Tuesday, October 20, 2009

PÂNICO DA JOVEM PAN FAZ DUO DE SABERES COM MARA MARAVILHA

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A ex-cantora e apresentadora de televisão laica – ou profana? -, concorrente da Xuxa na cacocomunicação infantilizada – paralisia cognitiva da infância -, no momento cantora gospel, Mara Maravilha, em entrevista ao programa pânico de hoje, dia 20, fez duo de saberes com a equipe de Emílio, o apresentador-mor da edição.

Em clima de total descontração musical e intelectual, o duo foi contagiante em harmonia de saberes. Todavia, o programa não fez jus ao seu nome: Pânico. Não causou pânico, apenas se mostrou como realmente é: previsível. Mesmo com toda contribuição dada pela sagrada entrevistada.

Mara Maravilha, entre redenção e lucro, comentou que com tantos discos lançados jamais antes fora premiada. Pontuou sua transição da música laica para a gospel e sua descoberta de Deus. O quanto Ele lhe mostrou o caminho do amor, da paz e da solidariedade. Disse que continua amando as crianças, que fazem parte do objetivo de suas canções teológicas.

Com tanta harmonia pânica, chegou o momento da catarse do programa. Mara Maravilha, maravilhada com seus iguais, deu-se ao luxo de conjecturar origens, gêneses, como falou. Entre névoas diabólicas, afirmou que quem criara a música fora “Lúcifer, o grande regente”. O anjo mais belo na hierarquia de Deus, e que cobiçava seu lugar. Segundo Mara, Lúcifer regia para seduzir as almas e levá-las para o inferno, onde havia “caído”, de acordo com a vontade de Deus.

PARA MARA E PÂNICO, GUTENBERG INVENTOU A ESCRITA

Mas o melhor estava para acontecer. Mara se fez professora de História do Jornalismo. Afirmou que quem inventou a escrita fora Gutenberg. “Quem estudou jornalismo sabe disso”, afirmou convicta, acompanhada por seu backing-vocal. Disse que, a partir da invenção da escrita por Gutenberg, a palavra de Deus pode ser levada até o povo; antes só os governantes, sacerdotes e profetas conheciam. Também com a escrita foi possível a arte de Lúcifer, a música, ser divulgada com o objetivo de seduzir as almas. Assim, é possível divulgar músicas que fazem apologia às “lésbicas, homossexuais”. E o backing vocal sem pânico, só em harmonia, com seu “humor” tira broncas da limitação intelectual.

Ao contrário do que possa imaginar o purista, a questão não é ser sábio da cultura inútil. Saber que Johann Gutenberg inventou a prensa lá para as bandas dos 1450, aurora das novas subjetividades nos discursos renascentista, iluminista, reformista, capitalista, “morte de Deus”. E que, se a escrita tivesse sido inventada no século XV, não haveriam as filosofias antigas e muito menos a Bíblia, livro sagrado da Mara/Pânico. E, de quebra, tudo que os sumérios, mesopotâmicos, egípcios, gregos e romanos escreveram também não existiriam. A questão é que a Mara e o Pânico podem influir no resultado da avaliação de alguns estudantes que vão participar do Enem. Vai que eles faltaram a aula de História Geral sobre o conteúdo “Transformação do Mundo Ocidental a partir de Gutenberg”, e apareça na prova a pergunta: “Quem inventou a escrita?” E eles, como escutaram o Pânico/Maravilha, vão responder: “Gutenberg”. Resultado: Bomba, meu! Quantos a menos nas universidades públicas?

Ouvintes do Pânico não suspeitam que o humor apresentado na Jovem Pan é o mesmo do Caceta: sem vigor. Sustentado por discriminações, preconceitos, culpas, ressentimentos, rancores, a re-cognição da “besta loura”, como afirma Nietzsche. Como também não suspeitam que a tentativa de caricaturar Lula, com o personagem “Molusco”, é um recurso próprio de quem esconde sua limitação intelectiva. Pior ainda, não suspeitam que o Emílio, comandante do Pânico não é o Emílio, educando, do filósofo Rousseau. Também nada a ver com o cantor Emílio Santiago. Assim, de insuspeita em insuspeita, estes ouvintes, crentes do Pânico/Mara, estão pebados no Enem.

Nesta cacopedagogia do purista, a cultura inútil não serve para nada. Saber que Gutenberg inventou a prensa e não inventou a escrita, obra dos sumérios, não move o mundo. Só move a masturbação do professor que goza ao reprovar um aluno que não respondeu certo sua pergunta inútil. No mais, o Pânico foi previsível em duo com Mara. “Palmas para dar IBOPE” (Ednardo)!

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Thursday, July 9, 2009

FALSA DENÚNCIA NA OEA DA PREFEITURA DE SP/MÍDIA SEQUELADA É DESMENTIDA PELA PETROBRAS

Há quem tente desvirtuar a possibilidade revolucionária da internet devido ao descuramento com a produção de comentários como verdade e realidade. Mas é justamente por não se compreender a multiplicidade de alternativas que se tenta (e não por acaso) reduzir o papel da rede, que há muito não serve apenas para a superexposição de superfluidades. O papel político/artístico/filosófico da blogosfera, por exemplo, é notório e avassalador à grande mídia sequelada, que se tinha como quarto poder, manipulador dos três primeiros. É que agora, além dos comentários instantâneos, há uma imensa produção construtiva. Desde autores como Saramago até estudantes em defesa da meia-passagem em Manaus, e chegando à utilização estratégica como a do blog Petrobras Fatos e Dados, criado para trazer explicações sobre as notícias veiculadas pela grande mídia sobre a Petrobras. Ou seja, ninguém está mais à mercê desse quarto poder nem dos outros três, nem de qualquer poder tirânico de informação.

