Saturday, July 4, 2009

MILTON HATOUM: ESCRITOR INDIFERENTE SE QUER ENGAJADO

Milton Hatoum, escritor amazonense descendente de árabes que conseguiram no Amazonas feitos econômicos capazes de constituir famílias respeitadas. É professor do Departamento de Letras da Universidade do Amazonas, viveu parte de sua adolescência na Avenida Getúlio Vargas, em Manaus, local de habitação da classe média manauara. Como filho de classe média, onde a maioria da população era pobre, manteve sempre relações projetivas com os estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Viveu em Paris, onde foi, nos finais da década de 70, correspondente da revista Isto é. Já com o tino de escritor de mercado, manteve relações com os grupos midiáticos, principalmente com a família Frias, proprietária da Folha de São Paulo.

Tomando sua filiação oriental como eidos literário, se dedicou a escrever os rastros árabes no Amazonas, subjetividade cultural nunca explorada pela literatura manauara. Movido por este mote, escreveu Relato de Um Certo Oriente, romance com nuances de realismo com ficção, onde o realismo é mantido no anódino predicado da ficção. Como quando troca o nome do estudante Delmo, assassinado por motorista de Manaus, por Selmo, concebendo-lhe uma representação a-social e despolitizada. Quando foi o crime mais sádico cometido contra um manauara com a complacência da indiferença do medo social. O mesmo acontecendo com o real Dr. Dourado, fundador do Hospital Tropical, próximo dos ditadores, que é colocado, no romance semi-realista, como um boníssimo médico de família.

A INDIFERENÇA ENGAJADA DE HATOUM

Como diz o filósofo Deleuze, que estes escritores que escrevem com suas neuroses são os grande mantenedores da força opressiva do Estado despótico, porque são vozes que ecoam, em suas literaturas, as vozes de comando da imobilidade molar representadas no reconhecimento do mercado, assim Milton Hatoum se fez um grande representante desta mercadoria, livro, que serve aos concursos literários. Daí sua vasta premiação.

No entanto, ontem, dia 3, dia em que a Portuguesa, em pleno Canindé, ganhou de 1 a 0 do Paraná, o Goiás empatou em 0 a 0 com o Guarany e o ABC empatou em 1 a 1 com o Ipatinga, o escritor Milton Hatoum, participando da 7ª Edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), deu uma entrevista à Agência Brasil, como um verdadeiro escritor engajado nas causas políticas sociais, arrogando-se a cobrar posicionamentos do governo para melhorar a condição da população pobre, que não tem acesso a livros. Logo ele que, em Manaus, é indiferente ao que acontece na cidade, onde que o único ato social que se envolveu foi ser contra a derrubada de uma árvore em frente ao local que mora. E que, existindo escotomizado, como todos os chamados artistas e intelectuais locais, em um Estado em que todas suas decisões não passam por um debate coletivo, dado a indiferença que predomina nesta fálicas forças, não compreende que sua ausência auxilia na irracionalidade dos governos.

Mas Hatoum, que cultua a ilusão da re-cognição, e não aprendeu com Foucault que se escreve para não ter fisionomia, mandou seu panegírico de si mesmo:

Eu, que ando por esse país, observo que os livros do Ministério da Educação estão chegando às escolas e às bibliotecas. Isso é um alento para quem escreve, para quem dá tanta importância à leitura. Mas política pública tem que ser feita no miúdo, nos municípios.

Mas é um absurdo, para não dizer um crime, você não permitir o acesso à leitura a milhões de crianças pobres do Brasil. A política do livro deve ser uma prioridade de qualquer governo. Não há cidade sem leitura.

O Brasil de hoje ainda é desigual e injusto, mas há avanços pontuais que prometem uma mudança futura. Eu sinto falta de uma mudança mais estrutural, ética. Veja o que acontece no Senado.”

Observemos algumas citações rebeldes de Hatoum:

Eu, que ando por esse país.”Em que país Hatoum anda? Se for o Brasil, pior: compromete a si mesmo, já que não é um sujeito atuante. Mas um bom menino cordato para a “crítica” passiva.

Os livros estão chegando nas escolas e bibliotecas. É uma alento para quem escreve.”E para quem lê? Serve? A literatura de Hatoum serve para auxiliar na criação de novos saberes e dizeres dos pobres? Pobre conhece, Hatoum? Hatoum conhece pobre?

É um absurdo, para não dizer um crime, não permitir acesso à leitura.”Acesso a que literatura? Quem deixou de ser escritor para escrever? Quem faz uma literatura de disjunção, como Kafka, Lawrence, etc?

Não há cidade sem leitura.”Toda cidade tem escrita, mas só há leitura quando se escreve sem escritor. Quando a literatura deixa de ser uma mera reprodução da imagem dogmática do pensamento do Estado. Quando ela cria fissura, cortes, dobras, movimentos esquizos, devires-loucos, nada do que Hatoum adesiva como literatura, que ele entende como necessária aos pobres. O que serve aos seus concursos literários segmentados pela lei do mercado.

