Strauss, também pode ser mudada. Nos ajude a mudar essa cultura homofóbica.

Para citar também Nelson Mandela:

Ninguém nasce odiando outra pessoa

pela cor de sua pele,

ou por sua origem, ou sua religião.

Para odiar, as pessoas precisam aprender,

e se elas aprendem a odiar,

podem ser ensinadas a amar,

pois o amor chega mais naturalmente

ao coração humano do que o seu oposto.

A bondade humana é uma chama que pode ser oculta,

jamais extinta.

Por meio desta carta aberta peço que de uma forma cidadã e divertida nos ajude a combater a violência, a discriminação, preconceito e principalmente as mortes contra a comunidade LGBT.

Conto com você e ajude-nos a divulgar a campanha www.naohomofobia.com.br que pede pela aprovação da Lei que criminaliza a Homofobia.

Um abraço,

Toni Reis

Professor, Especialista em Sexualidade Humana, Mestre em Filosofia em ética e sexualidade e Doutorando em Educação.

Presidente da  ABGLT – Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais.

Posted by AFIN at 10:24:31 | Permalink | No Comments »

Tuesday, June 23, 2009

MAIS VIOLÊNCIA HOMOFÓBICA EM CURITIBA: MILITANTE DO MOVIMENTO LGBT É 6o ASSASSINADO

NOTA DE CONDOLÊNCIA

O Grupo Dignidade vem a público lamentar o falecimento do seu ex-diretor, Gabriel Henrique Furquim, assassinado cruelmente na madrugada deste domingo (21/06).

Gabriel ingressou no Grupo Dignidade em 1998 e atuou incessantemente pela causa LGBT e a causa da Aids até maio de 2006. Nesse período, contribuiu muito com sua participação nas conferências de saúde, nas comissões de Aids, no Fórum Paranaense de ONG/Aids e nos Conselhos Municipal e Estadual de Saúde, sendo que neste último chegou a ser vice-presidente. Além de ser diretor do Grupo Dignidade, Gabriel também atuou na Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), no Conselho de Ética e como suplente da Secretaria da Região Sul.

Enquanto defensores dos direitos humanos teremos o compromisso de cobrar das autoridades competentes a elucidação do assassinato do Gabriel.

Atenciosamante,

Rafaelly Wiest

Presidente do Grupo Dignidade

Diretora Executiva de Mulheres Transexuais da ANTRA

Secretária da Região Sul da ABGLT

Coordenadora do Transgrupo Marcela Prado

Posted by AFIN at 04:29:20 | Permalink | No Comments »

Thursday, June 11, 2009

CASO WALLACE: SÍNDROME DE PETER PAN NA ERA DA INOCÊNCIA

No discurso antes da votação na Assembléia Legislativa do Amazonas (ALE-AM) que, por unanimidade, encaminhou para a Comissão de Constituição e Justiça o pedido de abertura de processo por quebra de decoro, o deputado estadual Wallace Souza (PP) chorou, disse-se inocente, descreveu lástimas familiares, utilizou-se fartamente do lugar comum “Deus” e se referiu ao filho Rafael como uma criança. Toda a mídia sequelada amazomanoniquim atém-se a esse logro de péssimo bufão. Encenadas para ocasião e/ou provocadas por ver investigações sobre crime organizado e tráfico de drogas levarem Rafa à penitenciária e esbarrarem, juntamente com a acusação de corrupção de menores, na sua (até então) imunidade parlamentar, as demonstrações emocionais do deputado, partindo do mais baixo grau do entendimento, o senso comum, o “ter visto”, “ter ouvido” do qual fala Spinoza, descambam na fantasia psicológica e não devem corromper as decisões jurídicas.

A ERA DA INOCÊNCIA DE WALLACE…

Na mentalidade desmemoriada na lembrança e na afetividade dos adultos em relação a suas infâncias, a infância aparece como uma era de inocência, pureza, retardamento, felicidade, ingenuidade, alheamento em relação ao futuro. Tudo que o cineasta espanhol Carlos Saura desmonta, em relação ao falso sentido dado à infância pela maioria dos adultos, com as imagens do seu Cría Cuervos.