EXEMPLO: A DENÚNCIA DA PREFEITURA DE SP/MÍDIA SEQUELADA NA OEA

Ontem, nos diversos jornais, principalmente do eixo Rio/São Paulo outro que dançou com as possibilidades reais da multiplicidade de relações da rede , surgiu a “barriga” de que a Prefeitura de São Paulo e ambientalistas entraram com denúncia na Organização dos Estados Americanos (OEA) contra o governo brasileiro “por desrespeito aos direitos humanos e violação de pactos internacionais, em razão de ter postergado a distribuição de diesel menos poluente para abastecer a frota brasileira”.

Segundo jornais (?), o alvo da ação é a Petrobras, devido a um acordo que teria sido feito de substituição do atual diesel utilizado pelas empresas de ônibus da maior (e talvez pior administrada) cidade do país por um diesel menos poluente, com menos enxofre.

É paradoxal aí que a própria Folha de São Paulo, por exemplo, demonstra a fraude da falsa denúncia/notícia? Não, isso é própria da direita tacanha e da mídia sequelada.

O acordo é resultado das discussões em torno da resolução 315/2002 do Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente), que previa que fosse vendido diesel S-50 nas regiões metropolitanas do país a partir de janeiro de 2009. A medida não será cumprida integralmente, já que a ANP só definiu as especificações do diesel em outubro de 2007, e as montadoras não poderiam ter os motores imediatamente.

O trato prevê um cronograma de implementação do diesel menos poluente nas regiões metropolitanas do país que se estenderá até 2012, quando novos motores estarão disponíveis.

RESPOSTAS DO PETROBRAS FATOS E DADOS

Na resposta ao jornal O Globo e portal UOL, o blog da Petrobras começa por colocar em dúvida a própria existência da notícia:

A Petrobras não tem conhecimento de qualquer representação contra o governo brasileiro na Organização dos Estados Americanos (OEA) referente à questão do diesel. Não é verdadeira a afirmação que a Companhia “postergou a distribuição de diesel menos poluente.”

Após afirmar que “nunca descumpriu a Resolução 315 do Conama”, detalha de forma pormenorizada as ações e as cidades onde vão sendo implementadas as medidas que foram fixadas em 2008 e que tem até 2012 para serem cumpridas integralmente:

(…) Os ônibus urbanos da cidade do Rio de Janeiro e de São Paulo passaram a receber o diesel 50, com baixo teor de enxofre. Em maio, o combustível foi fornecido para todos os veículos a diesel das áreas metropolitanas de Fortaleza, Recife e Belém. Em agosto, será a vez de Curitiba ter o combustível para suas frotas de ônibus. Em janeiro de 2010, o combustível será fornecido para os ônibus urbanos de Porto Alegre, Belo Horizonte, Salvador e da região metropolitana da Cidade de São Paulo. Em janeiro de 2011, o diesel S-50 estará disponível na região metropolitana do Estado do Rio de Janeiro. Em janeiro de 2011, o combustível será fornecido também aos ônibus urbanos das outras três regiões metropolitanas do Estado de São Paulo (Baixada Santista, Campinas e São José dos Campos).

Em seguida dá uma aula de entendimentos tecnológicos, deixando nas entrelinhas que a medida supostamente tomada pela direita tacanha, segundo a sequelada mídia, seria talvez uma forma de camuflar sua ineficiência/negligência no que diz respeito às questões ambientais:

É importante ressaltar que não é apenas o diesel que influencia a qualidade do ar. Primeiro, porque o enxofre impacta somente o material particulado. A qualidade do ar é afetada por vários outros fatores. Além disso, o diesel de 50 ppm de enxofre só é efetivo quando utilizado em motores com tecnologia avançada. Os benefícios em termos de material particulado ainda são pequenos nos motores atuais.

Para ver a resposta completa, acesse o blog Petrobras Fatos e Dados clicando no logo abaixo.

Afinal, como nunca existiu a chamada imparcialidade na mídia sequelada, a blogosfera permite que se tenha a possibilidade de análise racional de pontos de vista divergentes, de se observar quais deles é racional ou apenas um embuste, uma falseação. E, finalmente, se utilizada como máquina de guerra, no sentido deleuziano/guattaririano, a internet permite até que se fale em imparcialidade, no sentido que é cada leitor/blogueiro que vai produzir seu entendimento, mas sempre numa ligação democrática. Inteligência Coletiva.

Petrobras Fatos e Dados
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Thursday, June 25, 2009

CARTA ABERTA DE TONI REIS, PRESIDENTE DA ALGBT, CONTRA HOMOFOBIA TELEVISIVA

Carta Aberta ao apresentador Fausto Silva

Programa Domingão do Faustão

Fausto Silva,

Tomo a liberdade de me dirigir publicamente a você, infelizmente ao que parece meus e-mails anteriores não chegaram até você.

Sou paranaense, professor, tenho 45 anos e vivo há 19 anos como meu companheiro David. Ano que vem completamos nossas bodas de porcelana.

Geralmente assisto a seu programa, principalmente às vídeos cacetadas. Te admiro pela inserção no seu programa de matérias e quadros de cunho social e principalmente pelo seu bom humor. Enfim, Faustão você é gente boa. Sabemos por sentir isso e por declarações de muita gente que fala de você como alguém muito generoso com todos.

Seu programa é muito assistido e admirado por milhões de brasileiros e de brasileiras. Você é referência nacional,como apresentador.

Com certeza suas opiniões influenciam no comportamento dos seus(as) telespectadores(as).

Dirijo-me a você Faustão de uma forma, amistosa e gentil para falar do meu descontentamento sobre a forma como você aborda a homossexualidade no Domingão do Faustão. Esse é nosso papel na luta pela inclusão social e respeito à nossa forma de ser.

Veja uns exemplos:

10/05/2009 – você referiu um “suposto” homossexual pelo termo GAZELA

17/05/2009 – você refere-se a um “suposto” homossexual pelo termo BOIOLA

17/06/2009 – diz que um “suposto” homossexual MORDE A FRONHA

17/06/2009 – No programa leva ao ar o comentário do participante Leandro Hassun : ISTO É UMA BICHONA!

2009 – refere-se ao suposto homossexual pelo termo LIBÉLULA

2009 – ao ver dois homens se cumprimentando, diz: ISTO É COISA DE BOIOLA!

Estes são alguns poucos exemplos durante os quais a platéia ri de uma situação que é muito triste no Brasil e no mundo: a Homofobia.

Fausto Silva, você sabia que em sete países há pena de morte para os homossexuais e 80 países criminalizam os atos homossexuais? Que no Irã gays são enforcados em praça pública?

Que na pesquisa da UNESCO publicada em 2004 consta que 40% dos adolescentes não gostariam de estudar com um gay, uma lésbica ou uma pessoa trans? Que se utilizam dos mesmos adjetivos listados acima para nos designar? Inclusive eu mesmo já fui taxado assim na escola nos velhos tempos. No programa Profissão Repórter do competente Caco Barcelos (exibido no dia 19/05/2009) a reportagem apresentou a triste história de Iago um adolescente de 14 anos que se suicidou porque era discriminado na escola.  Infelizmente isso é muito comum.

Faustão, você sabia que na última Parada LGBT (conhecida como parada Gay) de São Paulo 22 pessoas foram feridas com uma bomba que uma pessoa jogou de um prédio, e que numa Rua próxima a Praça da República -no final da parada – um gay de 35 anos apanhou tanto que sofreu traumatismo craniano e morreu?

Fausto Silva, você sabia que a maioria dos pais não gostariam que seus filhos fossem gays, lésbicas, travestis ou transexuais porque temem que seus filhos e filhas sofram violência, discriminação e por serem motivo de piadas de mau gosto e assédio moral?

Aqui em Curitiba, cidade em que vivo, no ultimo mês 6 travestis e um gay foram barbaramente assassinados. E aqui e outras cidades somos perseguidos por grupos de extermínio como skinheads. Nos últimos 20 anos 2992 pessoas LGBT foram barbaramente assassinadas pelo simples fat ode serem LGBT, segundo pesquisa do Grupo Gay da Bahia.

O Código de ética dos jornalistas, (artigo n° 10, item d), a Resolução nº 489 do Conselho Federal de Serviço Social e Resolução nº 001/99 do Conselho Federal de Psicologia, todos determinam que os respectivos profissionais dessas áreas devam respeitar a orientação sexual e a identidade de gênero de todas as pessoas. Lutamos para que sejamos respeitados como cidadãos com direitos e sem medo de viver.

Atualmente são realizadas no Brasil 150 Paradas LGBT, esses eventos têm como objetivo pedir respeito e consideração a nossa condição de cidadãos e cidadãs. Inclusive, o próximo domingo – 28 de Junho – é o Dia Internacional do Orgulho LGBT, e será comemorado em várias cidades no Brasil e no mundo inteiro.

O atual governo federal elaborou o Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de LGBT, com 180 ações contra a homofobia e a favor do respeito à diversidade humana, fruto de conferências LGBT nas 27 unidades da federação e da 1ª Conferência Nacional LGBT, cuja abertura foi prestigiada pelo presidente da república.

No Congresso Nacional existe uma Frente Parlamentar pela Cidadania LGBT com 250 parlamentares (deputados(as) e senadores(as)) participantes que querem a criminalização da homofobia.

Neste sentido, Faustão, gente boa, gostaria muito que ao se referir a LGBT ou pessoas supostamente LGBT, você se dirigisse com mais respeito, na boa mesmo. Sem ressentimentos.

Piadas e chacotas podem levar adolescentes a cometer suicídio, podem levar pais e mães a expulsarem seus filhos de casas, podem reforçar atitudes violentas contra LGBT.

Faustão é triste e é dolorido ser discriminado. Sei que você nunca quis fomentar a violência, por isso Faustão nos ajude a diminuir a discriminação no Brasil. Não encare isto como censura ou policiamento do politicamente correto.

Afinal, nossa constituição é clara nos seus artigos 3º e 5º quando diz todos são iguais e não haverá discriminação de qualquer natureza.

Vamos construir um Brasil em que caibam todas as cores.

Vamos viver em harmonia como as cores do Arco-íris.

Se a cultura é adquirida, conforme definiu Lévi-Strauss, também pode ser mudada. Nos ajude a mudar essa cultura homofóbica.

Para citar também Nelson Mandela:

Ninguém nasce odiando outra pessoa

pela cor de sua pele,

ou por sua origem, ou sua religião.

Para odiar, as pessoas precisam aprender,

e se elas aprendem a odiar,

podem ser ensinadas a amar,

pois o amor chega mais naturalmente

ao coração humano do que o seu oposto.

A bondade humana é uma chama que pode ser oculta,

jamais extinta.

Por meio desta carta aberta peço que de uma forma cidadã e divertida nos ajude a combater a violência, a discriminação, preconceito e principalmente as mortes contra a comunidade LGBT.

Conto com você e ajude-nos a divulgar a campanha www.naohomofobia.com.br que pede pela aprovação da Lei que criminaliza a Homofobia.

Um abraço,

Toni Reis

Professor, Especialista em Sexualidade Humana, Mestre em Filosofia em ética e sexualidade e Doutorando em Educação.

Presidente da  ABGLT – Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais.

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Tuesday, June 23, 2009

A IMPRENSA ESPORTIVA E A INTELIGÊNCIA DO JOGADOR

A inteligência é a faculdade de organizar os estímulos recebidos pelo sistema nervoso, transformando-os neurologicamente numa “interpretação” dos arredores e do mundo em si. Inteligir significa organizar e compreender o mundo onde se vive. Daí poder se afirmar que todas as pessoas são intelectuais. Dominam esta capacidade, mesmo aqueles que são considerados pela medicina e pelo senso comum, portador de necessidades especiais.

No ‘mundo’ futebolístico, predomina um enunciado social do chamado senso comum: o jogador de futebol é, invariavelmente, desprovido de intelecto. Equívoco neurológico, e discriminação de classe. É evidente que os jogadores de futebol não são mais ou menos inteligentes que ninguém. A questão é que eles não carregam os signos constituídos da classe média, mesmo que eventualmente algum deles se destaque no paupérrimo futebol brasileiro, e consiga a ascensão financeira, que nem sempre vem acompanhada, de imediato, da ascensão social.

A imprensa esportiva, quando entrevista um jogador, adora expôr esse ódio de classe. Os jogadores, se são medianos com a bola no pé, com o microfone são ainda piores. Sintoma de uma educação que não vivifica e não auxilia na produção de dizeres produzidos a partir da razão, e de uma sociedade segregadora, a qual se reflete no futebol. Daí a imprensa esportiva cair no seu próprio engôdo: se considera superior intelectualmente aos jogadores.

O DRIBLE DOS ‘ESTRANGEIROS’ E O COMPLEXO DE INFERIORIDADE DO FUTEBOL BRAZINIQUIM

Quando um jogador brasileiro vai trabalhar na Europa, acaba adquirindo, em maior ou menor grau, alguns elementos de ordem dos signos constitutivos da chamada ‘boa educação’. Em alguns casos, como o de Raí, por exemplo, há um envolvimento autêntico e efetivo com as artes, com a cultura artística e social do local (Raí viveu em Paris por vários anos), que auxilia o jogador-cidadão a compreender, pelo movimento de reflexão, outros mundos possíveis, o que lhe permite compreender mais amplamente aquele de onde saiu. O mesmo não aconteceu, por exemplo, com o bom menino Kaká, que mesmo em contato com outras ambiências – e algumas nem tanto… – não conseguiu ultrapassar o enunciado patricarcal-familialista-dogmático, embora ainda sonhe ser Raí. Ou Robinho, ou Luís Fabiano… Estes não fizeram bons encontros, não produziram outras afecções com o corpo Europa.

Daí a tranquilidade mediocrizante da imprensa esportiva: é possível manter, com esses jogadores, o jogo do não-jogar. As mesmas perguntas, as mesmas respostas: nenhuma, nem outra. Jogam na Espanha, Itália, Inglaterra, mas jamais saíram do Brasil.

No entanto, quando a imprensa encontra um jogador que não aceita este não-jogo, que sabe articular as palavras, emitir uma sentença que expresse uma operação cognitivo-epistemológica simples, mas resultado de sua ação e reflexão no mundo, quem dança e leva um drible desconcertante é essa mesma imprensa. Foi o caso do jornal Diário do Amazonas, de ontem, segunda-feira, em sua manchete esportiva:

ESPANHÓIS SE COMPARAM A BRASIL E ARGENTINA”

A reportagem foi feita a partir de uma declaração do atacante espanhol Fernando Torres:

A seleção [espanhola] tem fome de títulos. Vamos ver até onde chegamos. Os adversários vão nos conhecendo, querem fazer marcações individuais e, por isso, fica mais difícil ganhar as partidas. Para eles, vencer a Espanha é como era antes bater Brasil ou Argentina

Drible epistemológico de Fernando Torres na redação do esportivo manoniquim – e em quantos mais tenham errado na interpretação do texto, matéria de 1asérie do ensino fundamental, o que vale é que o jornal repetiu o erro. Fernando Torres compreendeu que o futebol mudou, menos para a Espanha, que exprime em sua seleção e com o time do Barcelona, ocasionalmente, a fusão entre o belo futebol (haverá outro? Cremos que não.), a ofensividade e a efetividade. Não por acaso, o clube catalão conquistou a tríplice coroa encantando os olhares mendicantes do bom futebol, e a Espanha transformou o combalido torneio da Eurocopa em um festival das belas artes com a bola nos pés.

Coisa que brasileiros e argentinos há muito não o fazem, nem com Dunga, nem com Maradona, como bem observou o atacante espanhol, e que não sacou o jornal. Deficiência intelectiva, demonstrada pela incapacidade de coordenar e organizar o real para além das armadilhas dos clichês.

Neste ponto, o jornal pode respirar aliviado, ao menos. Está no mesmo nível que a rede Globo, quando faz sempre a mesma pergunta para um sorridente Robinho, Luis Fabiano ou Kaká, recebendo, invariavelmente, a mesma resposta. O telespectador, irônico, sorri.

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Thursday, June 18, 2009

ONDE SE ENCONTRA O JORNALISMO NO DIPLOMA DO JORNALISTA?

Ontem, por 8 votos a favor e apenas um contra, o Superior Tribunal Federal (STF) aprovou como “inconstitucional a exigência de diploma para o exercício do jornalismo”. Os ministros assim procederam, por considerarem a chamada Lei de Imprensa como sendo retrógrada e ainda carregando ranços do regime de exceção instituído no regime militar, que teve como um dos principais funcionamentos desqualificar vozes e letras de resistência à ditadura.

Por outro lado, a Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj) aparece como a principal oposição à inconstitucionalidade da exigência do diploma, para a qual o principal argumento é o de preservar a qualidade no jornalismo que é oferecido à população.

Sabe-se que alguns dos ministros que votaram a favor falando em “liberdade de expressão” pouco são afeitos a colocá-la em prática. Discurso vazio, simulacro linguístico fundado na redundância da informação pela informação. Como Gilmar “Dantas” Mendes, mais afeito a uma Folha, um Estadão, uma Globo. Toda a mídia sequelada, veiculadora da notícia cristalizada e sem novidade.

Levando-se em conta ainda a necessidade de muitos jornalistas de salvar o bodó e o pirão, para este bloguinho, no entanto, a questão real está ocorrendo em outro lugar, que o lugar do conceito de jornalista e jornalismo. Ser jornalista é fazer jornalismo. E fazer jornalismo é tratá-lo enquanto função cívica, conforme o jornalista Ignacio Ramonet.

Naqueles tempos que a Lei de Imprensa foi instituída (AI-5), a posição (aí no sentido sartrista) de um Vladimir Herzog, em seu trabalho como jornalista engajado, não foi suficiente para manter sua integridade física, mas nem a brutalidade da ditadura pode jamais silenciá-lo. Enquanto isso, Roberto Marinho (tinha diploma de jornalismo?), encravado com os militares ditadores, pintava todas as páginas d’O Globona cor marrom, apagando qualquer possibilidade de aparecimento do homem real, sem a mínima possibilidade de cidadania jornalística, tendo ou não diploma seus não-jornalistas.

Na tentativa de manipular com seus decalques e seus enunciados ecolálicos, para que serve o diploma de Miriam Leitão, Clóvis Rossi, Reinaldo Azevedo, Eliane Catanhede, por exemplo, senão para tentar impor uma ditadura da informação distorcida? Império da desinformação generalizada. Que importância há no fato de um Mainardi não ter um diploma? Talvez servisse para o seu ‘calunismo’ social requentar-se de maiores imbecilidades/amenidades. Muito diferente de um Mino Carta, um Leandro Fortes, Marilene Felinto, que fazem passar pelo jornalismo todas aquelas características do bom jornalismo que nos fala o teatrólogo Qorpo-Santo.

Já entre o que Eduardo Guimarães chama de Movimento dos Sem-Mídia, e que este bloguinho, numa proximidade democrática, chama de Mídia-Minoria, no sentido filosofante de minoria, enquanto produção constante, contínua e intensiva, apenas alguns são diplomados no jornalismo, mas na onda blogueira, com todas as suas possibilidades de curvas, que destoam da Mídia-Maioria e, numa nova forma de verticalização, saltam e criam encontros inesperados para além do constituído, dos dados/fatos anemizados/anemizantes de real, provocando microfissuras, microrrevoluções, e fazendo surgir o Novo em palavras e imagens, independente de ter-se ou não ‘deploma’.

Há os que não tem diploma de Jornalismo e são jornalistas.

Há os que não tem diploma de Jornalismo e não são jornalistas.

Há os que tem diploma de Jornalismo e não são jornalistas.

Há os que tem diploma de Jornalismo e são jornalistas.

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Monday, June 15, 2009

A “INTELIGÊNCIA” DE UM JORNAL E A IRONIA DO LEITOR

A grande dor dos ideólogos midiáticos à direita da imagem-Deus é que o objeto de seus desejos, sua meta, aqueles a quem o seu trabalho deveria alcançar, nos últimos anos, não tem respondido de forma condizente com os seus esforços.

Uma ilustração: o governo Lula, e o próprio presidente, inabalável em seus sucessivos recordes de popularidade, em meio ao tiroteio diário midiático, há pelo menos sete anos, nos principais meios de comunicação do país. Neste meio tempo, Lula sobreviveu a zil CPI’s, supostos escândalos e tramóias, sendo eleito e reeleito, e com a gigantesca possibilidade de fazer o seu sucessor, graças, ironicamente, à mídia que lhe é hostil.

A mídia oficial descartou a lógica do fato e adotou a da imagem: o teleacontecimentocomo verdade, a despeito do real acontecimento. Ignora-se que contar um fato é reinventá-lo, ou na melhor das hipóteses, sabe-se disso, e utiliza-se disso. Não é o caso da mídia nativa, menos ainda da mídia local, de Manaus. A sobreposição entre o fato e sua imagem, feito de forma a desterritorializar referenciais de tempo e espaço, e territorializar uma moral de classe, rompe a relação de causalidade e de finalidade entre o ato e sua narração. Pior para a notícia. Necessita, como já abordamos aqui, de uma sobreposição de dizeres, a fim desuprir a anemia de realidade que não obstante, transborda. Daí, na briga entre a mídia e o governo Lula, ainda em nossa ilustração, quem realmente perdeu algo – se é que algum dia o teve para além da ilusão – foi a mídia, antes crente em si como Deus (onipresente, onipotente, onisciente).

Diante da avalanche de dizeres supérfluos, resta ao leitor a ironia: longe de estar indiferente, como pensam os ideólogos da direita, a massa não é inerte. Não obstante à sua passividade diante dos conteúdos produzidos pela mass media, ela continua consumindo o produto midiático: jornais, rádio, tevê, etc. Mas consome como num desafio: “que mais?”. Como se perguntassem constantemente, o que mais irão inventar? Diante da impotência concentual da direita e da esquerda em oferecerem alternativas efetivas para problemas cotidianos reais da sociedade capitalista, as massas apontam o caminho, sem niilismo, sem desespero. Ironiza estes que se autoproclamam os salvadores da terra.

Um rastro desta ironia se viu em Manaus, por exemplo, quando, diante da inoperância da gestão serafinesca, e da nulidade das opções oferecidas pela política partidária, a população elege justamente um dos responsáveis pela miséria social em que vive a Princesinha do Norte. Vítima de seu narcisismo patológico, Amazonino acreditou estar sendo eleito per si, quando na realidade era uma expressão do esgotamento conceitual da política amazonense: não há diferença, todos, à direita e à esquerda, são ou se apresentaram como iguais.

Daí a (indi)gestão inerte do atual prefeito e de seu vice, paralisia social, que se materializa nos postos e casinhas de saúde, sem remédios, nas vias públicas, com o trânsito intransitável e pelas obras descoordenadas e inúteis, pelos buracos que enfim encontraram, depois de boa gestão do prefeito anterior, na atualidade, um de seus criadores, mais de dez anos atrás, pela educação emparedada, pelo desrespeito ao funcionalismo público, e por aí segue.

A MÍDIA QUE CAIU NA IRONIA DO POVÃO

Na edição deste domingo do jornal A Crítica (Acrítica), na coluna Sobe e Desce – uma espécie de colunismo social “politizado” – aparece o prefeito sub judice, Amazonino Mendes, subindo, porque seu projeto sobre a meia-passagem estudantil teria sido “discutido e aprovado” pelos estudantes. Ao lado, a coluna do advogado Júlio Pedrosa, que trabalha para o jornal como advogado, fala sobre ética no jornalismo. Ironia do jornal para com seus leitores?

Não, na realidade, o jornal é a vítima da ironia. Primeiro, porque a ironia é um exercício intelectual elaborado, e não compõe com as sequelas que carrega a mídia domesticada aos interesses do capital. Segundo porque, ao abandonar o fato em favor da imagem, incorrendo no erro de confundir imagem e fato, o jornal aposta que seus leitores farão o mesmo, cometendo o logro cognitivo-epistemológico. O que não ocorre, já que a população sabe que o projeto do ex-governador e atual prefeito cassado não conta com o apoio da classe estudantil. O mesmo jornal, na sexta-feira, publicou que os estudantes continuariam os protestos em defesa do uso irrestrito da meia-passagem estudantil.

Daí o riso do leitor: ao acreditar-se superior em inteligência a ele, o jornal quer enredá-lo numa armadilha pueril. O leitor, ironicamente, sorri, sabe das tramas que envolvem a inclusão do textóide na coluna social jornalística, e responde com um silencioso sorriso: a confirmação da inutilidade do veículo que se vangloria de estar de mãos dadas com o povo. Qual povo, cara pálida?

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Monday, June 8, 2009

VÔO 447 E A DESAPARIÇÃO DA MÍDIA

Na sociedade de consumo, onde tudo se torna mercadoria reificada como objeto de lucro, e que as relações sociais são atravessadas pelos meios de comunicação, as mídias, principalmente as televisivas, se mantêm do mais alto grau de desaparição dos fatos. Condição de apanhar um fato real com todas suas notas de visibilidade representadas em tempo e espaço definido encadeadas em uma enunciação própria, confirmadas pela percepção e o intelecto , e desativá-lo para que seja apresentado como imagem virtual em tempo real. Imagem sem suporte material, e tempo destacado da história e dos conteúdos existenciais. Nada mais que elevação do fato a fetiche.

Estabelecida neste vazio, a mídia-televisiva trata a informação tão somente como um espectro, onde o acontecimento é preterido em favor do espetáculo virtualizado. Assim, diante de fatos considerados por ela como catastróficos, seu exercício é se apossar de objetos e pessoas envolvidas na catástrofe, desativá-las de suas realidades e existências, através da abstração formal, e transformá-las em mercadoria de lucro no mundo virtual, onde nenhum contato é possível com o mundo real, já que o fato entrou na névoa da desaparição É assim que ela consegue manter sua audiência: sempre com imagens desativadas prontas a capturar o telespectador dos sentidos e da inteligência virtualizados, desaparecidos de suas significâncias sociais.

A CATÁSTROFE DO VÔO 447

Desativada do real, a mídia-televisiva toma os fatos pela simplificação de seu vazio. Assim, tem como catastrófico uma ocorrência onde acontecem mortes, o signo místico de alto valor comercial. Entretanto, foi exatamente por este entendimento que ela se viu nestes últimos dez dias em situação desesperadora como veículo vampirante da expressão da dor lucrativa.

O acidente do Vôo 447 impôs na mídia-televisiva o maior grau de desespero diante da impossibilidade de lucrar com a dor alheia. Como sua lógica capitalística é apanhar os fatos ocorridos na esfera real e fazê-lo, pela abstração formal, desaparecer e exibir seus resíduos virtuais lucrativos como imagem despotencializada, e como o avião desapareceu nas águas oceânicas distante de suas possibilidades, ela viveu a dor do que é uma real catástrofe: o momento em que todas as regras de um sistema desaparecem e o sujeito não possui mais notas capazes de lhe conduzir na nova objetividade. Sem os destroços do avião, sem corpos, ela se viu imobilizada em sua própria desaparição. Queria um objeto qualquer para exibir como mercadoria. Como não havia nada sobre a superfície da tela oceânica, e mais a distância onde ocorreu o acidente, ela teve que se contentar com seus recursos da tecnologia virtual: montou avião como figura-virtual em espaço com o oceano como fundo, ajustados em textos especulativos, para não perder de vez a oportunidade de lucrar.

Agora, como o tempo afastou a força impactante do acidente como objeto comercial, eliminando seu tempo real, deixando somente os parentes das vítimas com o acontecimento/presença/real, onde o tempo da dor é mais longo, esta mídia-televisiva tem que enfrentar a realidade que o fato aéreo lhe impôs como fracasso econômico, onde a dor alheia é só mais uma mercadoria na mídia de mercado.

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Tuesday, June 2, 2009

DESAPARECIMENTO DE AVIÃO REVELA A AUSÊNCIA DO REAL NA MÍDIA

Quando o avião da Air France desapareceu em alto mar, sem deixar vestígios que pudessem revelar o seu paradeiro, dois sistemas constitutivos da chamada pós-modernidade foram ameaçados: a onisciência/onipotência/onipresença da teletecnologia e a força de mobilização midiática.

Para além da dor e angústia (reais) dos parentes e amigos dos passageiros, existe uma máquina de produção do hiperreal que move suas engrenagens na tentativa de cobrir o rasgo epistemológico que ocorre diante de tal acontecimento.

A imprensa trabalha produzindo decepção: termo usado pelo filósofo das velocidades, Paul Virilio, para designar a produção de saberes que tem por objetivo menos informar que ocultar. Contraprodução de informação, ausente dos elementos de ordem sígnico-cognitiva que permitiriam aos espectadores, telespectadores e leitores formarem uma sentença a partir dos fatos.

Para isso, se utiliza do aparato tecnológico que dispõe: imagens “em tempo real”, produção de dizeres em cascata, superposição de imagens e som em sequência ultrarrápidas, adesivação de valor pseudocientífico aos dizeres através do “especialismo midiático” – o exército de especialistas sempre prontos a opinar sobre quaisquer assuntos onde quer que esteja uma telinha – cortes e sequências de cenas em formato de filme de ação hollywoodianos, montagem da reportagem em formato filme estilo suspense (nada de Hitchcock), a telinha pulsante transbordando um real “mais real do que o real” (Baudrillard). A tensão emocional pasteurizada procura produzir no espectador uma sensação de dor e expectativa, uma contaminação emotiva em cadeia nacional de rádio e televisão. Tudo, é claro, entremeado pelo intervalo comercial. Parte do que a cientista social Naomi Klein chamou de “Doutrina de Choque”.

No entanto, o telespectador, sem os elementos necessários à composição neurocognitiva, é incapaz de produzir uma relação emotiva com o acontecimento. O discurso televisivo, como de resto os discursos padronizados das teletecnologias – incluindo a internet – impossibilita que o aparato neurocerebral humano consiga produzir territórios cognitivos nos quais possa se posicionar. É o criador se sujeitando à criatura. Sem os referenciais espaço-temporais necessários à produção estética (mesmo uma produção estética carregada dos códigos da loucura têm sua territorialidade e suas coordenadas, ainda que diversas do “padrão”), o discurso se torna ele próprio esquizofrenizado. Ao ponto de um apresentador televisivo, num noticiário matutino, ter ficado espantado pelo fato de um avião tão grande ter simplesmente desaparecido. O que causou numa telespectadora não capturada pela rede estupidificante a reação imediata: “o avião pode ser grande pra ele, mas no meio do mundo, é apenas um grão de areia”. Complexo de Kaspar Hauser?

Mesmo a ilusão da deusa Teletecnologia, que tudo sabe e tudo vê, não sobrevive à queda e desaparecimento de um avião no ar: no momento em que deveriam evidenciar a sua eficiência, os mil aparatos tecnológicos que circundam o globo em órbita supersônica e os nanoapatrechos do supermoderno avião que fazem tudo ficar mais fácil e automático, falharam. Naquele momento, um navio viking ou uma caravela genovesiana teriam sido mais eficazes: poderiam facilmente avistar e se aproximar do local da queda.

Enquanto a mídia produz uma desterritorialização relativa em termos de referenciais neurocognitivos, visando produzir um efeito emotivo em cascata e padronizado, consegue o efeito contrário: impossibilitados de compor afetivamente com o acontecimento, resta ao telespectador-videota o embotamento afetivo. A indiferença. Não houve queda, sequer existiu avião, da mesma forma que não se ouvem as bombas que diuturnamente explodem no Afeganistão, Iraque, Palestina, e os gritos dos torturados em Guantánamo, nas prisões secretas estadunidenses e na delegacia da vizinhança.

O que resta é um espectro da dor, culto à morte por uma instância social de uma sociedade tanática (mídia, governos), e que somente a eles pertence e diz respeito. Do outro lado, uma dor real: a dos parentes e amigos das vítimas, que sofrem uma dupla violentação, a da perda dos entes queridos, e a do uso de sua dor como móbil para o lucro.

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Thursday, May 28, 2009

CONCESSÃO DE TV ALIADA DE PROGRAMAÇÃO MISERABILIZANTE

Os meios de comunicação Rádio e TV não possuem proprietários. Não se configuram como propriedade privada. São concessões outorgadas pelo Governo Federal à instituições, entidades e grupos familiares. São sinais abertos pelo Ministério de Comunicação a estes beneficiados para que, de acordo com as leis constitucionais sobre utilidade pública, serviço público e disciplina cívica, realizem ações coletivas em benefício da sociedade, tendo como meta única a contribuição à construção da cidadania democrática. O que implica a priori, que para receber uma concessão o requerido seja um sujeito comprometido institucionalmente com estas regras do Estado democrático. Seja carregado por corpos afetivos e cognitivos como constitutivos éticos, para que possa, por esta concessão difusora dirigida ao Bem Comum como práxis de informação, de educação, de laser, de entretenimento, de reflexão, de atuação, e de todos os agenciamentos de alteridade social, realizar a comunalidade comunicacional . Para que esta concessão pública não seja confundida, em sua administração, com empresa privada que segue o objetivo lucrativo de seus responsáveis.

OS PERCURSOS DAS CONCESSÕES

No Brasil, a outorga de concessões de meios de comunicação, nem sempre seguiu estas regras constitucionais, principalmente quanto aos fatores educativos da democracia como regime de cidadania. Muitas concessões foram concedidas seguindo a lógica do “coleguismo”. O privilégio aos mais próximos, ou aos futuros próximos. Uma espécie de perspectiva ao privilégio, já que os meios de comunicação são ricos veículos de promoção pessoal. Foi neste endereçamento que nos governo Sarney, Itamar e Fernando Henrique ocorreram as grande farras de distribuições de concessões. Muito bem exemplificadas nas gestões ministeriais do senador baiano, Antônio Carlos Magalhães, vulgo Toninho Malvadeza.  Tanto para membro dos poderes executivo e legislativo, como para aqueles que iriam – como foram – se aventurar nas benesses destes poderes. Ou ainda para àqueles que pretendiam defender sua idéias micro-fascistas como ocorre com as grandes mídias.

