Saturday, July 4, 2009

O OLHAR VIGILANTE DA PREFEITURA E O OLHAR DOS ESTUDANTES

A prefeitura irregular de Manaus, em gestão sub judicee conflituosa da dupla Amazonino e Carlos Souza, apresenta uma nova ferramenta da “educação”: agora os pais dos alunos da rede pública e particular de ensino poderão, se desejarem, acessar via internet quais as rotas de ônibus que seus filhos tomaram nos últimos 30 dias.

O dispositivo, antes usado somente pela força policial para elucidar situações de crime agora será colocada à disposição e deleite paranóide de pais e educastradores em toda a cidade.

Evidência de que a gestão da dupla Amazonino/Souza tem menos um viés de interesses particulares sobrepondo-se sobre o público do que a patologia social do tirano. As duas vertentes, aliás, andam juntas. No entanto, a uma gestão patológica, amplamente contraditória a qualquer senso democrático, não basta criarem situações que facilitem a subtração do bem público a interesses privados: ela pretende submeter a cidade a uma enunciação de controle absoluto, de imobilidade e impossibilidade criadora. O panóptico. “Podes fazer de tudo, mas Eu saberei”, enunciado capturador que se encontra já na teologia cristã-paulina, e que é atualizada nas novas teletecnologias por governos cujo entendimento de mundo passa pela mesma má consciência que elaborou um deus ciumento e vingativo.

Nada, portanto, de educação. A ponto de revelar para qualquer estudante de primeiro período de qualquer curso de Psicologia, até da UFAM, a psicologia educastradora da SEMED, quando a sua psicopedagoga vai a um jornal local afirmar que a ferramenta “educativa” (as aspas são nossas) é útil, mas não substitui o diálogo familiar. Ignora a psicopedagoga que, em uma sociedade onde predominam elementos de ordem da democracia efetiva, o diálogo é condição de existência na medida em que seja produtor de novos dizeres e saberes, e que não se reduz à família, mas transborda por todo o social. Comum Unidade. Se não há diálogo, não há democracia. Se há democracia, ferramentas de controle não só não seriam úteis; elas simplesmente não seriam necessárias.

A ausência do diálogo que constrói da democracia já se encontra em cada escola, em cada secretaria do município e do estado, e se evidenciou claramente no conluio entre Executivo e Legislativo municipais, imprensa domesticada e setores reacionários do movimento estudantil, ao subtrair o direito à meia-passagem dos estudantes, beneficiando os interesses do empresário e prefeito vitalício de Manaus, Acyr Gurgacz. Acyr, aliás, como prefeito, já teria até anunciado a desativação dos terminais I e II (Constantino Nery e Cachoeirinha) sem que o IMTT ou a assessoria de imprensa da prefeitura viessem desmentir a informação.

O OLHAR DOS ESTUDANTES SOBRE A PREFEITURA NÃO É PANÓPTICO…

De seu lado, os estudantes, subtraídos em seu direito constituído, mas no exercício do seu direito constitutivo, vão às ruas, se mobilizam e lançam a campanha pedindo o impeachment do atual prefeito e de seu vice.

Uma evidência de que o olhar estudantil nada têm de controlado e embotado, e que, diferente do olhar institucional da gestão Amazonino, consegue vislumbrar uma cidade para além da cidade. Os estudantes sabem que um tirano controlador é antes uma consciência controlada e insegura, incapaz de lidar com produções coletivas que engendrem a potência democrática. Daí, o olhar crítico e clínico dos estudantes desejarem a subtração deste corpo que não carrega com a democracia nenhuma noção comum, e que só consegue compor, há mais de três décadas, afetos tristes, que impedem o surgimento da democracia de fato.

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Tuesday, June 30, 2009

NOTAS SOBRE A PASSAGEM DA CPI DA PEDOFILIA POR MANAUS E COARI

ЄO senador Magno Malta (PR/ES) não sabe que a pedofilia mais incisiva e perigosa socialmente é aquela que segrega os signos de uma infância solapada, um infantilismo sequelado, fruto da ilusão dos adultos capturados pela ordem do capital, e que foram interditados em seus fluxos intensivos e potência de agir, e que estão na tevê, na internet, na moda, nos dizeres, na música, nos corporais e incorporais da sociedade de consumo, submetendo as crianças a uma infância que não é a delas. Soubesse, a sua CPI teria que estabelecer uma base de atuação perene nas emissoras de tevê, com suas Anas Marias Bragas, Xuxas, Sashas, Maísas…

ЄNo entanto, a CPI tem se prestado, no plano democrático, a um importante trabalho: aproveitando a comoção emocional em torno da temática a pedofilia, bem mais carregada de elementos de ordem doutrinária igrejal que de ciência e de reflexão racional, desvelando aquilo que era evidente, mas que não se atualizava como real para o plano midiático: o envolvimento de membros das chamadas esferas do poder em práticas de violência sexual e exploração de mulheres, crianças e adolescentes, não apenas no sentido da tara psicopatológica, mas na tara social: o lucro pela exploração. Tal como no Caso Wallace, Adail, apontado como o chefe do esquema de desvios de royalties do gás natural de Urucum, é chefe, mas não apareceu ainda o chefe-do-chefe.