Nada a ver com “princípio de inocência” ou “presunção da inocência”, princípio do direito penal que estabelece a inocência do réu como regra até que o processo instituído contra ele seja concluído e o trânsito em julgado o defina culpado em “sentença penal condenatória” (Constituição Federal art. 5º, LVII). Seguindo este princípio, Wallace, a princípio, nem poderia dizer-se “inocente”, uma vez que ainda não é réu. A não ser que ele esteja adiantando-se a uma possível morosidade da Justiça e já se coloque, peremptoriamente, como réu. Caso sua autoacusação não interesse à Justiça, a comoção muito menos deve fazer parte das decisões na ALE, em que pese as dúvidas quanto ao entendimento de muitos deputados.

A SÍNDORME DE PETER PAN DE RAFAEL…

Alguns adultos, tão afeitos que foram à era da inocência, continuam comportamentalmente imaturos, infantilizados emocional, social ou sexualmente. “Crianças-grandes”. A isto, desde a publicação do best-seller The Peter Pan Syndrome, em 1983, pelo Dr. Dan Kiley, a psicologia denominou de Síndrome de Peter Pan e passou a fazer referência a ela, embora não se tenha comprovação de ser uma doença psicológica real, não se fazendo constante nos manuais de transtorno mental.

Na tentativa de embaralhar fantasia e realidade, anulando as evidências desta, o deputado Wallace mistura as acusações que recaem sobre Rafael com os hábitos de uma criança temerária: “Como podem dizer que ele (Rafael) matou 27, 30, 37 pessoas? Como podem fazer isso com um rapaz que até hoje procura o meu quarto de noite, para dormir, com medo de ficar sozinho?”

A própria flexibilização dos números de homicídios é um truque linguistico para relativizar as acusações práticas. Mas, diferente da chamada Síndrome de Peter Pan, pelo mais famoso Complexo de Édipo freudiano, fundo universal de todo inconsciente psicanalítico, segundo a dita ciência psicanálise, toda criança terá de passar por volta da chamada segunda infância (7 a 11 anos) para uma fase posterior, da qual formar-se-á um adulto de comportamento normal ou patológico (psicose).

O deputado Wallace acrescenta que “uma psicóloga, quando olhou a foto de Rafael, disse que, pelo olhar, sabia que ele era incapaz de matar”. Não vem ao caso enquadrar Rafael (só fizemos referência a ele com a Síndrome de Peter Pan porque não é considerada real e pelas narrações de seu pai), mas muito menos vem ao caso dar crédito ou não a uma psicóloga que faz uso de uma assertiva psicológica por uma fotografia e sem pedido judicial, já que ele está sub judice. Do ponto de vista legal é totalmente irrelevante. No entanto, no inverso dos psicopatas hollywoodianos, a principal sedução de um psicopata serial é o olhar dócil infantilizado num corpo adulto. Mas não quer dizer que o olhar de Rafael…

ESVAZIAMENTO E IMANÊNCIA DO SIGNO “DEUS”

Esquecendo ou desconhecendo o enunciado de Cristo: “Dai a César o que é de César”, em todas as partes de seu depoimento, o deputado Wallace trazia Deus como testemunha. Como fazem todos os embusteiros, dentre eles políticos, padres ou pastores corruptos, e também réus de alguma acusação difícil de comprovar inocência, clama-se tanto por Deus, que ele deixa sua transcendência e vem pra terra. Por um lado é um esvaziamento da máquina abstrata “Deus”, que já era vazia e manipulada conforme o motivo do massacre desde as Cruzadas; mas, por outro lado, Deus se fez carne e habita entre os homens. “O pobre é deus na terra” (Toni Negri). A ilusão de um Deus transcendente já não existe mais. Portanto, Deus não está mais do lado do poder constituído, e mesmo que a ALE-AM venha ou não cassá-lo, mesmo que a Justiça venha ou não condená-lo, os humilhados nos programas miserabilistas, os eleitores ludibriados em votos não-democráticos já agiram para diminuir a violência e afirmar ao mesmo tempo as singularidades e as coletividades democráticas, porque são deuses e tudo podem.

Posted by AFIN at 12:47:36 | Permalink | No Comments »

Saturday, June 6, 2009

APÓS PERÍCIA TÉCNICA, POLÍCIA FEDERAL CONCLUI QUE EXPLOSÃO FOI ACIDENTAL

No dia 27 de fevereiro deste ano, uma explosão ocorreu no laboratório de perícia da superintendência da Polícia Federal do Amazonas, matando um perito na hora e mais dois, que não resistiram aos ferimentos, falecendo no hospital.

