Wednesday, June 24, 2009

“TE AMO, ESPANHOLA SE FOR CHORAR, TE AMO”

TE AMO, ESPANHOLA.

SE FOR CHORAR, TE AMO”

Sá e Guarabyra

A disputa da partida entre as seleções espanhola e norte-americana, que terminou com a vantagem da segunda com dois gols contra nenhum da seleção da terra de Dali, pode ser vista por duas perspectivas de dois torcedores por fora de futebol.

Uma, do torcedor que acredita que se ganha uma partida antes do futebol. Para este torcedor a seleção espanhola perdeu ontem, quando o técnico ianque, Bob Bradley, afirmou que o time espanhol tem “capacidade para abrir e jogar em espaços curtos é maravilhoso, mas sabemos como detê-los”. Com força atlética, fôlego, posicionados em contra-ataque e fechados compactamente, meteram duas bolas, transformadas em gols nos dois tempos. Altidore, no primeiro, e Dempey no segundo. Detiveram os espanhóis.

Outra, a perspectiva do torcedor que acredita que os ianques ganharam hoje, com ajuda dos próprios espanhóis. O primeiro, um desconhecimento do zagueiro que não entende de física. Depois de se colocar por trás do atacante americano, na grande área, resolveu tira-lhe a bola circulando para sua frente, o que facilitou a “volta do anzol” do americano, no corpo do espanhol, e conseqüentemente ficar de cara com o goleiro, e aí, foi chuá, meu. Nada a questionar. “Ta lamentado o quê?” O segundo, contra-ataque do Tio Sam pela direita, cruzamento na frente das traves, Ramos, pára a bola em desequilíbrio, e Dempsey, que vinha ao seu lado, virou, agradecendo a física, e empurrou. Pique foi lamentar abraço com a trave que é um bom lugar para chorar e consolar. A física demonstrando o que é está por fora de futebol.

Para o torcedor da segunda perspectiva, a seleção espanhola perdeu, mas continua “maravilhosa”. Joga bem, trama bem, desliza em campo, faz lançamento em profundidade, mas comete um pequeno/grande equívoco, para perturbar o “maravilhoso” de Aragon: não chuta em direção do território onde nasce o gol. E nesta partida, quando chutou, lá estava o keeper da meta ianque. E como dizem os que estão por dentro de futebol: futebol é gol, galera! Assim futebol não é uma caixinha de surpresa.

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WALLACE E MOA DISPUTAM DEUS

A imaginação é uma das potentes faculdades humana. Elaa, dependendo da situação, entrelaça-se com a inteligência produz , ou afirma saberes. Em alguns momentos de vigília ela flui sem rédeas. Outras ela é dirigida pela vontade. “Eu estava pensando em ti”. “Não, tua estavas imaginando”. “Tenho pensado muito no nosso amor”. “Não, tem imaginado nosso amor”. É a imaginação se mostrando com objetividade, mesmo quando alheia. De qualquer porto a imaginação deixa navegar névoas de imagens-lembranças, nada nocivas.

Todavia, há um momento em que a imaginação é nociva para seu possuidor. É quando ela está confluída em afetos prenhes de dores. Culpa, inveja, ressentimento, rancor, ódio, como forma de superstição. Aí a imaginação é o mais baixo grau  da faculdade humana, visto que ela desloca o sujeito para uma transcendência persecutória. Sujeito-perseguido. É aí que um deus falseado é nomeado pelo supersticioso para se mostrar como Deus-Juiz que livra seu usuário das acusações fazendo-o personagem acima e abaixo de qualquer suspeita. Pela imaginação-supersticiosa, é claro.

COM QUEM DEUS ESTÁ?

O deputado estadual, Wallace, investigado e indiciado pela Justiça do Amazonas acusado de autorias de vários crimes, juntamente com seu filho, Rafael, em discurso na Assembléia do Estado para os seus pares, com o propósito de atingir alguns membros da CPI, e assim melhorar sua situação diante com possíveis beneplácitos, afirmou, em lágrimas, que tudo que fez Deus estava consigo. Foi um discurso, teologicamente, todo pontoado de Deus. Se alguém tivesse que afirmar que um sujeito é crente de acordo com a quantidade de vezes que este sujeito profere a palavra Deus, ali estava um insuspeito crente: o deputado.

Por sua vez, o ex-policial, ex-guarda-costas e ex-amigo do deputado, Moacir, ou Moa para os íntimos e a imprensa, testemunha chave de acusação que abriu o leque de denúncias contra Wallace e seu filho, depois de voltar do presídio em Catanduva, no Paraná, para novos depoimentos, afirmou que aceitou Jesus. Filho de Deus, para muitos, o próprio Deus.

Agora, o dilema teológico foi levantado. Wallace fala o nome de Deus e sempre se reporta a seu passado de próximo da igreja católica. Por seu novo lado, o teológico, Moa, afirma que Deus está consigo. Dois rivais em uma mesma imaginação-supersticiosa.

Wallace, que afirmou, no começo das investigações, que não conhecia Moa, diz que tudo que seu ex-guarda costa disse à polícia é mentira. Já, Moacir, em seu novo depoimento, pós-encontro com Cristo, reafirmou tudo que falou e ainda apresentou novos sinais incriminatórios contra o deputado. Desta forma, salta a pergunta que quer ser calada: Com quem Deus está?

Bem, quanto ao caso de quem tem a verdade para realizar a justiça democrática, o Poder Judiciário do Amazonas pode, através de seus Códigos de Leis, mostrar para sociedade. Mas quem tem poder de afirmar com quem Deus está, é que é o fundamento do dilema. A sociedade tem que recorrer às igrejas com seus padres e pastores? Mas aí salta a certeza para a sociedade: “Tem tanto religiosos envolvido com falcatruas, delitos leves e pesados”. Neste caso, sendo o Brasil uma democracia, e a democracia o governo de todos, e sendo Deus um espírito para os bons, e sendo o Povo uma potência boa, só cabe ao Povo sentenciar em sociedade os desígnios democráticos de Deus.

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Sunday, June 21, 2009

MEIA PIZZA NA COPA DAS CONFEDERAÇÕES

Tornou-se lugar comum desde que Dunga foi indicado técnico da seleção brasileira atribuir-se a esta seleção uma plástica facial: é a cara do Dunga. Até os retrógrados repórteres da Folha de São Paulo também lançaram-se a esta atribuição plástica. Com tamanha obviedade de que Dunga nada entende de futebol, a não ser para Ricardo Teixeira, presidente da CBF e alguns da mídia, a confirmação não poderia ser outra. O que não traduz nada de inteligência superior, dado o grau de realidade insuspeita.

Hoje, domingo, dia 21, África do Sul, outra confirmação. Primeiro tempo de 3 gols a favor dos replicantes ‘dunguiados’ (guiados pelo Dunda, ou cara clonada), gols obra dos acasos da regra do futebol, coadjuvado por uma Itália asseverando o que foi publicado antes do começo da Copa das Confederações: “A seleção italiana vai para a África do Sul – como a maioria das seleções - para passear. A seleção italiana não leva a sério esta Copa”, afirmaram os comentaristas internacionais. Pelo que se viu no primeiro tempo, com cara de pizza dos próprios donos, procediam os comentários: a Itália não está nem aí. E assim, os ‘dungaclonados’ se esbaldaram, e com direito a gol contra. Sim, porque se existe uma seleção cujos jogadores carregam pesos sufocantes de afetos inferiores é esta dos ‘dungaclonados’. Para ela, em sua lógica de inferioridade, a questão é “vencer, vencer, vencer, não importa como”.

Foi, então, que veio o segundo tempo: os comentaristas erraram. A seleção italiana entrou em campo para jogar 45 minutos. Aí não deu outra: tornou-se mais evidente a cara de Dunga. Os ‘dungaclonados’ desapareceram de campo. Como é uma seleção do que há de pior de inteligência individual e coletiva, e o que há de mais anêmico em voz ativa – tal como o amante de Branca de Neve -, os italianos tomaram conta do campo, obrigando o prepotente goleiro Júlio César (que nem no nome se assemelha ao Imperador romano) a fazer várias defesas. Defesas, que é bom que se diga no lugar comum, não foi ele quem fez. Quase todas bolas foram em sua direção.

Terminado os 45 minutos reais, predominaram os 45 minutos casuais: ‘dungaclonados’ 3, e os ‘felinianos’ 0. Placar de quando só havia em campo os acasos do futebol. E nisto, a certeza de que em muitas vezes, no futebol, um time que perde a partida revela, com sua derrota, o quanto o vencedor é inferior. Esta, a meia pizza que os italianos degustaram.

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Friday, June 12, 2009

DIA DOS NAMORADOS TOCANDO DE LEVE EM SANTO ANTÔNIO

A sociedade dita humana é marcada, antropologicamente, por rituais. Pontuações cronológicas nascidas de fatos históricos concebidos como produções materiais, e pontuações engendradas pela imaginação, muitas em formas de superstições. Manifestam-se em datas comemorativas. Uma referentes à história política da sociedade, feitos sociais, econômicos, esportivos, artísticos, etc; outra referente à alegorias, festividades religiosas e familiares.

Tratando-se do Dia dos Namorados, o mesmo se aloja no tipo de segunda pontuação cronológica. Uma data com o sumo sabor capitalista-comercial. Momento para possível melhora nas vendas. Data em que as formas de relações entre casais, ou mais, estão vinculadas a venda, compra e lucro. Muitas vezes até como lucro de fortalecimento dos namorados. Daí poder ser sintetizada para o comércio em: “Amar é dar presente!”

De formas, que a mercadoria, seja ela de que forma for, representa o elemento intermediário por excelência do acordo enamorante. É exatamente neste sentido calculista do namorar que apresentamos histórias tocando de leve em Santo Antônio, o Santo apanhado pelo capitalismo como seu garoto-propaganda. Disfarçado como aquele que une os casais em enamoramento. Ou, quem sabe, em casamento.

UMA AMOR MALOGRADO*

Ele, como jovem, carregava duas inquietações perversas para sua idade. Uma, não ter um emprego. Outra, não ter uma namorada. Para ele, a segunda estava intricadamente ligada à primeira. Sem emprego, nada de salário. Sem salário, como arranjar uma namorada? Uma namorada, além de afetos, implica relações materiais, como pegar uma tela, dar uns rolés de busão, comer pipoca na praça, ir a uma balada, tomar um sorvete, tudo que só é possível com o vil metal. E quantas garotas ele via desfilando em sua frente sempre que ficava de bobeira no Shopping. Quantas, quando uma só poderia ser sua namorada. Fantasia que esmaecia quando passava sua carteira de estudante na catraca do busão, que o condizia para a escola e para casa.

Certa tarde, precisando comprar uns objetos para a mãe, foi ao Shopping. Comprou os objetos e aproveitou para ficar de bobeira olhando as gatas. Perambulando no ventre do capitalismo psicodélico, não prestou atenção a uma voz chamando-o. Em seguida, como saindo de um quadro surrealista, percebeu que uma mulher, na porta de uma loja, chamava-o. Ele se aproximou, a mulher perguntou o nome dele, o que ele fazia, ele respondeu. Nisso, ela perguntou se ele não gostaria de trabalhar na loja. O coração disparou, um frio na boca do estômago, olhou para os lados, todas as gatas magicamente se transformaram em uma beleza só. Efusivo, respondeu que sim. A mulher confessou que alguns dias já vinha observando-o, e seu tipo físico era ideal para a função de vendedor de sua loja, que investia na beleza jovem, por isso o escolheu.

Começou a encarar a batalha, muito dedicado, amigo com os outros funcionários, logo formou um novo laço de amizade. Uma tarde, uma jovem entrou na loja para comprar um objeto. Ele foi atendê-la. Ela olhou para ele e disse que o que queria comprar poderia ser comprado em qualquer loja, mas que escolhera aquela por que pretendia conhecê-lo. Há alguns dias o tinha sacado. Ele sorriu tímido, mas feliz. Ela sorriu e pegou em sua mão. Deste momento em diante se enamoraram.

O dia do primeiro pagamento correspondia à véspera do Dia dos Namorados. Depois do trabalho, os dois se encontraram na Praça de Alimentação. Ele, então, disse que gostaria de lhe dar um presente no Dia dos Namorados, e perguntou o que ela gostaria de ganhar. Ela sorriu maravilhada, e exclamou que era o que estava esperando que ele lhe perguntasse. Aí, pediu que ele cortasse os cabelos. O rapaz sorriu pensativo, balançou a cabeça verticalmente, olhou firmemente nos olhos dela, inspirou em silêncio, e disse que não faria isto. Ela ficou surpresa, e argumentou que agindo desta forma ele mostrava que não a amava. O rapaz calmamente disse que se ela se enamorou dele com os cabelos grandes, e ele se auto-estimava com esta imagem, se cortasse os cabelos, ele passaria a ser outro, e como outro não mais a amaria, e ela estaria apaixonada por este outro dos cabelos curtos, não ele. E se ela tivesse se aproximado dele com o propósito de que no futuro ele cortasse os cabelos, como no momento estava acontecendo, ela, quando o viu com os cabelos grandes, e até aquele momento, não o amava. Amava sim uma imagem produzida nela pelo preconceito de adultos muito antes de ela nascer. Diante das considerações do rapaz, ela se amuou, levantou-se e saiu dizendo que ele quem perdera, pois ela tencionava no Dia dos Namorados apresentá-los aos pais. Da sua parte, ele sorriu, enquanto por suas costas uma garota passava puxando de leve seus cabelos.

A ADIVINHAÇÃO

Desde meninota, nas festas de Santo Antônio, ela gostava de participar das adivinhações ao Santo Casamenteiro. Chegada aos vinte anos, com as amigas, casadas e solteiras, falando que ela estava chegando na idade do caritó, entrou na ansiedade de querer casar. Só que queria casar com o rapaz certo. E ninguém mais indicado para apontar um partido certo do que Santo Antônio. Por isto, esperou ansiosa o dia do carequinha.

Chegado o dia, entre os festejos, as comilanças, os foguetes e as músicas, chegou a hora das adivinhações. Eufórica, ela escolheu logo a que mais acreditava: a faca na bananeira. Faca enfiada na bananeira, apreensiva, mas feliz foi dormir.

No outro dia, bem cedinho, foi até a bananeira. Bem de levezinho tirou a faca, olhou a lâmina, e tentou decifrar o nome do futuro marido. Seu corpo se arrepiou todo. Lá estava escrito, para seu entendimento, o nome: Aldino. No mesmo momento recorreu à memória para ver se encontrava algum Aldino, entre seus conhecidos. Nada. Não tinha ninguém com este nome. Para se confortar, falou para sua expectativa não entrar em desespero, é só esperar, que Santo Antônio era o “bicho” em casos de casamento. Pelo menos o nome do amado ela já sabia.

Ocorreu que varias vezes ao pegar o ônibus para ir ao emprego, duas paradas à frente, um rapaz gentil, sentara ao seu lado. De tantas coincidências, ataram uma relação de passageiros, ao ponto dela já esperar sua entrada no ônibus. Algumas vezes frustradas: ora já havia alguém sentado na poltrona, ora um estranho sentava ao seu lado, antes do passageiro-amigo.