ЄO presidente da CPI da Pedofilia, senador Magno Malta, ao chegar a Manaus, afirmou ter recebido muitas pressões para que a CPI não viesse à cidade. De certa forma, não veio. Contando com apenas o presidente como membro titular, que criticou a ausência dos colegas de CPI e dos três senadores do Amazonas, os trabalhos terão de se reduzir àquilo que já estava previamente estabelecido. Malta não poderá, por exemplo, convocar para depôr ninguém além daqueles que já estavam previamente convocados, nem mesmo se denunciados em audiência pública.

Є Um déjà vu: o senador Arhur Neto, por exemplo, já atuou em defesa do Amazonas quando o assunto era exploração sexual infanto-juvenil. Foi ele quem articulou, junto com o senador Ney Suassuna (PMDB/PB), a retirada do nome de Omar Aziz da lista de indiciados da CPI da Prostituição Infantil, numa articulação que deixou boquiaberta a relatora, Deputada Maria do Rosário (PT/RS) – leia aqui e aqui. O tratamento amplamente favorável à Omar dado pela imprensa local sobre o caso fez com que o professor do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Amazonas, Gilson Monteiro, fosse agredido dentro das dependências do campus, por dois irmãos de Omar, atual vice-governador. Gilson usava a tibieza e comprometimento da imprensa local com os políticos locais como exemplo em uma aula de ética, quando uma sobrinha de Omar, debutante do curso, levantou-se e chamou o pai para defender a honra da família – leia aqui.

ЄEm Manaus, a CPI tomou os depoimentos de 12 pessoas, dentre elas, Fábio Marques Martins, da agência Mega Models, Andréa Domingues de Abreu, ambos considerados agenciadores das adolescentes, e Haroldo Portela, ex-secretário de comunicação da prefeitura de Coari. Portela é considerado a peça-chave no inquérito do Ministério Público sobre os desmembramentos da Operação Vorax. Era Portela quem organizava a exploração, mantinha contatos com os agenciadores e realizava o pagamento. Uma adolescente, identificada como Brenda, supostamente vítima da exploração pela quadrilha de Coari, também foi ouvida. Os programas eram pagos sempre com dinheiro público, e discriminados como “prestação de serviços para eventos sociais”. Em Coari estão previstos mais dez depoimentos, entre eles o de Adriano Salam, ex-secretário de administração e o do ex-prefeito, apontado como o chefe da quadrilha, Adail Pinheiro. A CPI realiza hoje os trabalhos na cidade do gasoduto e da Operação Vorax.

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Friday, June 26, 2009

MICHAEL JACKSON: 50 ANOS NA PÓS-MODERNA SOCIEDADE DO ESPETÁCULO


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Quando a imagem já não pode mais encerrar-se numa existência individual, mas carrega elementos que, biograficamente, servem para perceber um tempo e, principalmente, um processual de subjetivação, já não contam mais o tempo cronológico e os ritos particulares. Assim, morreu ainda há pouco um dos maiores “ídolos” pop de todos os tempos: Michael Jackson. Mas tivesse isso ocorrido há 20 anos passados ou daqui a 80 anos, o importante são os entendimentos que se pode tirar para fazer ver aquilo que muitas vezes está invisível numa existência superexposta pela mídia paparazzi em redundâncias e clichês, como a desse “astro” pop.

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SINOPSE BIOGRÁFICA

Michael Jackson nasceu em 29 de agosto de 1958, em Gary, cidade do estado norte-americano de Indiana. Começou a cantar e dançar profissionalmente ainda criança, aos 6 anos, juntamente com os irmãos Jackie, Tito, Jermaine, Marlon, que formavam o grupo Jackson Five, que tinha supervisão do tirânico pai, explorador sádico do talento das crianças. Segundo se conta, Michael às vezes vomitava somente de vê-lo e carregou traumas por toda a existência provenientes dos abusos paternos que sofreu.

A partir de 1972, passou a apresentar-se sozinho, numa carreira cada vez mais conhecida e promissora, até culminar com o disco Thriller, em 1982. Somente nos Estados Unidos o álbum vendeu 21 milhões de cópias, e mais de 27 milhões em todo o mundo. Dessa época ficou famoso também o passo de dança com o qual ele desliza para trás arrastando a ponta dos pés.

Em 1994, Michael Jackson casou-se com Lisa Marie Presley, a filha única do roqueiro Elvis Presley. O casamento durou apenas dois anos. Mas, ainda em 1996, ele se casou novamente, agora com Debbie Rowe, com quem teve dois filhos até a separação em 1999.