A imprensa local apressou-se em declarar como acidente o fato, sem que a própria PF descartasse a possibilidade de atentado. Distante anos-luz da função democrática e cívica de informar, especularam, principalmente porque naquele momento, início das investigações sobre a quadrilha chefiada pelo deputado estadual Wallace Souza, havia informações sobre ameaças à uma juíza federal. Fiel aos interesses econômicos que se sobrepõem, via de regra, aos comunitários, a imprensa local antecipou-se à PF, e sem fatos que garantissem esta hipótese, erraram duas vezes.

Primeiro, porque à época a própria PF não descartou a hipótese de atentado. E agora, concluída a perícia e chegada a conclusão de que foi um acidente, a imprensa manoniquim tampouco pode afirmar que se adiantou ao veredito da perícia. Não é função do jornalismo especular. Dupla barrigada, duplo atentado à inteligência do leitor, que vê na imprensa menos um serviço público que uma armadilha contra a cidadania.

A notícia, via Agência Brasil:

Manaus – A explosão ocorrida na sede da Polícia Federal (PF) em Manaus, no dia 27 de fevereiro deste ano, foi um acidente de trabalho. A conclusão é de perícia feita pelo Instituto Nacional de Criminalística da PF, que foi apresentada nesta sexta-feira (5) na capital amazonense.

De acordo com o superintendente da Polícia Federal no Amazonas, delegado Sérgio Fontes, a explosão foi causada por oito bombas de fabricação caseira, usadas de maneira criminosa para pesca artesanal. As bombas, que pesavam cerca de 4,4 quilos, estavam sendo manipuladas para desarticulação. Na ocasião, quatro peritos criminais estavam no local. Três deles morreram.

Houve um erro dos peritos de achar que havia segurança suficiente para manipular as bombas naquele local e naquelas condições. Trata-se de uma falha de procedimento. Eles deveriam ter fotografado o material antes de destruí-lo e depois ter analisado os destroços”, disse Fontes.

O laudo pericial, que tem 63 páginas, descartou a hipótese de atentado. As investigações foram feitas com base em exames químicos em fragmentos de objetos que estavam no local e nas imagens recuperadas de dois cartões de memória das câmeras usadas pelos peritos momentos antes da explosão. No dia do acidente, 15 bombas como as que explodiram estavam no laboratório de bioquímica da Polícia Federal em Manaus. As sete bombas que não explodiram foram detonadas no dia 2 de março, de forma controlada pela instituição.

A perícia diz o que explodiu, mas não como explodiu. Não há como. Nossa dedução é que tenha sido pela manipulação das bombas, por meio de estilete ou chave de fenda. Um desses artefatos pode ter gerado uma reação com o material manipulado, que explodiu uma bomba e por, um fenômeno chamado ’simpatia’, explodiu as outras sete”, acrescentou o superintendente da PF no Amazonas.

Em entrevista à Agência Brasil, o presidente do inquérito policial instaurado para apurar as causas do acidente, delegado Caio Porto Ferreira, disse que, possivelmente, o perito Antônio Carlos Oliveira era quem manuseava a primeira bomba que explodiu. Segundo o atestado de óbito, ele morreu por anemia aguda hemorrágica, produzida por ação térmica e contusa. As outras vítimas, Max Augusto Neves Nunes e Maurício Barreto da Silva, tiveram choque neurogênico provocado por queimaduras de terceiro grau. Max teve 100% do corpo atingido pelas queimaduras e Maurício sofreu queimaduras de terceiro grau em 70% do corpo.

Por causa do nível de suas lesões, tudo indica que o perito Oliveira era quem manuseava os objetos que explodiram”, disse o delegado Ferreira.

O prédio da P F em Manaus será totalmente reformado até o fim de 2010. Cerca de R$ 4 milhões serão gastos na nova estrutura da superintendência, com o objetivo de garantir mais segurança, sobretudo nos procedimentos relacionados com equipamentos perigosos, incluindo os radioativos.