O certo é que um belo dia ela ariscou perguntar seu nome, ele respondeu amigável: Aldino. Ela quase morre. Era o enviado de Santo Antônio, e logo apertou a mão do rapaz, que adorou.

Como a amizade encontrava-se muito bem engatada, passar para o namoro foi um passo, e menor que um passo, para o casamento. Casaram-se, e como ele fora transferido para outra cidade, lá foram os dois viver seus paraísos.

Aconteceu de terem que comprar uma casa financiada pela Caixa, que exigia dos documentos fidelidade. Foi, então, que ela viu, quando ele assinou um papel, que o nome de seu amor não era Aldino, e sim Aldiro. Desmaiou. Nome produto do misto de Aldiléia e Ronildo, segundo revelação dele logo após o desmaio.

Já em casa. Ele explicou que os colegas lhe chamavam de Aldino, porque achavam Aldiro muito feio. Ela abraçou-o, chorando, e contou toda sua história antoniona. Desesperada, abraçou-lhe mais forte, e disse que era preciso eles se separarem para ela sair em busca do seu Aldino. Ele analisou que se eles se amavam tanto, nada era mais importante. Mas ela, inquebrantável em sua opinião, tomou-se resoluta em ir ao encontro de seu Aldino. Como estava perto do dia de Santo Antônio, ele sugeriu que ela tentasse de novo a adivinhação, e, sem qualquer ânimo, só para não magoá-lo, ela aceitou.

Chegou o dia do Santo, e com ele a noite, e os dois foram até uma bananeira. Ela enfiou a faca. No outro dia, ansiosos, os dois foram ver que nome deu. Triste, ela, leu: Aldino. Foi, então, que ale pegou a faca e leu com atenção. Lá estava escrito, Aldiro. Ela, dominada pela ânsia de casar, não percebeu que o n de Aldino não era n, era r. R de seu grande amor: Aldiro.

*Malogroé um termo usado pelo filósofo Sartre para significar uma existência inautêntica. Uma existência como consequência, e não como princípio que se faz como subterfúgio, atalhos, a Má-Fé burguesa.

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Tuesday, June 9, 2009

O CAMPEÃO DA MORAL KAKÁ E A AMANTE TORCIDA DO MILAN

O mito do amor eterno se desfaz quando a fascinação, névoa a-filosófica, se desfaz, revelando a má fé dos amantes. O filósofo Sartre, em sua análise fenomenológica/existencial das relações do homem, aponta que o amor, nos tempos do capital, surge como uma relação de tentativa – em vão – de ocultação e escamoteamento da liberdade sob o véu da ilusão do querer do outro.

Assim, numa mesa de restaurante, a mulher sabe bem o que o seu pretendente quer – e não é ela -, mas precisa, a fim de completar a fantasia, necessária ao malogro de si, acreditar piamente que é desejada. O homem, para conseguir realizar o ser escamoteado da moral social que carrega, efeito sem jamais poder ser causa, precisa igualmente acreditar que a mulher acredita estar sendo seduzida. Enganando um ao outro, alcançam o objetivo do malogro e da má-fé: enganam a si mesmos. Apoteoticamente, caem as ilusões e resta a insuportável consequência de uma vida falseada. Às vezes, vivida durante décadas.

Assim a amante torcida do Milan caiu nos galanteios do imberbe Kaká, que hasteou a camisa 22 rossonera na janela de sua casa no início deste ano, quando mostrou que acredita na máxima do capitalismo (todo homem tem seu preço) e balançou diante dos petrodólares do Manchester City. Como o amante, que em meio a mil juras eternas à única amada, não resiste aos negaceios eróticos da outra, Kaká suou mais que Cristo no Gólgota, mas resistiu à tentação (resistiu?). O problema, para ele, na época, foi dogmático-teológico: pecar em pensamento, para a doutrina cristã paulina, é também pecar.

Mas a torcida do Milan (e a imprensa brasileira), embotados que são pelos signos-clichê que carrega o campeão da moral, Kaká, preferiram não ver que o amante ideal, marido perfeito e cumpridor das obrigações celestiais flertou.

Da torcida milanesa, não se esperava muito: quem crê em Berlusconi pode muito bem ser enganado por Kaká, e a mesma torcida que endeusou o clone do Bebeto, hostilizou o zagueiro Paolo Maldini, mais de duas décadas vergando a camiseta do clube, capitão honorário, e que foi humilhado na sua despedida duplamente: pelo Roma, que venceu a partida, e pela própria torcida, que o chamou mercenário. Coisas, certamente, do futebusiness, não do futebol.

Kaká vai para um clube que carrega signos semelhantes a ele: o Real Madrid, profundamente identificado com o ideário fascista da ditadura de Franco, aglutinador da torcida da direita política espanhola, manipulador do mercado da bola a ponto de usar um jornal esportivo da capital espanhola como fonte de factóides a fim de desestabilizar clubes e jogadores (o Kaká luso, Cristiano Ronaldo, que o diga). Não por acaso, José Maria Aznar, o presidente espanhol que enviou tropas ao Iraque, que confraternizou com Bush Jr, e que nos atentados no metrô de Madrid tentou, em vão, manipular as informações em proveito próprio, torce pelo Real, enquanto o atual presidente, Zapatero, de esquerda moderadíssima, torce pelo Barcelona. Kaká, como no Milan de Berlusconi, troca de camisa sem trocar de ambiência. A Europa, que elegeu como o mais votado o próprio Berlusca ao parlamento continental, que o diga.

Kaká, como o bom burguês, o amante da comédia de costumes bem ao estilo burlesco, não faz por menos, e repete o seu papel. Diante da amada traída, afirma ainda a fantasia psicopatológica, e diz que a relação acaba, mas o amor é eterno. São os ossos do ofício, os males do profissionalismo, dirão alguns. Até mesmo o ingênuo Edson Arantes do Nascimento, que como Pelé inaugurou a era dos jogadores marketistas, foi driblado pela sanha capitalística do futebusiness: também ele acreditou nas juras de amor eterno do futuro pastor da igreja Renascer.

Mas se agora se fala em profissionalismo, em necessidade, em modernismo no futebol, onde estava a inteligentsiada mídia esportiva quando Kaká, há pouco menos de seis meses, afirmava não aceitar (enquanto o pai e agente se reunia com os representantes do time anglo-oriental) sair do Milan por dinheiro algum, e que pretendia fazer toda a sua carreira no clube rossonero?

Para esta mídia, nostálgica da virgindade perdida, e eternamente à procura do malogro do amor do capital, e para a torcida milanesa – como de resto, também a torcida merengue, novo alvo dos galanteios do galã imberbe – resta o cancioneiro popular, repleto de loas à mágoa de ser infiel a si mesmo, insuportável consequência das armadilhas que certas existências preparam para si mesmas:

Vá embora,

Pois me resta o consolo e a alegria

De dizer que depois da boemia,

É de mim que você

Gosta mais”.

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Monday, June 8, 2009

VÔO 447 E A DESAPARIÇÃO DA MÍDIA

Na sociedade de consumo, onde tudo se torna mercadoria reificada como objeto de lucro, e que as relações sociais são atravessadas pelos meios de comunicação, as mídias, principalmente as televisivas, se mantêm do mais alto grau de desaparição dos fatos. Condição de apanhar um fato real com todas suas notas de visibilidade representadas em tempo e espaço definido encadeadas em uma enunciação própria, confirmadas pela percepção e o intelecto , e desativá-lo para que seja apresentado como imagem virtual em tempo real. Imagem sem suporte material, e tempo destacado da história e dos conteúdos existenciais. Nada mais que elevação do fato a fetiche.

Estabelecida neste vazio, a mídia-televisiva trata a informação tão somente como um espectro, onde o acontecimento é preterido em favor do espetáculo virtualizado. Assim, diante de fatos considerados por ela como catastróficos, seu exercício é se apossar de objetos e pessoas envolvidas na catástrofe, desativá-las de suas realidades e existências, através da abstração formal, e transformá-las em mercadoria de lucro no mundo virtual, onde nenhum contato é possível com o mundo real, já que o fato entrou na névoa da desaparição É assim que ela consegue manter sua audiência: sempre com imagens desativadas prontas a capturar o telespectador dos sentidos e da inteligência virtualizados, desaparecidos de suas significâncias sociais.

A CATÁSTROFE DO VÔO 447

Desativada do real, a mídia-televisiva toma os fatos pela simplificação de seu vazio. Assim, tem como catastrófico uma ocorrência onde acontecem mortes, o signo místico de alto valor comercial. Entretanto, foi exatamente por este entendimento que ela se viu nestes últimos dez dias em situação desesperadora como veículo vampirante da expressão da dor lucrativa.

O acidente do Vôo 447 impôs na mídia-televisiva o maior grau de desespero diante da impossibilidade de lucrar com a dor alheia. Como sua lógica capitalística é apanhar os fatos ocorridos na esfera real e fazê-lo, pela abstração formal, desaparecer e exibir seus resíduos virtuais lucrativos como imagem despotencializada, e como o avião desapareceu nas águas oceânicas distante de suas possibilidades, ela viveu a dor do que é uma real catástrofe: o momento em que todas as regras de um sistema desaparecem e o sujeito não possui mais notas capazes de lhe conduzir na nova objetividade. Sem os destroços do avião, sem corpos, ela se viu imobilizada em sua própria desaparição. Queria um objeto qualquer para exibir como mercadoria. Como não havia nada sobre a superfície da tela oceânica, e mais a distância onde ocorreu o acidente, ela teve que se contentar com seus recursos da tecnologia virtual: montou avião como figura-virtual em espaço com o oceano como fundo, ajustados em textos especulativos, para não perder de vez a oportunidade de lucrar.

Agora, como o tempo afastou a força impactante do acidente como objeto comercial, eliminando seu tempo real, deixando somente os parentes das vítimas com o acontecimento/presença/real, onde o tempo da dor é mais longo, esta mídia-televisiva tem que enfrentar a realidade que o fato aéreo lhe impôs como fracasso econômico, onde a dor alheia é só mais uma mercadoria na mídia de mercado.