Falta de mudança estrutural, ética.”Se ele deixar de ser escritor, como pensa Foucault e Deleuze, acontece a mudança e a fundação da Ética como a arte de compor bons encontros democráticos.

No mais, a literatura continua como o que acontece no Senado: a subjetividade do mercado. E tome Jabuti…

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Monday, June 29, 2009

O INTELECTUAL MANAUARA E SUA INSEGURANÇA HISTÓRICA

Uns dizem, “tempos de chumbo”. Outros, tempos opressivos. Outros, simplesmente ditadura. Foi nestes tempos em que, em um certo dia, um renomado arquiteto, não amazonense, foi levado à casa de uma família burguesa, para conversar sobre temas variados com alguns auto-considerados intelectuais amazonenses.

Chegando na entrada da sala, onde se encontrava o tal grupo de amazonenses seletos, o arquiteto, ainda em pé, ouviu o anfitrião, burguês, apresentar seus pares. Este aqui é o fulano, musicólogo. Este é o sicrano, poeta. Este, o escritor. Este, o crítico de cinema. Este, o pintor… E apresentou, orgulhoso, a plêiade de amazonenses auto-notabilizados. O arquiteto olhou-os, sempre calado, balançou a cabeça, deu meia volta e saiu da casa, acompanhado por seu cicerone.

Já na rua, o cicerone, perguntou por que saíra. Ao que o renomado arquiteto respondeu: “Diante de tantas sumidades, o que eu poderia fazer lá?”

Um espetáculo deprimente de busca de reconhecimento, onde qualquer sinal de intelectualidade é vista como dor.

Esta semana houve apresentação de tese no Curso de Comunicação da Universidade do Amazonas. Como convidado da mesa encontrava-se o notório e engajado jornalista Bernardo Kucinski. Terminada a sessão de apresentação e comentários, o jornalista foi levado por um professor-doutor do Departamento de Ciências Sociais para conhecer as dependências do ICHL, Mini-Campus. Em indicações e indicações, chegaram na LUA (Livraria da Universidade do Amazonas). Em seu interior, observando alguns exemplares, Kucinski, ouviu do professor-doutor a seguinte exaltação egóica:

— Eu leio quatro livros por semana.

O jornalista sorriu e afirmou:

— Eu não leio nenhum. — E acrescentou. — Eu tenho uma falha na minha formação intelectual: não li quase nada da literatura amazonense.

O professor-doutor, em solicitude de auto-reconhecimento, observou:

— Aqui tem bons livros sobre o tema. — Apontou uns livros, e continuou. — Tem estes livros do Márcio Souza.

Ainda não satisfeito em sua campanha de auto-promoção, o professor-doutor, mostrando um livro, disse que se tratava de um livro escrito por sua ex-mulher com ajuda de material colhido por ele mesmo. Uma auto-promoção pela anulação da ex-mulher. E Kucinski, sempre sorridente.

Quase 40 anos depois, em tempos sem ditadura, o intelectual professor-doutor repete a ilusão da fama de seus amigos diante do arquiteto. Nada lhe serviu ter vivido um tempo brutal, desumano, onde se entende com melhor facilidade que a vaidade é uma desgraça, vazio, que cada vez mais degenera o homem, como diz o filósofo Nietzsche. Um recurso dos que vivem no medo da desaprovação do outro. E, assim, nada constroem.

Quase 40 anos, o professor-doutor, chegando aos 70 anos, continua uma patética sombra de se querer valorado pelos conceitos dos outros. Da mesma maneira que seus antigos amigos. Nenhum momento suspeitou que se os saberes não forem para abrir brechas para fazer brotar o nome, nada nos serve. E que só se lê um livro quando ele é cortado como hecceidade. Como individuação, quando auxilia o leitor em individuações desterritorializantes.

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Tuesday, June 9, 2009

O CAMPEÃO DA MORAL KAKÁ E A AMANTE TORCIDA DO MILAN

O mito do amor eterno se desfaz quando a fascinação, névoa a-filosófica, se desfaz, revelando a má fé dos amantes. O filósofo Sartre, em sua análise fenomenológica/existencial das relações do homem, aponta que o amor, nos tempos do capital, surge como uma relação de tentativa – em vão – de ocultação e escamoteamento da liberdade sob o véu da ilusão do querer do outro.

Assim, numa mesa de restaurante, a mulher sabe bem o que o seu pretendente quer – e não é ela -, mas precisa, a fim de completar a fantasia, necessária ao malogro de si, acreditar piamente que é desejada. O homem, para conseguir realizar o ser escamoteado da moral social que carrega, efeito sem jamais poder ser causa, precisa igualmente acreditar que a mulher acredita estar sendo seduzida. Enganando um ao outro, alcançam o objetivo do malogro e da má-fé: enganam a si mesmos. Apoteoticamente, caem as ilusões e resta a insuportável consequência de uma vida falseada. Às vezes, vivida durante décadas.