Ao todo, Michael Jackson teve três filhos: Michael Joseph Jackson Jr., Paris Michael Katherine Jackson e Prince “Blanket” Michael Jackson II.

Ultimamente, ele tinha um contrato para 20 shows, que deveriam ocorrer entre 8 de julho deste ano e 24 de fevereiro do ano que vem, no 02 Arena, em Londres. Apesar dos preços caríssimos, a procura era tamanha que ele já havia programado estender a temporada para 50 shows.

AS METAMORFOSES DE MICHAEL JACKSON

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Principalmente a partir da década de 80, a existência do “ícone” pop foi, esmiuçadamente, perseguida pela mídia e envolta em diversos escândalos, que vão desde conflitos com a gravadora Sony, a cena surrealista do pop perseguir uma galinha no Cenral Park, até acusações de fraudar o INSS e pedofilia. Mas nada sofreu tanta especulação quanto a mudança na cor da pele, que se esbranquiçava cada vez mais. Para quem observa a sociedade de controle, sociedade do espetáculo, a metamorfose – que Michael Jackson chegou a confirmar ser vitiligo, mas a mídia mundial nunca deu crédito, publicando sempre novas desconfianças sobre a tentativa deliberada do astro em tornar-se branco – aparece como uma ridicularização às avessas do racismo baseado na superioridade da cor branca da pele. Ele, de certa forma, sabe disso, tanto que faz uso disso no mais famoso vídeo-clip de sua carreira, transmitido simultaneamente para 27 países, com audiência de mais de 500 milhões de pessoas ao mesmo tempo: Blck or White. A indústria de consumo sendo levada ao extremo por seu próprio produto.

INFANTILISMO MENTAL X PEDOFILIA

E quanto mais ele se isolava em Neverland, mais os escândalos proliferavam. Em 1993, repercutiu em todo o mundo a acusação de pedofilia feita por um garoto de 13 anos. Ao final, Michael fez um acordo secreto milionário com o pai do garoto, e o caso, que não chegou a tramitar legalmente, foi encerrado. Mas, em 2003, Jackson foi novamente acusado de pedofilia. Elisabeth Taylor, que esteve junta com o cantor e o garoto, saiu em sua defesa: “Não houve nada anormal nisso. Nós rimos como crianças, assistimos um monte de filmes da Disney. Não havia nada de estranho nisso.” (Com certeza, assistir filmes da Disney não tem nada de estranho, só imagens-decalques para infantilizações prosopopéicas.) Um certo doutor Stan Katz foi chamado, e conversou durante horas com o cantor e também com o acusador, chegando à conclusão que Michael era mentalmente infantil e não agia de acordo com a conduta de um pedófilo. Em junho de 2005, muito abalado física e emocionalmente, Jackson foi absolvido, por falta de provas, de todas as acusações.

AO FINAL, HUMANITARISMO PÓS-MODERNO

Em 2002, como sempre envolto em escândalos midiáticos, Michael teve o terceiro filho, do qual dizia ser a mãe anônima e afirmando que o filho nascera de inseminação artificial, levando mais uma vez ao ápice as possibilidades pós-modernas.

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Ao mesmo tempo, passou, progressivamente, como querendo preservar um humanismo em outros lugares, típico do humanitarismo pós-moderno, a fazer doações para entidades humanitárias de todo o mundo, tanto que chegou ao Guinness devido à quantidade de pessoas que ajudou a partir daDangerous World Tour. Em 1999, doou ao então presidente da África do Sul, o líder africano Nelson Mandela, um cheque de $ 1.000.000. A lista de doações em cheque, de artigos seus para leilão, de shows beneficentes é imensa. Ultimamente, ele havia, inclusive, manifestado desejo de encontrar-se com Lula para contribuir com os trabalhos sociais em efetivação pelo governo democrático do Sapo Barbudo. Mas o encontro fica pra próxima, pois hoje, 25 de junho de 2009, aos 50 anos, Michael Jackson cumpriu sua pendência existencial. Mas as mutações continuam, pois ele, que levou às vezes além do limite a própria pós-moderna sociedade do espetáculo que o produziu, não será tão cedo abandonado por ela, em que pese a volatilidade desta.

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Saturday, June 20, 2009

O BARULHO DOS AFRICANOS E O SILÊNCIO DOS ‘BOLEIROS’

A relação do homem com o tempo não é uma relação direta. É necessário ao homem, para suportar o real, estabelecer com ele uma relação de territorialidade: organização dos signos e elementos (corporais e incorporais) de modo a estabelecer não uma referência de ordem estática (identidade, pertencimento), mas uma linha a-significante, que no entanto remete a uma territorialização que permite o estabelecimento de um modo de existir, em toda a sua complexidade.