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Sunday, June 7, 2009

XUXA: UM PRÍNCIPE PARA SASHA

Uma das vertentes da psicanálise diz que em se tratando de amor Eros é, deslocado da mitologia para as proposições existências, o personagem que simboliza o amor adulto dessublimado da fantasia. O amor do Princípio da Realidade. O conluio racional dos casais. Já o personagem que simboliza o amor imaturo, a infantilização dos afetos e da genitália, é Cupido. A criança danadinha que sempre está aprontando as suas e jamais cresce. Fica sempre nas névoas da fantasia do Princípio do Prazer. A atrofia da vida. Segundo esta vertente psicanalística.

Tomada esta vertente como modelar dos programas “infantis” das televisões, de Maísa a Angélica, todas são atrofiadas. Só que a atrofia maior é Xuxa. Não por que é a mais velha na ordem da sublimação, tia sem simbolização, mas porque ficou presa nos brinquedos ‘desbrincados’ da infância. Daí porque Xuxa não permitiu que sua filhota Sasha crescesse. Jogou a criança, ainda criança, nas miras de Cupido. O pior Cupido: o Cupido televisivo da sociedade de consumo. Bem provável que Xuxa tenha acreditado na sentença castradora de que os pais sabem muito bem o que é bom para seus filhos.

Desta forma, Xuxa pretende que sua filhota seja sua continuadora no espetáculo de atrofia pedófila – no sentido grego em que as crianças não recebem orientação pedagógica de acordo com suas condições cognitivas e afetivas infantis –, por isto programou o concurso “Procura-se um Príncipe”, para selecionar um mancebo capaz de contracenar com sua filhota no filme “O Mistério da Feiurinha”, que será dirigido pela ‘ex-cineasta’ Tizuka Yamazaki (como decaiu).

É certo que a Xuxa não seria esta obreira de Cupido se não houvesse um número gritante de pais também atrofiados em seus amores afetivos e genitais. Por isso, a ex-Pelé, consegue 6.000 concorrentes cupidianos, com 15 anos, com a intenção de contracenar com sua filhota de 10.

Tudo que permite Xuxa, no meio de sua eterna “infância”, proferir, no momento da graduação do escolhido, Bernardo Mesquita, a culposa condenação: “Com o posto de Rainha dos Baixinhos, eu te consagro agora Príncipe do filme, “O Mistério da Feiurinha”. Como diria o moralista do deboche: “Que coisa feia, Tia Xuxa”!

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Tuesday, June 2, 2009

A COPA EM MANAUS E A SABEDORIA DO VISITANTE

Os ditos populares são sabedorias. Sabedorias saídas das experiências do sujeito do conhecimento, ou do sujeito da imaginação. De qualquer plano, são presentes passados que, como sabedorias, pouco valem para a experiência do novo. Entretanto, é a “condição quase negativa que possibilita a experiência que escapa à história” (Deleuze). É preciso uma sabedoria, ou mais, para se fundar o novo. Se a sabedoria não serve ao novo, pelo menos serve à análise comparativa entre o que não é, mas quer se passar como sendo. E um sendo necessário, quando é apenas o malogrado.

Conta uma sabedoria popular, também erroneamente, conhecida como senso-comum, que quando alguém visita uma cidade desconhecida, mas pretende ter desta cidade, no momento que chega, informação ampla e real, deve tomar três endereçamentos:

Visitar o mercado para conhecer tanto os preços das mercadorias quanto os hábitos alimentares dos habitantes desta cidade.

Visitar a biblioteca para conhecer a prática intelectual da cidade e seus personagens.

Ler um jornal para conhecer o presente da cidade e os conteúdos que geram as informações.

A COMPREENSÃO DO VISITANTE SOBRE MANAUS

Carregando seus referencias urbanos, o visitante sai do mercado compreendendo um pouco dos nossos hábitos alimentares, e muito certo que Manaus é uma cidade carente de alimentos, onde os preços dos alimentos que restam são inacessíveis aos assalariados. Sem eufemismo: os pobres. Nisto, ele entende a falta de uma administração pública que tenha o entendimento e o envolvimento com o fator básico da vida: os alimentos.

Saindo da biblioteca, ele concebe a limitação da prática intelectual refletida no acervo literário e nas consultas diárias com seus temas banais. Além de perceber o grau de alienação na maioria das obras dos ditos escritores amazonenses, onde predomina uma fauna e flora destituída do real, povoada de espectros de índios, caboclos e mestiços produzidos pela imaginação-supersticiosa aprisionada no mítico mistificado.

Afastando-se de uma banca de jornais, ele carrega um jornal que decidiu comprar, entre os outros, porque fora atraído pelo emblema: “De mãos dada com o povo”. Imaginando que este jornal, comprometendo o conceito povo, poderia melhor lhe apresentar a cidade. Leu o jornal e percebeu que a maioria das informações locais eram tendenciosas publicidades dos governos municipal e estadual. Visitante de várias capitais, lembrou o Jornal Pequenode São Luís. Jornal independente, engajado, sem freios em suas redações, jornalistas e repórteres servis. Jornal pesadelo dos Sarneys e sua trupe. Carta Capital, Caros Amigos, entre poucos no Brasil.