Assim a amante torcida do Milan caiu nos galanteios do imberbe Kaká, que hasteou a camisa 22 rossonera na janela de sua casa no início deste ano, quando mostrou que acredita na máxima do capitalismo (todo homem tem seu preço) e balançou diante dos petrodólares do Manchester City. Como o amante, que em meio a mil juras eternas à única amada, não resiste aos negaceios eróticos da outra, Kaká suou mais que Cristo no Gólgota, mas resistiu à tentação (resistiu?). O problema, para ele, na época, foi dogmático-teológico: pecar em pensamento, para a doutrina cristã paulina, é também pecar.

Mas a torcida do Milan (e a imprensa brasileira), embotados que são pelos signos-clichê que carrega o campeão da moral, Kaká, preferiram não ver que o amante ideal, marido perfeito e cumpridor das obrigações celestiais flertou.

Da torcida milanesa, não se esperava muito: quem crê em Berlusconi pode muito bem ser enganado por Kaká, e a mesma torcida que endeusou o clone do Bebeto, hostilizou o zagueiro Paolo Maldini, mais de duas décadas vergando a camiseta do clube, capitão honorário, e que foi humilhado na sua despedida duplamente: pelo Roma, que venceu a partida, e pela própria torcida, que o chamou mercenário. Coisas, certamente, do futebusiness, não do futebol.

Kaká vai para um clube que carrega signos semelhantes a ele: o Real Madrid, profundamente identificado com o ideário fascista da ditadura de Franco, aglutinador da torcida da direita política espanhola, manipulador do mercado da bola a ponto de usar um jornal esportivo da capital espanhola como fonte de factóides a fim de desestabilizar clubes e jogadores (o Kaká luso, Cristiano Ronaldo, que o diga). Não por acaso, José Maria Aznar, o presidente espanhol que enviou tropas ao Iraque, que confraternizou com Bush Jr, e que nos atentados no metrô de Madrid tentou, em vão, manipular as informações em proveito próprio, torce pelo Real, enquanto o atual presidente, Zapatero, de esquerda moderadíssima, torce pelo Barcelona. Kaká, como no Milan de Berlusconi, troca de camisa sem trocar de ambiência. A Europa, que elegeu como o mais votado o próprio Berlusca ao parlamento continental, que o diga.

Kaká, como o bom burguês, o amante da comédia de costumes bem ao estilo burlesco, não faz por menos, e repete o seu papel. Diante da amada traída, afirma ainda a fantasia psicopatológica, e diz que a relação acaba, mas o amor é eterno. São os ossos do ofício, os males do profissionalismo, dirão alguns. Até mesmo o ingênuo Edson Arantes do Nascimento, que como Pelé inaugurou a era dos jogadores marketistas, foi driblado pela sanha capitalística do futebusiness: também ele acreditou nas juras de amor eterno do futuro pastor da igreja Renascer.

Mas se agora se fala em profissionalismo, em necessidade, em modernismo no futebol, onde estava a inteligentsiada mídia esportiva quando Kaká, há pouco menos de seis meses, afirmava não aceitar (enquanto o pai e agente se reunia com os representantes do time anglo-oriental) sair do Milan por dinheiro algum, e que pretendia fazer toda a sua carreira no clube rossonero?

Para esta mídia, nostálgica da virgindade perdida, e eternamente à procura do malogro do amor do capital, e para a torcida milanesa – como de resto, também a torcida merengue, novo alvo dos galanteios do galã imberbe – resta o cancioneiro popular, repleto de loas à mágoa de ser infiel a si mesmo, insuportável consequência das armadilhas que certas existências preparam para si mesmas:

Vá embora,

Pois me resta o consolo e a alegria

De dizer que depois da boemia,

É de mim que você

Gosta mais”.

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Wednesday, April 29, 2009

LULA CHAFURDA NA LAMA AMAZONIQUIM

Na peça As Medidas Tomadas (Die Massnahame), também traduzida no Brasil como A Decisão, de Bertolt Brecht, há uma canção que é constantemente, como muitos trechos do dramaturgo alemão, publicado em livros do poeta Brecht. Inclusive aqui neste bloguinho já o publicamos no texto Lula é uma anta?, quando o amestrado da não-Veja, Diogo Mainardi publicou suas pústulas num suposto livro chamado Lula é minha anta. Enquanto quase todos os bons companheiros diziam “Mainardi é que é uma anta”, a partir do conhecimento cabocal in locus (como gostam os antropólogos) do que é uma anta e do conceito deleuziano/guattaririano de devir-animal, afirmamos que Lula é que é realmente uma anta.

Com quem o justo se recusa a ir à mesa
Se se trata de ajudar a justiça
Que remédio pareceria demasiado amargo
Ao moribundo?

E outra vez esse texto vem ao caso justamente quando Lula está no Amazonas, terra de anta, hoje animal em extinção; mas que, antes da chegada do contrabando e caça predatória, já fora um delicioso assado nas terras do Purus, da qual a unha sempre serviu para ajudar com o entravante reumatismo.

Que baixeza você recusaria cometer
Para extirpar toda a baixeza?
Se você pudesse transformar o mundo, o que
Você não aceitaria fazer?