A cultura africana têm, entre diversas outras culturas, uma relação de proximidade e intimidade singular com os sons e ritmos. Longe de um mimetismo da natureza, assim como os povos nativos da Amazônia, por exemplo, os africanos compõem com os objetos novas formas e corpos, outros afetos e perceptos. Um organizador semiótico que produz territórios existenciais, que diferentemente de uma identidade ou de uma subjetivação, não é estática e nem pode ser capturada. Daí a explosão transbordante dos sons africanos em todos os outros continentes, com toda a complexidade e riqueza: os atabaques e os orixás que o digam…

O SOM QUE INCOMODA O MERCADO DA BOLA

Em meio a um torneio caça-níqueis, menos futebolístico que financeiro, são elas que estão em voga: as vuvuzelas. Não que sejam novidade no mundo do futebol. Desde a década de 60 elas estão aí, pelos estádios. Mas, com a força do capital, chegaram à África e compuseram com a musicalidade dos africanos uma poderosa melodia.

Contam que jogadores, técnicos e equipes de tevê e rádio presentes à África do Sul têm reclamado do barulho ensurdecedor das vuvuzelas, sopradas desde antes até muito depois das partidas da Copa das Confederações. Mais ainda quando um time do continente, como o Egito, apronta, como o fez, para cima de Brasil e Itália.

Estranhamento em realidade estranho, se considerarmos que outros “ruídos”, bem mais daninhos ao futebol e aos jogadores são ignorados ou bem suportados. Os jogadores, submetidos ao ritmo alucinante de treinamentos, concentrações, confinamentos, pressão física e psicológica, alterações de fuso horário, rotina determinada por outrem, sem direito a férias, jogando um torneio posicionado cirurgicamente nas semanas que sucedem o término da anterior temporada européia (onde jogam a maioria deles) e precedem a seguinte. Nenhuma reclamação. Igualmente, o ruído estranho ao futebol como produção ludoestética do homem, ao transformar o jogo em mercadoria, tentando interditar o intempestivo. O anódino circo do futebol se incomoda com um objeto que faz parte do bestiário deste mesmo mercado (alguém levou as ‘vuvuzelas’ para a África com o claro intento de lucrar), e que encontrou numa composição entre objeto e humano, uma produção de som que transborda a ordem do futebusiness. Por que os jogadores não se incomodam com o estranho ruído do silêncio que é a ausência do futebol (e a presença saturada do negócio, do futebusiness) num torneio internacional de seleções? Por que à imprensa esportiva não incomoda o silêncio dos jogadores das chamadas grandes potências (Brasil, Itália), mais preocupados com o gerenciamento da carreira, e que encaram o torneio como uma obrigação contratual, em contraposição aos jogadores, por exemplo, de um Egito, que correm, brigam e se entregam à disputa do jogo sem a intromissão de elementos exógenos?

Enquanto os ‘boleiros’ não ouvem o ensurdecedor silêncio do futebol que lhes falta, terão de se contentar em se incomodar com as vuvuzelas. Pode ser que, em termos de espetáculo, só reste ao torcedor mirar a alegria dançante e contagiante da torcida africana, ainda que seja pelo mistificado olhar do pseudo-antropólogo do exótico.

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Tuesday, June 2, 2009

DESAPARECIMENTO DE AVIÃO REVELA A AUSÊNCIA DO REAL NA MÍDIA

Quando o avião da Air France desapareceu em alto mar, sem deixar vestígios que pudessem revelar o seu paradeiro, dois sistemas constitutivos da chamada pós-modernidade foram ameaçados: a onisciência/onipotência/onipresença da teletecnologia e a força de mobilização midiática.

Para além da dor e angústia (reais) dos parentes e amigos dos passageiros, existe uma máquina de produção do hiperreal que move suas engrenagens na tentativa de cobrir o rasgo epistemológico que ocorre diante de tal acontecimento.

A imprensa trabalha produzindo decepção: termo usado pelo filósofo das velocidades, Paul Virilio, para designar a produção de saberes que tem por objetivo menos informar que ocultar. Contraprodução de informação, ausente dos elementos de ordem sígnico-cognitiva que permitiriam aos espectadores, telespectadores e leitores formarem uma sentença a partir dos fatos.

Para isso, se utiliza do aparato tecnológico que dispõe: imagens “em tempo real”, produção de dizeres em cascata, superposição de imagens e som em sequência ultrarrápidas, adesivação de valor pseudocientífico aos dizeres através do “especialismo midiático” – o exército de especialistas sempre prontos a opinar sobre quaisquer assuntos onde quer que esteja uma telinha – cortes e sequências de cenas em formato de filme de ação hollywoodianos, montagem da reportagem em formato filme estilo suspense (nada de Hitchcock), a telinha pulsante transbordando um real “mais real do que o real” (Baudrillard). A tensão emocional pasteurizada procura produzir no espectador uma sensação de dor e expectativa, uma contaminação emotiva em cadeia nacional de rádio e televisão. Tudo, é claro, entremeado pelo intervalo comercial. Parte do que a cientista social Naomi Klein chamou de “Doutrina de Choque”.

