“Disse a Renan que se tiver que ser hoje será. Se alguém tiver autorização para fazer isso, que faça. É uma notícia grotesca me imaginar processado pelo PMDB. Se querem me calar terão que cortar minha língua ou decepar minhas mãos. Essa seria a única forma de me calar.”
Mais uma produção verborrágica modelo estereótipo do senador Arthur 5% “Orgulho do Amazonas” Neto, ao ser notificado, por fontes ocultas, que seria processado pelo PMDB, por decoro parlamentar. A acusação emerge da denúncia publicada pela imprensa, no caso particular, a revista semanal Isto é, em que Agaciel e seus amigos afirmam que o próprio Agaciel depositou R$ 10 mil na conta de Arthur quando o mesmo teve problemas com seu cartão quando se encontrava em viagem a Paris em 2003. Além das acusações de possuir funcionário fantasma, e os gasto com tratamento de sua mãe, que ultrapassaram o determinado pelo Senado.
Diante da ameaça, Arthur foi célere e presenteou o público brasileiro com sua verve rocambolesca. O público, como bom gozador, já imaginou o ator sem língua no Senado. Fato que não se deve, nem sob tortura, imaginar. O Senado precisa da língua de Arthur. Como o Brasil vai passar uma semana sem ouvir os modelos clichês de Arthur, acompanhado de seus maneirismos? Impossível. No espaço cênico do Senado, com marcação específica para dramalhões, não podem faltar nenhum dia personagens como Arthur, Heráclito Fortes, Mão-Santa, Agripino — este nos tira o tino —, entre outros.
Mas, em sua prosopopéia plautiana, Arthur nos oferece um consolo: sua língua pode não ser cortada, mas sim suas mãos. Um consolo para seu grande fã clube. Arthur, mudo, mas balançando os braços, como Chacrinha balançava a pança.
O PREÇO DAS LÍNGUAS
No folguedo político/econômico/social/étnico maranhense, o Bumba-Meu-Boi, em dois quadros da encenação popular, a língua do Boi surge como elemento relevante da festa. Quando Pai Francisco é acusado de ter roubado o Boi para dá para sua mulher, Catirina, a língua que está desejando, por se encontrar grávida, e quando, no final do maravilhoso espetáculo, o Amo do Boi vai vender a língua do Boi para a Dona da Casa.
Como se pode observar, e entender, nos dois quadros a língua surge, bilíngue, com um valor. No primeiro como o valor-maternal: Catirina precisa comer a língua do Boi para continuar a gravidez e conceber um belo Chiquinho. A exaltação do amor de mãe. E mãe é mãe, e em termos de valor, tem o mais superior. Ai daquele que negar a uma mãe a sua natureza de parturiente. No segundo, surge o valor propriamente capitalista: o preço da língua no mercado bovino. Neste, a língua se encontra embrulhada no fetichismo comercial como objeto reificado: não é mais propriamente a língua, órgão biológico urrante, é nada mais que um valor. E como no capitalismo o valor tem sempre um valor que não é o valor do objeto, a língua do boi exacerba o mercado.
Entretanto, no significante língua-valor, o objeto língua tem a mesma finalidade: satisfação orgânica. Tanto a Catirina como a Dona da Casa comem a língua. Agora, no caso do Arthur, saltam duas interrogativas: cortada sua língua, qual será seu preço no mercado, já que se trata de uma língua muito bem usada durante sete anos no Senado, como instrumento de repetição de clichês, e o clichê é muito importante para a política? E quem comerá sua língua? O PMDB sozinho? O PMDB junto com boa parte do PT, PC do B, PDT, PSB…? Ou o PMDB venderá a língua para o Serra comer junto com seus apaniguados, como churrasco, ou assada com molho-canela?
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