Posted by AFIN at 17:30:20 | Permalink | No Comments »

Friday, May 29, 2009

FILHO DE WALLACE SEM TATUAGEM E CAETANO VELOSO

Afetada por corpus jurídicos amazonenses que investigam seu ex-marido, deputado Wallace, sob suspeita de ser autor de vários crimes, a mãe de Rafael, também filho do deputado, procurando acreditar, e tentando fazer a opinião pública acreditar que Rafael não tem participação em nenhum dos crimes que lhes são atribuídos, afirmou que seu filho é uma criança limpa, e que não tem tatuagem.

O recurso de usar uma imagem impressa no corpo como tentativa de provar que seu filho é insuspeito, foi uma escolha preconceituosa de um signo, a tatuagem, que não serve para afirmar que alguém é ou não criminoso. Ser tatuado não significa ser bandido, facínora, crápula, corrupto, assassino, estuprador, drogado, ou qualquer conduta que o valha. Assim, como não ser tatuado pode significar estas condutas sociopatas. Há policiais funcionários públicos que exercem suas funções seguindo a ordem institucional-constitucional trabalhando pelo Bem Comum, e são tatuados. Há policiais que transgridem esta ordem em proveito próprio, se associando aos facínoras, e são tatuados.

Em sua afirmação, a mãe só fez ecoar, por impulso, o que acreditou como signo discriminador próprio para julgar e condenar. Atendeu a uma enunciação forjada na linguagem de alguns policiais, e algumas pessoas, que não entendem que os delitos não saem de sujeitos estreitados no princípio de identidade como estigmatizado pela psiquiatria forense, que não vai além do óbvio. Estigma muito usado por seu ex-marido em seu programa contra os suspeitos que exibia na TV como mercadoria de lucro. Com a complacência de grande parte da sociedade dividida em tatuadas e não-tatuadas, mas cúmplices.

A tatuagem tem percurso histórico tecido nos códigos mítico, místico e social. Na aurora da civilização, homens se tatuavam como crença em força protetora transcendental. Faraós se tatuavam seguindo rituais nobres e teológicos. Antes dos brasões, as tatuagens serviam para manifestar estirpe nobre. E foi entendendo o significado estético/nobre/erótico/transcendental da tatuagem que Caetano Veloso cantou:

Menino do Rio

Calor que provoca arrepio

Dragão tatuado no braço

Coração

Adoro ver-te.”

A tatuagem é na superfície da pele, mas pode ir fundo. Fundar outra linguagem corpo. Pode descarnar como outra manifestação sensorial. Pode marcar narcisismo em parte alheia do corpo visibilizando-a. Um braço, um torso, uma perna, uma bunda, um punho, um ventre, uma fimose, um seio, um rosto, uma xota, um corpo sem órgãos, tudo pode se deslocar no movimento ‘tatuante’. Pode ser que a tatuagem sirva para desviar o olhar, deslocar, estranhar aquele que olha esta parte do corpo e não a encontra. Encontra a imagem, diria o filósofo Baudrillard, o signo sedutor que desvia a percepção e o entendimento. A certeza que ali existe um corpo perfeito.

Caetano ‘caetanizou’ o Menino do Rio, com sua beleza tatuada arrepiante com o mar, o sol, a areia, os pássaros e o dragão. Os percursos de Rafael não o tatuaram. Assim, em seu caso, não ser tatuado, nada muda.

Posted by AFIN at 19:58:50 | Permalink | No Comments »

UMA DES-APROVAÇÃO DO SISTEMA EDUCACIONAL

João Grilo olhou de um lado

Disse para o diretor:

Este mestre é um quadrado

Fique sabendo o senhor

Sem dúvida exame não fez

O aluno dessa vez

Ensinou ao professor.”

(do cordel Proezas de João Grilo,

de João Ferreira de Lima)


Clique na imagem para ampliá-la.

Não é de maior importância dizer que essa prova foi realizada na Escola Estadual Cleomenes do Carmo Chaves (Manaus-Amazonas-Brasil), assim como o nome do aluno só o colocamos a pedido do próprio. Mais do que a comprovação verossímil de um fato, a este bloguinho interessa sim a subjetividade envolvida na questão, que vai muito além desse fato, expondo de maneira irônica, transgressora, selvagem, desconcertante o antiquado sistema educacional público e privado do Amazonas e de todos os estados brasileiros ― assim como o de muitos outros lugares de quando ainda nem existiam escolas no Brasil ―, depauperado materialmente e, principalmente, de concepções educ-ativas libertadoras.