No entanto, o telespectador, sem os elementos necessários à composição neurocognitiva, é incapaz de produzir uma relação emotiva com o acontecimento. O discurso televisivo, como de resto os discursos padronizados das teletecnologias – incluindo a internet – impossibilita que o aparato neurocerebral humano consiga produzir territórios cognitivos nos quais possa se posicionar. É o criador se sujeitando à criatura. Sem os referenciais espaço-temporais necessários à produção estética (mesmo uma produção estética carregada dos códigos da loucura têm sua territorialidade e suas coordenadas, ainda que diversas do “padrão”), o discurso se torna ele próprio esquizofrenizado. Ao ponto de um apresentador televisivo, num noticiário matutino, ter ficado espantado pelo fato de um avião tão grande ter simplesmente desaparecido. O que causou numa telespectadora não capturada pela rede estupidificante a reação imediata: “o avião pode ser grande pra ele, mas no meio do mundo, é apenas um grão de areia”. Complexo de Kaspar Hauser?

Mesmo a ilusão da deusa Teletecnologia, que tudo sabe e tudo vê, não sobrevive à queda e desaparecimento de um avião no ar: no momento em que deveriam evidenciar a sua eficiência, os mil aparatos tecnológicos que circundam o globo em órbita supersônica e os nanoapatrechos do supermoderno avião que fazem tudo ficar mais fácil e automático, falharam. Naquele momento, um navio viking ou uma caravela genovesiana teriam sido mais eficazes: poderiam facilmente avistar e se aproximar do local da queda.

Enquanto a mídia produz uma desterritorialização relativa em termos de referenciais neurocognitivos, visando produzir um efeito emotivo em cascata e padronizado, consegue o efeito contrário: impossibilitados de compor afetivamente com o acontecimento, resta ao telespectador-videota o embotamento afetivo. A indiferença. Não houve queda, sequer existiu avião, da mesma forma que não se ouvem as bombas que diuturnamente explodem no Afeganistão, Iraque, Palestina, e os gritos dos torturados em Guantánamo, nas prisões secretas estadunidenses e na delegacia da vizinhança.

O que resta é um espectro da dor, culto à morte por uma instância social de uma sociedade tanática (mídia, governos), e que somente a eles pertence e diz respeito. Do outro lado, uma dor real: a dos parentes e amigos das vítimas, que sofrem uma dupla violentação, a da perda dos entes queridos, e a do uso de sua dor como móbil para o lucro.

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Friday, April 17, 2009

MUTIRÃO CARCERÁRIO DO CNJ EM MANAUS

Diógenes, que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões e começou a bradar: ‘Lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos’.” (Padre António Vieira, Sermão do Bom Ladrão)

Ninguém é ingênuo (muito menos no conceito de Friedrich Schiller) para entrar em conformidade com a teoria do bom selvagem, de Jean-Jacques Rosseau, mote do sensabor Romantismo brasileiro: “Todo homem nasce bom, a sociedade é que o corrompe.” Por outro lado, haverá alguém que de tanta imbecilidade maniqueísta seja capaz de dizer que os homens são in natura maus, devendo, portanto, ser segregados e controlados?

Ao contrário da possibilidade de ambas imbecilidades citadas acima, a quantidade de presos e os tipos de presos que contêm uma sociedade demonstram o quanto esta sociedade é tirânica, sendo esta tirania ditada (no caso de ditadura militar, por exemplo) ou disfarçada em falsa democracia.

No caso do Amazonas, matéria já estudada por quem está fora e vivenciada por quem está dentro das prisões, o número de presos extrapola a capacidade prisional, não somente pelo desrespeito aos direitos humanos dos detentos, mas também na postura violenta de um Estado que pratica a punição generalizada, em detrimento de gestão e serviços públicos, como forma de coibir a criminalidade.

Ao todo, segundo dados oficiais, o Amazonas tem 4.163 presos. Desses, 1.402 são condenados e 2.761, provisórios. Sabendo-se da morosidade do Judiciário e das corrupções nos tribunais e no sistema prisional amazonenses, o Conselho Nacional de Justiça – CNJ iniciou ontem um mutirão carcerário que acontecerá, além da capital Manaus, nos municípios de Coari, Humaitá, Itacoatiara, Manacapuru, Maués, Parintins, Tabatinga e Tefé, onde ocorrerá “inspeção em cadeias e a instalação de postos de advocacia voluntária. (…) Além de averiguar a situação dos processos, o mutirão carcerário também promove ações de capacitação e reinserção social dos egressos de sistema prisional”.

Para um estado onde o governador está sendo investigado pela Procuradoria Geral da República por fraude bilionária em combustíveis, onde o prefeito cassado da capital assumiu a partir de liminar, onde deputado controla tráfico de drogas e chefia grupos de extermínio, onde desembargador trama morte de outro desembargador, onde as polícias são consideradas das mais corruptas do país…, afora os que estão atrás das grades com ligação com mandantes como esses “acima de quaisquer suspeitas”, é provável que o CNJ encontre apenas inocentes. O mesmo não se poderia dizer, do ponto de vista judicial, para muitos que estão à frente das grades.