O Amazonas é governado há praticamente três décadas — e não seria absurdo dizer, desde a invasão européia — pela mesma oligarquia. José Lindoso, Gilberto Mestrinho, Amazonino Mendes, Eduardo Braga, Alfredo Nascimento, acompanhados sempre de seus pards no Legislativo — como os Lins, da qual Belarmino Lins, o Belão, hoje é o dono da casa —, contando sempre com os mesmos eternos secretários — José Mello, Terezinha Ruiz, entre outros. Não se deve esquecer que todos esses sempre estiveram em palanques opostos ao de Lula tanto no que diz respeito à luta operária e político-partidária. Seria estafante e desnecessário puxar a ficha corrida dessa trupe toda. E eis que agora todos estão com o Sapo Barbudo e não abrem. Alguns, que gostariam que Lula fosse mais seletivo, ficam incomodados. Mas é uma coisa engraçada ver tanta babação, tanta lambança destas personagens grotescas da política amazoniquim, rodeando Lula e Dilma como mosca em doce de cupu.

Quem é você?

Eduardo “Guerreiro de Sempre” Braga, a começar pelo governador, disse que o Amazonas se orgulha de estar ao lado de Lula, “um presidente do povo”, e elencou os vários feitos da ministra Dilma para o Amazonas, entre tantos, a viabilização do gasoduto Coari-Manaus. Ao contrário de Dilma, sabe-se há muito os rastros da quadrilha liderada pelo ex-prefeito de Coari, Adail Pinheiro, chega à sede do governo.

Amazonino Cassadoousou fazer cobranças: “Antes a economia era interiorana, quando tivemos o apogeu da borracha. Depois veio o declínio e com a criação da Zona Franca 97% da economia ficaram concentrados em Manaus. É preciso resgatar a população interiorana.” Um docinho pra quem disser quantas vezes Amazonino já foi governador e quantas vezes o Terceiro Ciclo foi realizado. Ele afirmou ainda que Lula é o maior presidente que o Brasil já teve e foi esperançoso: “Presidente Lula, estaremos unidos na próxima eleição sob a sua liderança fazendo do Amazonas uma referência em todo o Brasil”. Além de pilora, Cassado está sofrendo de ‘deslembrança’. E se o TSE cassá-lo num dos dois processos que já se encontram lá, faltando subir mais dois, e ele ficar inelegível?

Na Assembléia Legislativa foi só rasgação de seda, principalmente do presidente Baelão, e, na Câmara Municipal de Manaus, imagine-se que Lula recebeu uma medalha de ouro que leva o seu nome: “A Câmara Municipal prestou um reconhecimento justo a um homem que demonstra ser um grande estadista e está fazendo muito pelo Amazonas”, justificou-se o presidente da casa, Carijó (PTB). E assim vão as favas cantadas e decantadas das peripécias dos ilustres amazoniquins…

Mergulhe no lodo,
Beije o carniceiro, mas
Transforme o mundo.
Ele precisa ser transformado.

Às vezes, achamos, e até já o publicamos aqui algumas vezes, apesar de nosso apreço pelo Sapo Barbudo, que ele dá muitas penas a todos esta politimerdia, como diria o de-compositor Tom Zé, que eles acabam transformando em asas para voar. Mas é certo que tudo que eles dizem que Lula não personaliticamente, mas governante democrático — faz pelo Amazonas é verdadeiro; enquanto governador e prefeito, psicanaliticamente, vão tão somente delimitando o caminho e passando cal por onde a comitiva presidencial irá passar.

Como diz o vereador José Ricardo (PT): “A impressão que temos é que quem governa por aqui é o Lula, e não os governos municipal e estadual”. Ou seja, se houvesse Governo e Prefeituras atuantes, a educação municipal e estadual não estariam entre as piores do Brasil, não haveria toda a buraqueira nas ruas, não faltaria água, energia nos interiores, emprego, as chuvas não provocariam tanta calamidade. Aliás, são estes agentes públicos e, além da corrupção, suas reduções intelectivas que produzem toda essas violentações físicas e epistemológicas na população.

Enquanto isso, Lula, como uma anta, sabe a hora de mergulhar, para boiar de novo em outro lugar, quanto mais agora que Dilma se consolidou como uma parceira, formando uma potência democrática, que vai criando novas formas de relações por onde passa, mesmo em meio a tanta baixeza, lodo e carniceiros, que já não podem interceptar seu movimento.

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Friday, April 24, 2009

O BURACO QUE NÃO QUER TAPAR- AS TONELADAS DE ASFALTO DA PREFEITURA DE MANAUS

É sabido da população de Manaus que o prefeito cassado, Amazonino, anda angustiado com a sua possível cassação terminal, já que estar-prefeito, por efeito (para rimar) de uma medida cautelar, e por isso não tem sido visto atuando concretamente de acordo com o afinco que o cargo exige. Diante desta situação, os secretários responsáveis pela administração-cassada recorrem a todo tipo de estratagema de marketing para fazer de conta, diante da população, que tudo ocorre segundo os princípios políticos administrativos de uma cidade.

Neste invólucro do faz de conta, publicidades de todas as formas e matizes são espalhadas nos meios de comunicação e pela cidade. Todavia, uma chamou a atenção do manauara. Um outdoor quase na esquina da Ruas General Glicério com a Leonardo Malcher, trazendo, além do surrado clichê, “Reconstruindo Manaus”, a seguinte mensagem anti-matemática/geográfica: “600 toneladas de asfalto por dia, em 70 dias”. Imaginemos 600 toneladas de asfalto por dia, em 70 dias, quantas Manaus poderiam ser asfaltadas? Que refinaria suportaria tamanha quantidade de produção de asfalto?

Mas que tanta ironia: os buracos continuam dando a ordem do dia em Manaus. Hoje, dia24, foi visto mais um buraco se exibindo no centro da cidade. Ali, na Avenida Getúlio Vargas, como se diz, “confronte o PAM”.

Aproveitando as toneladas, façamos uma sugestão para as crianças que vão participar da Provinha Brasil.

Quantas vezes você asfaltaria a rua em que você mora com 600 toneladas de asfalto por dia?

Os acertadores vão ganhar uma bolsa-estudante da prefeitura-real.

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Monday, April 20, 2009

A OBNUBILAÇÃO DA IMAGEM FUTEBOLÍSTICA NA GLOBO

A Globo acredita, equivocadamente, que a câmera é o olho. Guiada pela lógica do lucro, ela crê produzir imagens que seduzem o telespectador-videota, capturando o seu olhar, transformando este olhar no produtor da mais-valia imagética, transfigurada na audiência.

A televisão não é o cinema. O cinema, arte, imagem e pensamento, resolveu a questão do corte imagético do real, problema proposto por uma psicanálise do cinema: cada plano é um recorte do real. O cinema, kinema, resolve isso criando imagens que transbordam o ecrã, corpos afetantes, imagem-tempo, imagem-pensamento. Nada de clichês; estes, são cortes no real e interdições à inteligência, independente do tamanho do plano. Mesmo que ele reproduzisse o olhar em sua amplitude neurocerebral, de 360o, jamais sairia da interdição.

Assim, a Globo se quer produtora do novo, sem carregar os elementos epistemológicos para tal. Ao mesmo tempo em que corta a imagem, retirando dela aquilo que não interessa à sua lógica, ela vende como real a possibilidade irrealizável de exibir tudo de uma partida de futebol. Duas ilustrações, opostas e iguais:

Um: os clubes, a título de exibir na telinha global – como de resto, em todas as outras – o logotipo do patrocinador, passou a realizar suas entrevistas tendo como pano de fundo um padrão de imagem seriada com o dito logotipo, geralmente em dupla com o escudo. A Globo inventou o superclose, que mostra até as rugas das rugas dos entrevistados, a fim de não exibir a parede de fundo. Lance de resposta dos clubes: o microfone, item indispensável à capturação da imagem do falante, posto que está à frente do rosto, carrega o logotipo. A globo já acena com mostrar apenas parte do olho, da boca, ou mesmo um plano longínquo, usando para tal o recurso telemático de borrar as imagens indesejadas. Corte perceptivo.

Dois: na partida entre Flamento e Botafogo ontem, pela final da Taça Guanabara, o repórter, muito saltitante, entrevista um jogador do rubro-negro, e mostra-lhe uma pequena tela, donde, afirma ele, é possível capturar as imagens da tevê digital, na qual o jogador, no intervalo, caso faça um gol, poderá vê-lo. Microfone de volta ao locutor, este decreta, muito solene, o fim do radinho de pilha nos estádios, e prevê que em breve as pessoas levarão suas pequenas tevês aos estádios para assistir aos jogos.

Duas obliterações da imagem: sem referencial no plano do real, e sem os elementos de diferenciação formal e de conteúdo, necessários para que o aparelho neurocognitivo a forme como representação mental, a imagem desaparece. Quando a Globo castra a imagem em nome do lucro, e faz desaparecer o fundo, automaticamente destrói a figura. Quando, ao contrário, pretende fazer prevalecer a ilusão de que o torcedor-consumidor verá “tudo”, igualmente faz desaparecer a imagem. A imagem na telinha obnubila o estádio, os jogadores, o árbitro, o gol. Se a imagem da tevê é o hiper-real futebolístico, câmera-corte epistemológico que mutila a visão do jogo real, o que dizer de um torcedor que vai ao estádio, mas prefere levar consigo o seu seguro e imóvel olhar amestrado, videota da pelota? O hiper-real nunca foi tão hiper, e o torcedor que nisso crê nunca foi tão “torcido” na sua inteligência. Dupla censura. Duplo corte, desaparecimento do real. Sem real, não há imagem. Sem imagem, o que resta?

Nem mesmo um indiferenciado. A Globo, como de resto todas as emissoras de tevê, praticam uma antipedagogia do olhar: pobres dos torcedores que não têm tevê! Não; pobres dos torcedores que precisam da tevê. Pois nela não se vê.