A ESCOLA COMO ESPAÇO DE CONFINAMENTO

Provavelmente toda educação consiste em duas coisas: em primeiro lugar conter o assalto impetuoso da criança ignorante para a verdade e em seguida iniciar, de modo suave, imperceptível, gradual, a criança humilhada na mentira.”

Franz Kafka

O filósofo Michel Foucault diz ser esse sistema tão frágil em sua estrutura que qualquer pequeno sopro o faz desmoronar, por isso ele se faz revestir de tantos aparatos de repressão de todas as formas (castigos físicos… sanções disciplinares… câmeras de segurança) numa linha de subjetivação dura que vem desde o nascimento da escola segundo as regras do exército napoleônico, como analisa o filósofo francês no seu Vigiar e Punir.

A ineficiência da escola começa pela sua simulação e falta de relação com o mundo prático. Por isso já houve professor a afirmar em alto e mau som: “Na escola você é aluno, seus problemas ficam do portão pra fora”, quando se sabe que esse dissociamento paranóico é impossível. Se existem conflitos familiares, vão prejudicar o processual de aprendizagem de uma criança. Se o aluno é explorado em sua força de trabalho, não terá as energias físicas e emocionais para envolver-se livremente com o conhecimento. E, como diz Marx, “só existe educação com liberdade e envolvimento”. Acontece que a escola não precisaria ser nenhuma panacéia — como é empregada nos discursos de poder —, bastaria apenas ser lugar de pensamento e práxis para para modificar, geofilosoficamente, a realidade social. Mas acontece mais ainda de a escola ser justamente o principal “aparelho ideológico do Estado”, como dizia Louis Althusser, e apenas confirme como verdade e realidade essa poeira ideológica que se intercambia com outros aparelhos na linha dura das violentações institucionais.

O indivíduo não cessa de passar de um espaço fechado a outro, cada um com suas leis: primeiro a família, depois a escola (”você não está mais na sua família”), depois a caserna (”você não está mais na escola”), depois a fábrica, de vez em quando o hospital, eventualmente a prisão, que é o meio de confinamento por excelência.” (Conversações, Gilles Deleuze)

Como não é um espaço dinâmico, autêntico e espontâneo, ao contrário, sendo de cerceamento e captura, as relações secretário-diretor-professor-aluno serão hierárquicas e mantidas pela imposição e pela chantagem. Embaixo, nessa linha vertical, os alunos, que já tiveram seus ímpetos, em tempos não muito distantes, atrás da porta da sala de aula, arrefecidos nas torturas do milho sob os joelhos, suportarão o peso desse sistema, agora sob a forma da chamada e da prova. Como muitos não se tornaram crianças de cabelos brancos, como diria Freud, muitas serão as formas de tentar escapar, que vão desde os assassinatos em massa dentro de sala de aula ― Columbine! ―, passando pelas depredações do patrimônio público ― escola paulista destruída por crianças (ex-alunos) entre 8 e 13 anos ― até o uso do humor e da inteligência como força de demonstração das falseações do saber-poder escolar ― as respostas à prova acima, em Manaus.

UM CASO DE PROVAS E CONTRA-PROVAS

Se as questões mínima dos alunos fossem ouvidas, era o bastante para se explodirem todos os centros de ensino.” (Michel Foucault)

Alessandro, um rapaz forte, sorridente, alegre, zombeteiro, irônico, sagaz, falante, aluno do 3º Ano do Ensino Médio, deu respostas às questões de uma prova que, mais do que desrespeito ou afronta nas respostas, mais do que um mero caso individual, são enunciados de uma contra-prova que desmontam um sistema educacional decadente e ultrapassado, por isso este bloguinho publica essas questões e entra numa linha de proximidade filopedagógica.

O que significa a palavra Feudalismo?

R= Eu sei lá o que significa Feudalismo.