Leitor crítico, no sentido grego da palavra crítica, o sentido apanhado por Marx, sabe que não houve escolha, e muito menos disputa, para que Manaus fosse indicada sede da Copa. Sabe que nem o governador e nem o jornal A Crítica que não antecederam ao capitalismo tiveram qualquer participação para a decisão da FIFA cujo presidente Blater imagina ser Belém cidade do Nordeste, e seu Conselho Geral acredita que o Amazonas é a Amazônia , mas tão somente a Coca-Cola e a Sony, juntamente com um grupo de empresários das transnacionais que não sabem se a bola de futebol é circunferente, circular ou redonda. Leitor, também da História do Brasil, de Nietzsche, de Freud, logo entendeu porque tanto ufanismo irmanado com o governador e servidores. Lembrou do Grão-Pará, dívida freudiana que certos amazonenses nunca conseguem pagar tal o grau de afetos rancorosos. Razão da fálica ab-reação psicanalítica com ilustração de paraense chorando, e o jornal gritando em desatino: “Vencemos!” O visitante pergunta: “Venceram o quê? Venceram quem? A Copa vai criar uma Manaus-Paraíso Popular? Vai mudar a miserável condição em que vive o povo?” “Tanto ressentimento”, balbucia o visitante, e completa, nietzscheano, “o ressentimento é uma das facetas do ódio”.

Depois de perambular pelas ruas de Manaus, e conversar com alguns moradores, o visitante parte. Se a sabedoria popular não lhe serviu para novas experiências, permitiu-lhe comparar a cidade das “amizades do lucro”, com outras cidades tristes do Brasil. Além de lhe imprimir um temor pela história de Manaus feita na ótica daqueles que se querem autoridades, mas atuam pela impulsão e não pela Razão. O ser da autoridade democrática.

Se o visitante soubesse um pouquinho mais do jornal em sua relação com o governador, veria o quanto esta sociedade tem de patética. Veria que todo este ufanismo telúrico é frágil e irreal. Bastaria ele conhecer uma edição especial do jornal publicada com página preta, em “Luto”, como protesto contra este mesmo governador, Eduardo Braga, que naquele momento era tido como adversário, da mesma forma como era o prefeito cassado, Amazonino, hoje em parceria junto aos propósitos das alienígenas empresas e a classe média ignara. Veria que as “mãos dadas com o povo” é um simples lecton. Uma enunciação cujo significado real encontra-se diluído na figura Copa do Mundo como necessária ao povo. Então, diria: “O povo só precisa de sua própria mão”.

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Tuesday, March 3, 2009

PESQUISA DA PERSPECTIVA NÃO ENXERGA A MAIS ÓBVIA PERSPECTIVA: A CASSAÇÃO

Dizem algumas línguas que a única pesquisa cem por cento confiável é aquela que aponta a existência de doentes em um hospital, e mesmo assim há controvérsias.

De qualquer sorte a empresa Perspectiva, do guru do prefeito interino, Durango Kid, lançou pesquisa no final de semana em que coloca a faixa de governador no atual prefeito (s)em exercício, Amazonino Mendes. Em qualquer situação (ou perspectiva), de acordo com a pesquisa, Amazonino leva, seja contra Alfredo, seja contra Arthur (aí é covardia – com o povo amazonense!), seja contra Praciano ou Serafim. Será o fim do Amazonas?

A PERSPECTIVA OBNUBILADA MAIS UMA VEZ

A estatística é a voz das massas, afirmam os intelectuais numéricos. Através delas, pode-se ouvir o rumor das massas silenciosas. Ledo engano, e duplo engano. Primeiro, porque as estatísticas menos ocultam o acontecimento do que o elucidam. Daí a impotência da alcunhada oposição aos seguidos recordes de de popularidade do governo Lula, a título de ilustração. Segundo, porque as massas, de silenciosas não têm nada.

A estatística não apenas não traduz os ruídos das massas, como não tem maior valor que um rádio que captura as ondas eletromagnéticas do chamado espaço sideral. A polifonia das ruas não cabe nos números de uma pesquisa estatística. Ainda assim, há quem creia nelas como o último refúgio da verdade factual. Equívoco conceitual de quem acredita que o conceito do Social é uma condição sine qua nonpara a análise política. Ignora que as produções sociais, na absoluta maioria das vezes, se fazem fora dos códigos e da semiótica dominante. Daí o lúcido sociólogo e cientista político Marcos Coimbra, presidente do vox Populi, ter compreendido os acontecimentos que levaram Lula à reeleição, a despeito do que pensava a inteligentsiada direitaça. Ele sabe que a polifonia não se termina no número, ela sequer começa nele, deixando, quando muito, um rastro do acontecimento.

Daí a obnubilação da Perspectiva: o cowboy Durango não consegue enxergar os números para além da imaginação restritiva. Sempre a favor do interesse do patrão.

A PERSPECTIVA QUE ECOA DAS RUAS NÃO APARECEU NA PESQUISA DA PERSPECTIVA

Pergunta-se: onde está a perspectiva, cada vez mais evidente, da cassação de Amazonino e Carlos Souza? Não passou pelo crivo da Perspectiva durangânica, sequer como componente do questionário aos pretensos 2500 ouvidos. Daí, sem o elemento epistemológico do real, a pesquisa deixa de ser ciência e se torna fantasia.