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Tuesday, April 7, 2009

PATOLOGIA SOCIAL SE EVIDENCIA NOS IRMÃOS SOUZA, SEGUNDO DEPOIMENTO DE ‘MOA’

O capitalismo, em sua organização semiótica, suas relações de força e de tensões, é um regime patológico e produtor de patologias. Sobretudo as de caráter psiquiátrico. O modo de produção que exclui a diversidade e captura as produções semióticas, submetendo-as à sua lógica paranóide produz no social determinados tipos de comportamentos absolutamente nocivos à coletividade, e que são tomados muitas vezes pela psiquiatria como patologias individuais, mas que na realidade são sintomas de uma sociedade produtora de doença.

Ao tomarmos como matéria de observação os depoimentos do ex-segurança dos irmãos Carlos (vice-prefeito de Manaus, sub judice) e Wallace (deputado estadual) Souza, que construíram carreira através de programas televisivos de exploração da miséria social, Moacir, o ‘Moa’, preso pela polícia federal por tráfico, percebemos a patologia social se manifestando e se evidenciando, a despeito das tentativas midiáticas para ocultação, incluindo aí a estreiteza intelectiva sempre presente no analismo político de jornais e programas de tevê.

Moa teria afirmado, segundo trechos de depoimentos que foram disponibilizados à imprensa, que o filho de Wallace, Rafael Souza, já indiciado em mais de 12 processos na polícia civil, e investigado pela PF, tem ligações íntimas com o tráfico, e esteve envolvido nas últimas execuções de traficantes na cidade. Ele sustenta ainda que Rafael não age sem prévia assunção do pai.

Interessa-nos, do ponto de vista de um exame do grau de periculosidade social deste tipo de enunciação, sublinhar a linha de atuação dos irmãos Souza em seu programa, para compreender que a questão é ainda mais grave do que a existência de parlamentares envolvidos diretamente com o crime organizado.

No início do programa, o viés policialesco – que não é invenção dos dois – suplantou o da exploração da miserabilidade econômica, a compaixão social, também uma espécie de patologia do capital. O policialesco evidencia, neste caso, o patológico, na sua vertente individual (quando se perde o contato com o real e já não há suporte epistemológico, desaparecendo o si e o outro):

No início: o acompanhamento de batidas policiais, plantões em delegacias, exposição de presos e detidos ao escárnio televisivo. Evidência do uso dos próprios medos como suporte a um mundo circundante tomado como ameaçador. Assim, por exemplo, a criança que não obteve o suporte necessário ao estabelecimento de afetos e sua distribuição na relação com o outro, acaba compondo com outras instâncias como a Lei, a Ordem, elementos abstratos de garantia e segurança ficcionais, do plano da fantasia. Para ocultar o medo, travestem-se de corajosos. Mas ainda estão no plano do real, ainda elaboram os signos no plano do real.

A busca pela audiência: houve um ponto em que essas incursões “evoluíram”, e os irmãos Souza – com a conivência do governo do Estado – passaram a realizar eles próprios batidas policiais, sem no entanto possuir o poder de polícia. Daí, passar para a famosa frase “permissão para matar”, prática a que se refere Moa em seus depoimentos, quando afirma que o programa era justificativa e se alimentava de casos de traficantes presos e mortos, na realidade, concorrentes dos Souza. Aqui as engrenagens do capital se coadunam com as patologias sociais. A máquina de corte do lucro compõe com a máquina de corte (in)desejante. Jamais, sem um suporte de outras instâncias do poder público (não falamos aqui de omissão, mas de participação ativa), dois apresentadores de tevê, plantonistas de porta de delegacia, conseguiriam status de comando, não de direito, mas de fato, das polícias. Sem a participação do executivo, estadual e municipal, do legislativo e do judiciário, os irmãos Souza jamais conseguiram chegar ao grau de envolvimento com os chamados poderes de estado que ora têm, um vice-prefeito, um deputado estadual e um vereador.

Simulacros e Simulações: eles passam a simular crimes e ameaças, como um sequestro, no qual Wallace Souza oferece o filho, Rafael, para troca de reféns, e que na realidade não existiu. No plano da satisfação do delírio tanático/paranóide, o real já não satisfaz. Não se trata aqui de mera busca pela audiência, mas de realização do ideal paranóide: a aniquilação do real.

Desterritorialização do Real – O Significante Despótico: no programa, as cenas são cada vez mais grotescas. Execuções, corpos dilacerados, um inimigo agonizando durante dois minutos, em pleno horário de almoço na tevê amazonense. ‘Moa’ afirma que os dois minutos do inimigo agonizando exibidos no programa faziam parte de uma filmagem em que ocorreram dez minutos de tortura, todos filmados pela equipe dos Souza. Rafael costumava colocar a fita e assistir por vezes seguidas, afirmando que a cena lhe dava profundo prazer. O desaparecimento do real no plano psiquiátrico se evidencia, a patologia se estabelece. O hiperreal se estabelece. A telinha cor-de-sangue engole a família Souza.

A questão; como é possível que toda uma estrutura de governo seja mobilizada por interesses patológicos de ordem psicopática? Não devem faltar, convenhamos, pontos de conversão. Ou como afirma a sabedoria popular, travestida em frase-clichê do cinema hollywoodiano: não se fica rico sem deixar para trás um armário cheio de cadáveres e uma turma de comparsas.