A escola tradicional é o lugar, por excelência, de moradia eterna da causadora de todos os sofrimentos do humano demasiado humano (Nietzsche): a Memória. Na verdade o que se tem aí é apenas um simulacro da Memória. Acumulação de informações a partir do “decoreba”. Didática do tatibitate. Ora, por qualquer estudo técnico-superficial sobre as questões mentais, sabe-se que a memória “grava” todas as experiências que passaram pelo Sistema Nervoso Central ― até Deus, como diria Nietzsche, se por aí passasse, existiria ―, mas ela tem seu próprio funcionamento e nem sempre depende do bel prazer da consciência, já que a grande maioria dessas experiências (e toda experiência é única e nunca se repete) escapa à memória-lembrança (Henri Bergson) e se aloja no inconsciente. As anêmicas pesquisas escolares (”control C control V”), essas é que não passam mesmo por quaisquer fagulhas de sinapse neuronal. E mesmo que Alessandro “soubesse”, que importância tem essa informação se não for relacionada às principais características do Feudalismo ― transcendência e representação (Toni Negri) ― e a forma como elas são atualizadas, depois de um período de imanência, na modernidade capitalista? Isso não somente porque ainda se pode ver em qualquer interior do Amazonas relações de servidão, mas é que há um vínculo entre escravo-servo-trabalhador, e a própria família-nuclear-cristã-burguesa carrega o germe feudalista. Sem levar em conta essas questões práticas, pode-se saber sobre a Revolução Francesa, co-secante, verbo to be or no to be, novas regras ortográficas, “pode-se aprender durante todo o dia sem por isso ser ensinado”, como diz a filósofa judia-alemã Hannah Arendt.

Quem eram os mansos, e o que faziam?

R= Ora, os mansos eram os que não brigavam não faziam bagunça não se metiam em brigas. Eles não faziam nada. Por acaso a senhora já viu algum manso fazer alguma coisa.

Sabemos tanto quanto Alessandro quem são os mansos. Sabemos que qualquer pesquisa capivarol no Wikipédia pode nos apresentar o objeto em segredo da questão, mas preferimos por não saber tudo da cultura inútil. Foram-se as décadas que um professor se dava o privilégio de ter o exemplar de um livro comprado no sul do país, que ninguém mais tinha em Manaus, podendo por isso arrotar abacaba transgênica e se passar por intelectual. Haviam professores que acreditavam estar revelando o grande busílis do mundo no quadro quando ali na sala ao lado tinha outro fazendo a mesma coisa. É a grande confusão entre raciocínio e inteligência. Quanto maior o blefe das respostas-prontas, mais inteligentes parecem. Há quem ainda acredite?

Alessandro não é manso. Sabemos que do ponto de vista filosófico ele está certo. E sua resposta demonstra sua postura em um mundo onde só os mansos de coração herdarão o reino dos céus, nosotros teremos que competir pela subvivência ou formaremos novos tipos de comunidade, como fizeram muitos vagamundos na época do Mercantilismo, como antes havia feito Jesus Cristo (não o de Paulo, mas o filho de Maria), que escapem às armadilhas, prêmios ou sanções, do poder escravagista-feudal-capitalista.

Quais eram os bens do senhor feudal?

E como é que eu vou saber o que esse filha da puta tinha, se eu não tenho o assunto nem livro, e a senhora nem deixou eu fazer com quem tinha o assunto.

Pela memória-lembrança, Alessandro não lembra, mas pela memória-contração (outra vez Bergson), que aproxima o passado com questões atuais, pelo palavrão empregado em referência ao senhor feudal, ele sabe de todo autoritarismo de um senhor feudal. E há professores-senhores feudais. Ele pressente e se rebela contra um sistema que continua mantendo um autoritarismo nas relações, impedindo que se estabeleça um ambiente sadio, fundado no diálogo e no debate livre de idéias, sejam quais forem, desde que digam respeito à coletividade e, principalmente, que atravesse, bergsonianamente, para além da memória mecânica, o Acontecimento e o leve num movimento criador da Memória Mundo (Deleuze).

NOVO ENEM, NOVO EDUCARE, NOVO ALUNO

FORÇA E UM BELO SOM

COMO O DE UM ARCO RETESADO

EU QUERO VIVER ASSIM

ATÉ O DIA DA MINHA MORTE.”

(O Arco, cinema do sul-coreano Kim Ki-Duc)

O culto ao simulacro da memória vem desde a Idade Média, quando aqueles que liam os pergaminhos decidiam as “verdades” que deveriam ser ditas e as que deveriam permanecer nas trevas, escondidas dos olhos e ouvidos dos ímpios. Na modernidade, com o crescimento vertiginoso das cidades e a universalização progressiva do saber, até mesmo devido à necessidade de novas formas de coação, a linguagem como representação do mundo vai reorganizar a transcendência para docilizar a multidão, levando-a, a partir da idéia de povo, a tornar-se algo uno e manobrável.

A multidão é uma multiplicidade, um plano de singularidades, um conjunto aberto de relações, que não é homogênea nem idêntica a si mesma, e mantém uma relação indistinta com os que estão fora dela.” (Império, Toni Negri)

Embora há muito se apresentassem, teoricamente, no Plano Político Pedagógico de quase todas as escolas brasileiras palavras como “Construtivismo”, “Paulo Freire”, “avaliação contínua”, até então a escola tradicional, a partir da repetição-simulação, vinha consolidando essa docilização do corpo e da mente. A própria avaliação contínua, da forma que veio a ser empregada, acabou se tornando pior ainda para o aluno, que viu a grande, terrível e totalitária prova ser fragmentada em várias menores, todas ferindo a integridade dos alunos, causando-lhes medo, ansiedade, taquicardia, insônia, stress, etc. Microfascismos do cotidiano escolar. Nada de observação da totalidade existencial do educando. Foi preciso um torneiro-mecânico se tornar presidente para tentar desbloquear os afetos construtores e, na prática, aproximar a escola da comunidade e da vida.

Apesar da simplicidade do novo Enem, lançado pelo MEC no início do ano, de querer diminuir a recorrência ao decoreba e ligar o ato de educar com a realidade social e política, para que, independente da área, possa-se fundamentar uma ação, o MEC observou que a “formação de professores será entrave para implantação do novo modelo de ensino médio”. É que nunca houve em estados como o Amazonas, em capitais como Manaus, investimentos em trabalhos de formação que fizessem avançar (educare) a compreensão da relação entre escola e realidade. Ao contrário, esta apareceu sempre como um entrave para aquela. Mais difícil ainda será encontrar, tão afeitas que são ao blefe des-educativo, secretarias estaduais e municipais que compreendam essas questões postas na mesa sem trapaça.

É um problema que vai sendo enfrentado pela primeira vez na história brasileira em várias frentes com políticas públicas educacionais que atingem a escola básica e até tentam fazer vazar uma fresta de luz no buraco negro universitário.

A educação não é uma panacéia. É o aumento da potência de agir da cidade (Spinoza), e, por isso, necessita de outros educadores que joguem seus “segredinhos sujos” e lancem-se para questões mais vastas. De que adianta a Química isolada da questão do petróleo, da guerra? De que adianta o inglês obrigatório se não se observa a decadência do Imperialismo Americano? De que adianta a História se não se debate o fim da História? De que adianta a Biologia se não se observam as mutações e os controles que a microbiologia opera cotidianamente no próprio corpo humano? De que adianta a Geografia se não se observam na cheia amazonense a negligência governamental com a população ribeirinha? Língua Portuguesa… Filosofia… Literatura… Matemática… Cada qual na sua gaveta, como pretendia a velha psicologia da aprendizagem.

Além de tudo isso, uma outra postura educ-ativa, na forma de se relacionar, que faça do espaço da sala de aula um encontro com o olhar do outro. Como diz Hannah Arendt, só pode trabalhar na educação e ter filhos quem tem compromisso com os jovens. Alessandro relatou-nos que não respondeu à prova com raiva, apenas encarou como se conversasse, colocando as respostas da forma como fluíam a sua mente. Mas na escola é proibido palavrões, mesmo quando não são usados em tom ofensivo, como neste caso. É proibido conversar com o colega, é proibido inventar, é proibido discordar, é proibido beijar, abraçar, namorar tem diversas escolas em Manaus, principalmente entre as particulares, que é proibido expressamente aos alunos se tocarem —, é proibido não saber o já posto…