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Wednesday, March 25, 2009

TÉCNICO DO MILAN DEIXA RASTRO DE RACISMO AO COMPARAR PATO COM BALOTELLI

Existem duas formas politicamente de se compreender o individual e o coletivo no plano das relações políticas: uma intensiva, outra extensiva.

Na forma extensiva, o número: um versuso coletivo. Extensividade num plano da quantidade. Um é menor que dois, dois é menor que dez, mil é menor que um milhão. Assim, é preciso ser sempre mais no plano perceptivo/cognitivo. Agem desta forma as tiranias, ditaduras, formas de governo contrárias à potência ativa da democracia agem e se estabelecem.

Na forma intensiva, desaparecem os referenciais perceptivos/cognitivos: a questão é da ordem da intelecção, das afecções. Não se trata mais do valor numérico, mas do movimento, engendramento de forças imateriais e velocidades, aumento/diminuição das potências de agir. Um regime democrático, um movimento social revolucionário, formas de existir, de comportamento, de sentir que não estão capturadas pelas estratégias de interdição da subjetividade capitalística.

Na Espanha onde predominavam forças reacionárias corporificadas pelo Generalíssimo Franco, por exemplo, havia a personificação do EU da ditadura através do Real Madrid, clube que vencia todas as competições que disputava, e era o baluarte do regime de ultra-direita que matou e violentou todo o país. Contrário à ele, o Barcelona, que nem era tão contrário assim, já que atuava no mesmo plano semiótico (EU x EU), e apenas equilibrava a correlação de forças.

No entanto, ainda no futebol, a torcida do Athletic Bilbao, representante do País Basco, despersonalizava-se, gritava, cantava e falava no dialeto basco, como multidão, sem rosto, dentro do estádio San Mamés. Uma resistência que não podia sequer ser combatida pelo regime franquista. Como lutar com um inimigo que não tem corpo? Como prender e capturar uma força semiótica cultural manifesta em multidão, sem rosto, sem referência? O regime franquista jamais conseguiu eliminar a multidão que cantava em basco nos jogos do Athletic.

Outra ilustração: a Inglaterra conseguiu eliminar os hooliganse implantou um dos mais seguros sistemas de monitoramento de estádios, transformando em menos de dez anos uma combalida liga de futebol no mais bem sucedido empreendimento do futebusiness pós-moderno, que causa calafrios até no todo-poderoso Josef Blatter, que vê o poder da FIFA enfraquecer diante dos oligopólios financeiros que suportam os clubes. Sem brigas, sem feridos, sem mortos. Mas os signos, os enunciados da extrema-direita, da xenofobia, da homofobia, da violência dos torcedores, persiste. Não chegou sequer a se enfraquecer; apenas encontrou outras formas de se manifestar. O que houve não foi uma cura, mas uma operação de assepssia moral e policial.

A XENOFOBIA ITALIANA NO (E PARA ALÉM DOS) GRAMADOS

A resistência espanhola, bem como a operação de ortopedia policial à inglesa não funcionaram no futebol italiano, que perdeu, dos anos 80 e 90 para cá, o status de principal liga nacional européia.

A xenofobia, produto do acirramento das desigualdades sociais de um modo de produção nocivo, naquele país, ultrapassa a questão pontual, e chega aos corredores do alcunhado poder: Berlusconi, ou Berlusca, ou Il Caimano, primeiro-ministro pelo terceiro mandato, traduz tudo o que a direita xenofóbica italiana tem de pior.

No futebol, são comuns os cânticos xenofóbicos, racistas, homofóbicos. As agressões, as violências, a rivalidade fratricida entre o sul pobre e o norte rico se manifestam igualmente nas arquibancadas. Os times grandes, os que disputam o scudetto, são controlados por megacorporações que vêem nele menos uma entidade futebolística que um investimento ou passatempo. Nada a ver com futebol.

Quando é a “torcida” que grita, o que pode fazer um governo, principalmente quando ele próprio é de extrema-direita e dissemina os signos da exclusão? Nada. Pertencem ao mesmo território, carregam os mesmos signos.

Ainda assim, no plano das relações internacionais, é preciso ao menos fazer o jogo do não-jogar, e fingir que combate-se a violência nos estádios. Quando um jogador é hostilizado por uma torcida, pune-se o clube, com multa ou com jogos sem a presença dos torcedores. Mas e quando a xenofobia/racismo vem de um técnico do time do primeiro-ministro?

O técnico do Milan (time que pertence a Berlusconi), Carlo Ancelotti, ao responder a comentários de que o time rossoneronão revela jovens talentos, cometeu um equívoco técnico e outro de ordem criminal/discriminatório. Primeiro, citou o avante Alexandre Pato como revelação do clube italiano: os dirigentes e torcedores do Internacional de Porto Alegre discordam veementemente. Ilusão de quem crê ser possível comprar tudo, de reputações ao próprio tempo.