Durango, sempre próximo de Amazonino, lançou a pesquisa como cientista social, mas ignorou o sintoma social bem ao seu lado: Amazonino, dizem, padece fisicamente, a cada vez que um dos quatro processos de cassação se mexe na Procuradoria Geral Eleitoral ou no TSE.

Não ouve, como suposto intérprete da voz rouca das ruas, os rumores de que a gestão de Amazonino vai terminar antes mesmo de começar. O povo já anda dizendo por aí (desde janeiro, aliás!) que com Serafim era devagar, mas com Amazonino, parou de vez. É essa voz que levará Amazonino ao palácio do governo, em 2010?

Talvez no afã de trazer ao chefe um alento, um lenitivo para as dores de tantas atribulações (criadas por ele mesmo), Durango Kid sacou a arma mais rápido que seus oponentes, mas ela não estava carregada. Basta uma canetada do TSE, mera questão de tempo, e Amazonino, de ex-candidato a prefeito, se transforma em ex-candidato a candidato ao governo do Amazonas. E a Perspectiva ficará sem perspectiva, de novo.

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Tuesday, January 20, 2009

IGREJA RENASCER – POR QUEM O TETO CAI?

Nenhuma folha cai de uma árvore se não for providência divina. Todas as causas e efeitos encontram-se em Deus. Por mais minúsculos e imperceptíveis que sejam aos homens”, sentenciam os bíblicos. Obras de Deus. Todos os fiéis crêem que Deus põe e dispõe ao homem como provação e aprovação. Quando o teto de uma igreja cai, para estes, estava nos desígnios de Deus.

Mas se a fé é metafísica, projeto trans-mundo, o teto é físico, estar-no-mundo. Faz parte dos negócios dos homens. Ninguém, em oração, encontra-se embaixo de um teto descarnado, só em estado etéreo.

A queda do teto da igreja Renascer ao cair, não caiu como o mundo da cantora Dolores Duran, cuja queda era o fim de um romance. Esse não tem matéria. Afeta, fere, mas nada que um novo amor não cicatrize. O teto é matéria no mundo real-físico sobre corpos, embora em imaginação deslocada para um trans-mundo, a sua força causa cortes na carne-viva, sangrenta. Nenhuma superstição, por mais apaixonada que seja, os livra. Principalmente quando a superstição é o primeiro motor do lucro.

TETO MAKE MONEY

O teto era uma questão física-arquitetônica. Uma questão de base, suporte e equilíbrio em um mundo de vibrações alternadas que fazem com que a construção de um prédio seja de acordo com sua função. E quando um prédio, erguido para uma função específica, passa a ser usado para outra função, com vibrações mais intensas e extensas, sua estrutura é abalada, e tende a desabar, como já dizia a professora Honorina. Como desabou, renascendo como causa de uma grave acidente. O prédio da Renascer, nasceu como um cinema, com função para um número exato de espectadores corpos-sonoros-vibráteis. Encampado, passou a ter a função inversa, em razão do propósito de seus proprietários que o tinham como templo de lucro-fervoroso.

É o efeito da providência capitalista do neo-liberalismo. Liberou geral. “Fé é lucro, mister Bill!”. Pretendendo se dar bem, um dia o cara tem uma bela fantasia: fundar uma igreja. Essa a professora Honorina não dizia. Não era do seu tempo. Hoje, tudo está exposto, no mundo fetichista de mercado. E a fé, também é, nesse caso, mercadoria de lucro. Motor de propulsão do lucro fácil. A fé, como industria, precisa de grandes espaços para realização na terra, de seus credos trans-mundo. Alienada do mundo real, a empresa fervorosa, segue o mesmo modelo dos locais de mega-show dos “artistas” reificados pela sociedade de consumo. Quanto maior o espaço maior o número de crentes, e maior a quantidade de crentes mais “quinzinho”. Mais “quinzinho”, mais ilusão do paraíso. E seus proprietários “enchendo as burras”, como diria o gajo, Zé Gaspar.

A iniciação do sacerdócio vocacionado realizado pelos códigos da doutrina dogmática do cristianismo, como Fé e Razão, nos preceitos de São Thomás de Aquino, desrealizou-se na força da “teologia” make money. Por quem o teto da Igreja Renascer caiu. Nove mortos, mais 150 feridos, e o resto desesperado. Nada de Deus. Negócio dos homens. Qualquer um “divinizado” pode se auto-proclamar representante de Deus. Um bom pastor.

Se antes o templo era invejado por ter sido palco do sacramento de seu maior mantenedor, o jogador Kaká, o fino do esporte mercantilista, hoje, é signo real da cobiça. Um dos pecados necessários ao lucro.

O irônico deste perverso acidente, é que os proprietários da Renascer, com a exploração da miséria, afirmaram Marx quando ele, em sua crítica da religião, diz: “A religião não é só o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, como também é o espírito de uma época sem espírito. Ela é o ópio do povo”. Inebriados pelo ópio capitalístico em “um mundo sem coração”,portanto, impedidos de sentir “o suspiro da criatura oprimida”, impossível era ver a realidade do prédio. Aí, não podia dar outra.

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