Nenhum estupor ou surpresa se justifica no caso dos irmãos Souza. Menos ainda, suspeitas de envolvimento de instâncias ainda superiores. Na máquina de corte semióticos do Capital, as patologias se compões, em iguais. O caso é muito mais grave do que quer parecer os inúmeros inquéritos e processos arrolados. Trata-se da evidência de uma estrutura de governo infiltrada no Estado, e que o confirma como patologização da existência, num plano onde a política como práxis do homem em coletividade é apenas um espectro, sem nada guardar com o seu objeto real.

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Friday, April 3, 2009

A SECRETÁRIA DA SEMED, TEREZINHA RUIZ, NÃO FOI DEMITIDA

O filósofo Baudrillard diz que todo sistema cria um “princípio de equilíbrio, que se mantém por suas trocas” relativas aos valores, as causalidades, e as finalidades sob regras duais do bem e mal, verdadeiro e falso, o signo e seu referente, e sujeito e objeto. Quando esse princípio de equilíbrio é abalado, ocorre o cataclismo: os homens não sabem como se orientar no mundo. Ou, particularmente, em seu mundo.

Com a cassação do “prefeito” (aspas em virtude da medida cautelar que lhe sustenta) Amazonino pela magna juíza Maria Eunice Torres do Nascimento, aquilo que era para ser um “princípio de equilíbrio” da administração pública municipal, passou a se mostrar como uma cataclismo baudrillardiano. A gestão que teria um equilíbrio legal com suas regras de trocas, tornou-se um “faz de conta”. Cassado em primeira instância, e sob ameaça de a qualquer momento ter a sentença definitiva que lhe afastará de vez do indicativo “prefeito”, Amazonino, não se aventurou a arriscar uma performance administrativa a ponto de seus atos serem tomados como reais.

Em meio a abolição do sistema como “princípio de equilíbrio”, portanto coberto pelo véu da obnubilação do indefinido ameaçante, a sua administração não poderia apresentar a lógica coesa das nomeações democráticas. O que significa dizer, que todos seus secretários, também, encontram-se na ordem do cataclismo, por isso atuam no “faz de conta”. O que leva a população a não ter como designação real quando é anunciado mais uma nomeação, ou mais uma demissão de membros de seu secretariado.

Daí que, como não existe nomeações, não existem demissões. O fato é tão da esfera fragmentária do supra-real, que não dá nem para qualquer secretário adaptar, para si, a frase do ministro da educação, na ditadura, Eduardo Portela, que disse: “Não sou ministro, estou ministro”. Ninguém pode estar (do filósofo alemão, Heidegger) sem que não tenha uma procedência ontológica. O que até os alunos do curso de filosofia da UFAM sabem.

Desta maneira, a eterna secretária de educação do grupão da direita, Terezinha Ruiz, não foi demitida, já que jamais fora admitida.

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ELEIÇÕES NA UFAM SEGUEM RUMO NORMAL DA DIREITA

As eleições para Reitor da Universidade do Amazonas realizadas ontem, dia 2, transcorreram em clima de total candura como só ocorre nas normalidades das proposições de direita.

Levadas ao segundo turno, com as eleições dos candidatos Márcia Perales em primeiro lugar, que é apoiada pelo atual reitor, que reduziu o sentido de gestão universitária às concepções rígidas das tecnologias e estatísticas (quantos cursos você criou em sua gestão? Eu criei mais), e Nelson Fraiji, médico, que já foi reitor também, com concepção tecnicista produzida pela rigidez do pragmatismo norte-americano, embora tenha sido apoiado pelo PCdoB (e daí?), o sentido de universidade não escapa nada que possa se apresentar com uma possível mudança na concepção do que pode ser uma universidade. Nada relativo às idéia Universitárias de um Kant, um Schopenhauer, um Derrida, e muito menos um Foucault/Deleuze.

Se na primeira eleição para Reitor realizada pós-ditadura com o médico Marcus Barros elevado à condição de reitor, a Universidade Amazonense apresentou uma gestão também presa nos números, sem qualquer preocupação em mudar a subjetividade seca dominante em seus territórios, nas eleições deste ano, a indiferença política que sempre teve presente no Campus, se mostrou altivamente como a força reativa dominante de todos os quadrantes da UFAM. Não é a toa que existe um número grande de estudantes que já no primeiro período de seus cursos se encontram anemizados pela subjetividade reativa que lhes ataca impiedosamente, e quando não abandonam seu cursos, passam a freqüentar suas instâncias como zumbis que perambulam desesperados esperando que o tempo corra célere para chegar o dia em que não terão mais que participar do ritual macabro dos saberes-imóveis.

Todas as chapas apresentadas aos eleitores, como já foi confirmado, confluem para a mesma semelhança de um programa reacionário. Seja quem venha a ser eleito, a UFAM, estará mal servida como instituição transformadora e produtora poiética de saberes moventes, dado o grau de entrelaçamento nocivo infectoepistemológico que passou a dominar seu organismo. A força retrógrada da direita.