Segundo, e mais grave. Ao comparar o jovem jogador do Milan ao igualmente jovem atacante do Inter de Milão (arquirrivais), Mario Balotelli, filho de ganeses, negro com passaporte italiano, Carlo Ancelotti apelou para uma nem-um-pouco sutil carga racista: “Balotelli? Não. Ele não é nem parecido com o Pato”.

Apenas uma comparação futebolística, diria a imprensa esportiva epistemologicamente reduzida. Racismo nada dissimulado, diria quem consegue fazer ao menos uma conexão sináptica.

Fosse futebol o assunto, Carlo Ancelotti teria usado de outros argumentos, ou não seria técnico de futebol. Não se compara o talento de dois jogadores sob hipótese alguma, principalmente evocando a aparência, como o fez Ancelotti. Trata-se de racismo, chamar a atenção para as diferenças de cor e de etnia.

Ancelotti, com esta atitude, não apenas se iguala ao patrão, mas também ao primeiro-ministro, aos torcedores e à maioria que elegeu Berlusconi como o representante do ódio a si mesmo e ao outro que predomina politicamente na Itália e na maior parte do mundo, bem como à subjetividade intercessora que asfixia o futebol como manifestação livre do homem em coletividade.

Quem se encarregará de puni-lo?

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Tuesday, March 24, 2009

CMM DISCRIMINA PROSTITUTAS E EVIDENCIA FALÊNCIA POLÍTICA E RELIGIOSA

A moral é um conjunto de códigos e valores que determinam formas de comportamento dentro de uma sociedade. Pode ser uma moral que reflita um povo livre e democrático, e pode ser uma moral de rebanho, de uma sociedade decadente. Principalmente quando os códigos e valores desta moral são intercessores do fluxo do existir e de formas mais gratificantes de comportamento.

Assim, aos psicólogos e antropólogos sociais, cabe, caso queiram compreender os motivos do fracasso de uma sociedade, observar como são “vistos” aqueles, dentro de uma determinada sociedade, que não estão bem “sintonizados” com os preceitos morais carregados por ela.

Em Manaus, por exemplo, a Câmara Municipal de Manaus recebeu proposta para votação de concessão de utilidade pública para a Associação das Prostitutas do Amazonas. Proposta esta imediatamente rechaçada pela chamada bancada evangélica, através da frase de um de seus representantes, o pastor da igreja Restauração, Marcel Alexandre.

Disse Alexandre que não votará a favor do projeto porque é contrário à sua família. De quebra, argumentou (?) que o Estado não é laico, pois “somos todos cristãos”.

Estranho comportamento do ponto de vista político e religioso. Primeiro porque ignora a laicidade do Estado. O campeão da moral cristã Marcel Alexandre não concebe alguém que tenha nascido fora dos desígnios da dogmática cristã (paulina, não de Cristo). Há que se saber o que pensa sobre isso, por exemplo, as comunidades budista, islâmica, atéia… Além do mais, trata-se de claro desconhecimento do funcionamento das estruturas de Estado. Caso, em uma sociedade civilizada, para afastamento da função pública, que requer a capacidade para lidar com a diversidade e para compreender a coletividade para além da identidade do EU.

Ignora ainda um dos dizeres mais populares do livro sagrado: “quem não tem pecados, que atire a primeira pedra” (João, cap. 8).

Triste ilustração de uma sociedade onde os códigos econômicos/sociais/políticos permitiram a emersão do aspecto mais brutal e retrógrado da dogmática apostólica romana. Longe de uma evolução, a irrupção das igrejas que se guiam (alguma não se terá guiado?) pela lógica do lucro, o patrulhamento das consciências, a laminação dos modos de existir alternativos, a interdição da inteligência são evidências de que uma sociedade fracassa.

Daí a importância dos chamados outsiders, como mendigos, prostitutas, ladrões, entre outros: a minoria, neste caso, longe de ser a exceção, confirma a regra. O fracasso do social está não em sua existência em si, mas na existência dos chamados certos, retos, os campeões da moral: são eles que segregam, controlam, classificam, hierarquizam, excluem, discriminam.

Para surpresa, talvez, de Marcel Alexandre e seus seguidores, comportamento bem contrário ao daquele jovem palestino, Filho de Maria, que não atirou a pedra à mulher adúltera, e caiu nos braços de uma Madalena.

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Saturday, March 21, 2009

UNIDADE DE ESPECIALIDADE MÉDICA EM MANAUS NÃO ATENDE USUÁRIOS DE UNIDADES BÁSICAS DE SAÚDE

Leitores intempestivos relataram a este bloguinho que o PAM da Codajás, unidade de saúde especializada da zona Sul de Manaus, não estaria aceitando encaminhamentos dos clínicos-gerais das unidades básicas de saúde (postos e casinhas).

