CAETANO VELOSO CHAMA MARINA DE “MEIO PRETA”
Quando Caetano Veloso deu a nazista declaração estigmatizadora, dizendo que Marina Silva “não é analfabeta como o Lula”, blogueiros, artistas, jornalistas, todos passaram a analisar, ironizar, execrar ou, ao contrário, justificar – toda justificativa é pior do que a sentença – a declaração caenazista em relação a Lula. Todos estão certos, como diria o filósofo Rui Brito. Mas não se observou que a discriminação de Caenazista começara já quando, antes de Lula, ele descrevera Marina. Eis o trecho tantas vezes repetido, mas não observado em sua totalidade:
“Marina é Lula e é Obama ao mesmo tempo. Ela é meio preta, é uma cabocla, é inteligente como o Obama, não é analfabeta como o Lula que não sabe falar, é cafona falando, grosseiro.”
Nesse jogo das palavras vazias próprio de Caenazista – lembrando que até a sequelada Globotárica tinha uma personagem de humor reto-imóvel que caricaturava essa característica dele -, ele junta e distancia Marina e Lula, utilizando-se de “Obama ao mesmo tempo”. Observe-se que ele explica que Marina é Obama pela inteligência, mas não diz porque Marina é Lula. Ao contrário, diz porque Marina não é Lula. Nessa jogada de não-jogar, todos acabaram saltando as palavras grifadas acima e foram direto para a palavra “analfabeta” em referência a Lula.
Um professor de Língua portuguesa faria a pergunta: “Onde está o erro de concordância do inteligente Caetano?” Um estudante sorridente também colocaria sua questão para eliminar essa pergunta: “O uso da palavra meio não está incorreto do ponto de vista gramatical – o que seria apenas um equívoco -, mas do ponto de vista semiótico, alguém já ouviu essa expressão ‘meio preto’? Ou é preto ou não é preto.”
E a ignorância de Caenazista se torna racista devido ao uso étnico da palavra “preta”. Preto é cor. Todo agente do IBGE, e também toda mãe ou pai ou responsável que faz matrícula de um filho em uma escola sabe que não existe essa raça. Como Caetano não é o único – e por isso percebe-se que o famoso intelectual não sai da doxa (mera opinião) senso comum – a cometer tal erro, sabe-se que ele se referia à raça negra. Mas se não existe “meio preto”, “meio negro” é que não existe mesmo. Marina é negra ou não é negra. Quereria o poetastro dos “Quereres” dizer que Marina é mestiça? Existe “meio mestiça” por ‘acausos’?
Mas, Caenazista – como a emenda em relação ao soneto – acrescenta que Marina é cabocla. Baiano de sucesso, que só viu a Ipiranga e a Av. São João, Caenazista não viu a Sampa real onde o metalúrgico Lula trabalhou e, ao contrário da esposa de Ló, não precisou olhar para o sal do nordeste, muito menos ao norte. Caetano sempre soube as notas de seu norte imaginário exótico europeizado em séculos atrás, por isso não sabe que na abstração da ‘mestiçagem’ de Marina surge outra contradição: enquanto o mestiço vem da união de branco com negro, o caboclo é o descendente de branco com índio. Portanto, ou Marina é mestiça (“meio preta”?) ou é cabocla.
Perguntemos novamente a Caenazista: “Você já viu algum nortista usar a palavra “caboclo”. Só se for algum querendo, como você bem faz, tirar proveito do exotismo intelectual, porque aqui somos cabocos e cabocões. E, é bom que se diga, estamos respaudados por nada menos que o maior folclorista brasileiro, Câmara Cascudo, que explica que a palavra “caboco” (sem “l”) vem de tupi caa-boc (“o que vem da floresta”) ou de kari’boca (“filho do homem branco”). Nos cultos afro-indígenas temos diversas demonstrações do uso da palavra (Você já foi realmente a um terreiro de Candomblé, Umbanda, Mina Nagô, Umolocô?): Caboco Jacaúna. Caboco Jatapequara. Caboca Brava. Caboca Jandira. Caboca Jussara. Caboca Mariana. Caboco Gira Mundo. Caboco Corisco. Caboco Lage Grande. Caboco Pena Branca, