LANTEJOULADAS ESPECTRAIS DO CARNAVAL OFICIAL DE MANAUS
Depois que o carnaval perdeu sua dimensão dionisíaca em função da força deletéria do capitalismo ele foi transformado em um espectro. E como de um espectro tudo pode se esperar, já que um espectro, por não ter uma idéia singular para formar sua própria imagem, o que lhe seria próprio, ele pode se dar ao valor da banalização. Ou seja, um eco da saturação. A desrealização em forma de vazio, como afirma o filósofo Jean Baudrillard.
O carnaval oficial de Manaus, neste entendimento, não passa de um mero espectro que pretende simular o carnaval espectral das escolas de samba do Rio de Janeiro. E aqueles que se encontram enredados em qualquer de suas ordens só expressam essa ressonância espectral.
O desfile da Escola de Samba Reino Unido da Liberdade ocorrido na madrugada de domingo gordo ofereceu um espetáculo espectral digno de um estudante das metamorfoses sem formas. O samba-enredo contando a história do santo salesiano Dom Bosco presenteou o público com uma descarnavalização própria das superstições que protegem as pedagogias reacionárias, magnamente distantes da criatividade, racionalidade, e da cientificidade imprescindíveis à educação. Principalmente quando se trata de falar ao povo, como no caso do carnaval que é um devir constitutivo-democrático. Um samba-enredo sem qualquer possibilidade de desdobramento educacional o qual seus autores tanto acreditavam estar processando. Um senso comum desnecessário ao povo dionisíaco.
Mas deixando de lado o anêmico samba-enredo, que cumpriu com brilho seu propósito de enaltecer o colégio da classe média manauara – que se ufana de ter tido como alunos figuras reacionárias da alcunhada política da não-cidade, entre elas o ex-governador Eduardo Braga -, a forma espectral do carnaval oficial de Manaus ficou bem expressa através dos apresentadores e comentadores da TV reacionária, Amazonas Em Tempo, retransmissora da TV do camelô Silvio Santos, SBT.
Para ilustrar visualmente os sonhos “terríveis” que Bosco tinha com animais monstruosos, o carnavalesco confeccionou um carro alegórico com um elefante com as dimensões espectrais. Resultado: a tromba do elefante partiu ficando um pedaço para cima e outro para baixo. O comentarista sem qualquer entendimento teratogênico lamentou o ocorrido, quando deveria, ao ver a figura atrofiada, aproveitar para dizer que realmente os sonhos de Bosco eram povoados por figuras “terríveis”.
Outro momento espectral foi quando a própria figura de Dom Bosco não respondeu aos propósitos do carnavalesco. Confeccionaram uma imagem do santo zooparanóico que deveria mover a cabeça para o lado esquerdo e direito só que ocorreu uma atrofia no mecanismo da cabeça, e ela passou a se mover repetidamente só para o lado direito. Foi quando a comentarista usando de sua revolucionária verve disse que não havia problema, porque a cabeça estava olhando para o lado que o santo mais gostava onde havia uma torcida vestida de verde. Esquecendo a imaginativa comentarista que o santo é um mensageiro de Deus, que segundo afirmam os crentes, olha para todos e não só para direita.
Foi então que ao chegar ao final do espetáculo a Reino Unido mostrou ao que ele está unida. No espaço distensão, repórteres entrevistaram o ex-deputado João Thomé, filho do ex-governador Gilberto Mestrinho, que teceu, de acordo com seus interesses, elogios à escola.
Em tempo: – sem ironia malsã – a Escola de Samba Reino Unido da Liberdade tem um histórico – como a maioria das outras escolas – de ser um centro de apoio eleitoral de candidatos retrógados muitos deles eleitos e reeleitos com os votos da comunidade Morro da Liberdade. Exemplo, o próprio João Thomé e seu pai, mais o atual prefeito cassado Amazonino Mendes. Sem precisar contar com as várias eleições de seu ex-presidente, Bosco Saraiva. Todos com estreita relação com o proprietário da TV Em Tempo.
Uma tristeza espectral que deixa uma ressaca muito pior que a ressaca do vinho Dom Bosco.