O procedimento, segundo alguns médicos ouvidos pelo blogue, é efetivamente irregular, já que o procedimento hierárquico dentro da estrutura do SUS é o de que as unidades básicas de saúde são a porta de entrada no sistema, e que as especialidades só devem ser acessadas após a primeira avaliação, que ocorre ora nas unidades básicas, ora nas unidades de urgência e emergência (hospitais, SPA`s).

No entanto, as pessoas estão se dirigindo aos postos de saúde, e ao serem encaminhadas para acompanhamento por especialistas, ao chegarem no PAM para marcar, são informados de que a consulta não poderá ser feita. Os mesmos são ainda orientados a procurar um SPA para de lá serem encaminhados e conseguir a necessária consulta com o especialista.

MEDICINA DE MERCADO E O ADOECER BIOSSOCIAL

Ainda segundo fontes intempestivas, a questão tem sido levantada exclusivamente pelos usuários do sistema. Entre o meio médico, predomina o corporativismo. Os rumores que correm dão conta de que os médicos especialistas estariam envolvidos na não-aceitação dos encaminhamentos, alegando que os clínicos-gerais estariam apenas “despachando” os pacientes nos postos e casinhas, não realizando sequer procedimentos simples de acompanhamento, que segundo os primeiros, poderia ser feito sem a necessidade da especialidade. Do outro lado, médicos das unidades básicas estariam incomodados com a inércia dos colegas especialistas, que não estariam aceitando atender problemas de saúde de suas áreas.

No meio do deixa-que-eu-deixo, o usuário do sistema, que precisa do tratamento, e tem que encarar a fila quilométrica, tanto no posto de saúde para pegar uma ficha, quanto nos PAM, para marcar uma consulta ou exame.

Sinais de uma medicina de mercado, distanciada do exercício cívico e democrático do conhecimento em função do fazer coletivo, e próxima do marketing e da lógica da objetização e monetarização do corpo e de seus males. Medicina que produz doença biossocial.

É por isso que Hipócrates anda jurando de pés juntos que no Amazonas não tem medicina…

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Wednesday, March 18, 2009

A EDUCAÇÃO DO GOVERNO DE SÃO PAULO E OS “DOIS PARAGUAIS”

Um saber é constitutivo de uma potência-ativa quando seus elementos semióticos transportam territorialidades que permitem um movimento intensivo que permita às pessoas alcançarem um grau mais alto de potência: somente um saber que liberta é saber.

A função educativa, quando se faz num plano democrático (de outra forma não é educação), estabelece nas territorialidades construídas a possibilidade de transbordar numa outra existência, ampliando a consciência e compreendendo melhor o mundo ao redor. Daí um saber desconectado da realidade coletiva não ser mais que um recurso patológico da sociedade de consumo.

Tal como a educação de governo amazonense (que só encontra elogios na pariceira Istoé, amiga do governo Braga), a educação paulista vive mais do vazio do marketing do que de produções intensivas materiais e imateriais. Rescaldo da política governamental de esvaziamento da escola pública – com uma pausa na gestão de Marta Suplicy – as escolas paulistas, de modo geral, não traduzem para seus alunos a sociedade onde eles vivem.

O grau de desterritorialização do real (quando um signo se desprende daquilo que o torna coletivamente inteligível, e só resta uma imagem sem referente) chega a tal ponto na produção do hiper-real na educação paulista, que alunos das escolas públicas receberam material de ensino de geografia onde a representação gráfica da América do Sul mostra Paraguai e Uruguai em posições invertidas, além de um “clone” do país de Fernando Lugo.

Fosse um requinte educacional, para falar de um Paraguai “pré-Lugo” arrasado pela economia de mercado do consenso de Washington, e um outro, que elegeu o presidente-bispo e pretende acabar com décadas de domínio monopartidário, até estaria valendo. No entanto, a questão é mesmo de ordem do erro factual.

Mais revelador da (des)educação paulista do governo Serra é o grau de alienação dos agentes envolvidos no imbróglio: enquanto a secretaria estadual de educação culpa a fundação que produziu o material, enquanto mantém no seu site uma nota de errata que só pode ser acessada pelos diretores de escola, a fundação responsável pela confecção do material rebate, afirmando que os professores que elaboraram o material foram indicados pela própria secretaria. No meio deste empurra-empurra, perdida mesmo, fica a educação.

A mesma educação que passou pelas mãos da iniciativa privada de forma predatória na gestão Paulo Renato de Souza, no octênio FHC, e que, não por acaso, numa gestão tucana no Rio Grande do Sul, pretende desmontar as escolas do MST, por disseminarem “perigoso conteúdo marxista”.

O que é assustador no caso do Paraguai invertido não é o fato do mapa estar de ponta-cabeça, mas da educação de governo paulista não conseguir perceber que ela própria está fora do mapa da existência de seus estudantes.

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