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Tuesday, March 31, 2009

OS CONCEITOS “RECONSTRUINDO” E “FORMA LEGAL” NA GESTÃO CASSADA

O sistema capitalista é o produto da transformação da experiência objetiva do capitalista em fetiche. Em outras — ou nas mesmas — palavras, a abstração da mercadoria, extraída da força de produção do trabalhador como alienação transfigurada em lucro. Um “absurdo”, como sentenciou Marx.

Isto faz com que o capitalismo, como sistema, tenha como seu organismo de sustentação um princípio de valores sem suporte real. Uma inconsequente abstração sem relação sujeito e objeto produtivo. Mas tão somente fetichismo: o objeto reificado em uma idéia que o oculta e é tomada como construção social. Daí que, como fetichismo, os problemas que a sociedade capitalista põe ao homem são falsos problemas. O que torna este homem, na busca das soluções, uma simulador. Como os problemas e as soluções são falsas, a sociedade capitalista é doente: o homem é uma abstração.

Então cabe à dialética social “apropriar-se da matéria em pormenor, analisar todas suas formar de desenvolvimento, e encontrar os seu elos internos” (Marx), para, assim, realizar a desconstrução fetichista em que está envolvida a matéria. E então construir o mundo objetivo real à experiência e ao conhecimento. O fim da abstração.

Desconstruir é apanhar as falsas proposições do capitalismo em todos seus encadeamentos, que em seu conjunto se apresenta como construção representativa, e tentar, “pacientemente”, com novos signos-disjuntivos, liberar as forças aprisionadas que no exterior são travestidas de necessidades pelo capitalismo, para torná-las forças produtivas. Pois, fora do método social da dialética, o mundo permanece abstração.

A ABSTRAÇÃO DA GESTÃO CASSADA

Observando em geral as manifestações das enunciações políticas e publicitárias, a maior parte da população entende que é muito difícil encontrar aí vida inteligente. Se o Brasil dependesse dos arroubos intelectuais/criativos destes profissionais, sua história seria muito prior. Peguemos o que nos mostra a gestão, em Manaus, da “nova prefeitura”.

Com quase três meses de empossado, em função de uma medida cautelar, pois fora cassado em Primeira Instância pela ilustríssima juíza Maria Eunice Torres do Nascimento, a gestão auto-denominada de “nova prefeitura” de Amazonino, convivendo com a angústia de a qualquer momento ser afastada definitivamente do cargo municipal, e, ao mesmo tempo, tendo que apresentar respostas ás indagações administrativas da população, usa como recurso, a mais escabrosa técnica de persuasão coletiva: o marketing. Para isto, usa os chavões “reconstruindo” e “forma legal”. O fracassado método de denegrir o outro para tentar ser tido como importante. É aí que a “nova prefeitura” mostra suas veias em estases: paralisia do sangue administrativo.

SOBRE O “RECONSTRUINDO”

Dois entendimentos — Um entendimento. No entendimento senso comuníssimo, que é da ordem demagógica, reconstruir é sempre sobre o que foi desconstruído. Logo, reconstruir com o mesmo modelo. Dar continuidade. Ou seja: nada de novo. Aqui, a “nova prefeitura” está somente simulando o novo com seu marketing. Outro entendimento. Este é da ordem do novo. Para reconstruir é preciso desconstruir a estrutura antiga para fazer emergir uma nova, como dizem os filósofos marxistas da Escola de Frankfurt. Aqui, a gestão Serafim revela o engodo da “nova prefeitura”. Como Manaus foi tomada durante décadas pelas gestões da direita, e sendo Serafim, prefeito da gestão passada, do PSB, ele teve que desconstruir as estruturas fetichistas que predominavam na administração pública de Manaus para revelar, pelo menos em partes, o novo. Síntese da obra ficcional: A “nova prefeitura” está realmente “reconstruindo” Manaus: está recorrendo ao velho modelo que Serafim desconstruiu.

SOBRE A “FORMA LEGAL”

Dizem os psicólogos da Gestalt que a forma é o que salta do fundo como conhecimento. A lógica da figura/fundo para o homem conhecer e criar o seu habitat natural e social. A forma como potência poiética. Nada que exista em marketing. Portanto, a forma do marketing da “nova prefeitura” é um espectro.

Quanto ao legal, dizem o juristas que são as normas que direcionam os homens em sociedade para suas atitudes de direito. Como diria o filósofo Platão: a justiça como justo. A “nova prefeitura” sentencia “forma legal” como uma claríssima alusão que a administração Serafim não foi legal. Digamos que não seja isto. Então saltam duas morais: a que servia a Serafim, e a que, agora, serve à “nova prefeitura”. Como no Estado não existem duas justiças sociais, uma das duas não é justa. Ou então confirma-se o objetivo persuasivo do marketing: o blefe. O que faz do blefe na administração pública um ato ilegal. Vender o que não existe, e ainda comprometendo a honra de outro. No mínimo do mínino jurídico, dá Procom. E coletivo.

É bem provável que todo este desconforto administrativo tenha sua causa principal no entendimento do que seja democracia constitutiva. A democracia em que as potências do povo são quem constrói a cidade. A polis dos desejos coletivos, onde não há espaço para o fetichismo social e nem o blefe publicitário.

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