A MISÉRIA DA MÍDIA LOCAL

Inventariando o exercício das duas mídias em Manaus, percebe-se, na tela e na onda da obviedade, que tirando, talvez, a Rádio Rio Mar, e as Rádios Comunitárias, todas as outras sofrem da miséria intelectual e sensorial. A falta que impede a construção da comunicação comunalidade cidadã. A ética comunicacional coletiva. Faltam em seus corpos programáticos difusores os limites dos 25% de publicidade, o 5% de noticiário, as 5 horas de programas educativos e os 10% de programas regionais, como pede o estatuto para outorga de concessão. Desta maneira, eliminados os princípios democráticos, prevalece a oralidade lucrativa: a mídia de mercado.

Sub-existindo com a falta, ou a miséria intelectual e sensorial, as faculdades fundadoras da mídia ética, os responsáveis pelas concessões se puseram a reproduzir programações importadas, e programas miserabilizantes. Aí não deu outra: vingaram os miseráveis. Programas de ofensa indiscriminada aos pobres humilhados, ofendidos excluídos de seus direitos constitucionais. Juntou-se a impotência dos dirigentes das mídias, mais a ineficiência administrativa-jurídica dos governantes da direita, a anestesia-indiferente da classe media e os interesses “políticos” de alguns destes dirigentes midiáticos, então, formou-se o carrossel tanático da comunicação. A drogatização perceptiva/intelectiva de uma parte da coletividade. Foi aí que os irmãos Souza se estabeleceram aliados à alguns dirigentes de mídias que também procuraram somar privilégios junto aqueles telespectadores destes programas.

DOLOROSA SÍNTESE MIDIÁTICA

Portanto, para fazer um estudo coerente sobre o caso atual dos irmãos Souza que usaram a mídia para promoção pessoal – e que promoção – é preciso inventariar e analisar os seguimentos sociais que lhe facilitaram o uso abusivo da televisão que ultrapassou os valores da racionalidade. Pois, é fácil entender que se as concessões tivessem seguido os critérios democráticos em suas outorgas;  se os governos não tivessem abandonando as classes humilhadas; se a classe média não fosse tão egoisticamente dormente; se os empresários patrocinadores entendessem que as mercadorias são objetos de relações sociais; se houvesse nas igrejas um cristianismo atuante; se estes telespectadores tivessem sentido crítico e se os Cursos de Jornalismo fossem engajados na crítica social, principalmente o da UFAM – que, alienado da existência comunitária, cometeu a violência epistemológica-moral levando, certa vez, um dos irmãos Souza para palestrar aos  alunos como se este tivesse algum signo-jornalístico-democrático necessário à formação profissional destes alunos – , estes programas não teriam eclodido e se propagado como ofensa à dignidade da sociedade manauara.

Como triste paródia, pode ate ser que alguns dos responsáveis destas mídias, aventem, em suas defesas, que não têm nenhuma responsabilidade por estes programas. E que só venderam os tempos de TV, e a responsabilidade era só dos produtores. Pobre argumento. Que democrata, envolvido pelos princípios da dignidade e solidariedade humana, alugaria sua residência para servir de um centro de tortura? Além de quê, uma concessão pública não é um feudo para ser arrendado à outro de acordo com os interesses privados do  senhor.

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Wednesday, May 27, 2009

FÓRUM PARA CRIAÇÃO DE INSTITUTO REGULADOR DAS TVs PÚBLICAS

Reuniram-se na Câmara dos Deputados, com o apoio da Empresa Brasil de Comunicação, 2.200 entidades representativas de emissoras e transmissoras de rádio e TVs estatais, educativas, universitárias, legislativas e comunitárias para tratarem da criação de um instituto regularizador destes meios de comunicação pública quanto seu desempenho.

Na ocasião os participantes analisaram a principal função destes órgãos como responsáveis pela informação e o laser como serviço público que não deve seguir como modelo a mídia comercial cujo único objetivo é o lucro, já que é uma concessão pública administrada como empresa privada. Além de analisarem, as programações de algumas emissoras públicas que estão mais à serviço de grupos oficiais que propriamente ao público.

Entre os participantes, o ex-presidente da TV Cultura de São Paulo, Jorge Cunha, comentando a situação destas emissoras. Disse:

Vivemos na ilegalidade cívica. Estamos em uma confusão jurídica que precisa de esclarecimento”.

E, ainda, segundo seu entendimento, a criação do instituto pode articular a sociedade, produtores e a pesquisa universitária.

Já o cientista político Carlos Novaes, analisou o fato, afirmando:

Temos que ampliar a superfície de contato da medição com a sociedade”.

Sobre a audiência em queda das emissoras públicas e o aumento de acesso a Internet, ele considerou:

A audiência não é um corpo determinado”.

Disse, ainda que a audiência se mantém em transformação. E agora está ocorrendo que muitas pessoas estão deixando de assistir TV por que tiveram suas rendas salariais aumentadas, o que lhes permite buscar outras formas de laser. Além do fator Internet que está tirando também audiência das TVs, principalmente os jovens entre 15 e 29 anos que correspondem 53 milhões que acessam este meio virtual.

Com a criação do instituto as emissoras públicas produziriam programas exclusivamente voltados para cidadania e a construção da democracia. Assim não haveria concorrência e nem o perigo de perder audiência, por trata-se de agir como uma forma ética de evitar a alienação do telespectador. Já que as emissoras comerciais, presas na ambição do lucro, portanto anulando o papel público e cívico de suas concessões, oferecem aos telespectadores os corpus fundadores da alienação que exige a sociedade de consumo.

Fonte: Agência Brasil

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