Mas no aluno está a raiz do verbo latino “alere” (“Criar!”), e não de a-luno (“sem luz”), como muitos dizem. É preciso atualizar o conceito e, para isso, é necessário um novo educador. “É preciso esquecer para lembrar”, como diz Fernando Pessoa. É preciso destruir o espaço simbólico da escola, pois que, como diz Jules Celma no Diário de um Educastrador, “a destruição do espaço alienado passa por um uso fortemente distorcido de tudo aquilo que o compõe”. Não é levar a comunidade à escola, como repete a grande maioria ‘deplomada’ senso-comum. Nem se desfazer apenas do aparelho físico que, por sinal, está com os dias contados. Para além da clonagem do pensamento e da ação, é preciso fazer da escola uma cozinha, um tribunal, um campo de futebol, uma eleição, e, a partir da razão, do humor e da inteligência, aproveitar a diversidade dos saberes-práticas coletivos, desconstruindo os nós políticos-sociais e criar uma outra escola. Uma outra cidade.

Quero ser um homem que fala com os lábios e as palavras de um deus. Quero criar obras que, desde a madrugada, trabalhem no aumento do dia, obras que alegrem o olhar de um deus à luz do sol.”

(Zaratustra-Nietzsche)

Posted by AFIN at 08:35:17 | Permalink | No Comments »

Thursday, May 21, 2009

OPERAÇÃO ‘MOA’ DA CIVIL E FEDERAL: SEM HIPERTENSÃO, FILHO DE WALLACE SOUZA É PRESO

Enquanto o tio e vice-prefeito cassado continua incomunicável num estranhíssimo caso de estresse, segundo o hospital-amigo Prontocord, pai e sobrinho também são submetidos a estresse prolongado e doloroso.

A Polícia Civil e a Federal cumpriram ontem 62 mandados de busca e apreensão na cidade de Manaus, na operação que foi batizada de ‘Moa’, em alusão ao ex-policial e ex-segurança de Wallace Souza, Moacyr Jorge, que foi preso e, com o seu depoimento, ajudou a desarticular o esquema de tráfico de drogas e armas em que estão envolvidos supostamente os irmãos Souza, e confirmadamente pelas investigações Raphael e o pai, apesar de apenas o filho ter sido indiciado, devido à imunidade parlamentar do ainda-deputado estadual.

Na operação foram presos ainda vários integrantes da quadrilha, dentre eles o coronel Felipe Arce, que já havia sido preso pela operação Centurião, acusado de participar de grupo de extermínio e de um esquema de fraudes no INSS. Arce tem íntimas ligações com Wallace, para quem abriu as portas da PM, e permitiu a relação promíscua entre o programa do ainda-deputado e a força policial do Estado do Amazonas. “A minha polícia”, diria o governador Braga.

Os mandados foram expedidos pelo juiz Mauro Antony, da 2a Vara de Combate ao Uso e Tráfico de Entorpecentes, que recebeu e deve julgar o “Caso Wallace”.

No rescaldo da operação, foi apresentado como material apreendido um fortíssimo arsenal que incluía um fuzil com mira telescópica, farta munição e cerca de 70 mil reais.

No final da tarde, a notícia mais esperada: Raphael Souza, o Chefe, estava preso, fazendo o exame de corpo delito, retornando ao IML onde tantas vezes fora para verificar cadáveres de “amigos”. Neste momento, está recolhido ao IPAT.

Quanto faltará para chegar a vez do chefe-do-chefe?

Posted by AFIN at 04:15:13 | Permalink | Comments (2)

Wednesday, May 20, 2009

OPERAÇÃO POLICIAL PARA PRENDER ELEMENTOS LIGADOS AO DEPUTADO WALLACE

Está sendo realizada em Manaus Operação Policial com o objetivo de cumprir 62 mandados de busca e prisão de elementos ligados ao deputado Wallace Souza (PP), que se encontra em investigação policial como suspeito de autoria de vários crimes, nos quais se encontra também arrolado seu filho Rafael, vulgo Rafa.

A Operação, que começou às 5h da manhã, já apreendeu vários objetos, como computadores, prendeu alguns elementos denunciados pelo ex-policial e guarda costa do deputado, Moacir Jorge, o Moa, que se encontra preso em instituição prisional em Catanduva, Paraná. Entre os presos, encontram-se o policial coronel Arce, ex-comandante da Policia Militar. Para o delegado responsável pela Operação, está se concretizando, através do que as investigações têm apurado, as informações dadas pelo guarda costa Moa.

Posted by AFIN at 18:44:01 | Permalink | No Comments »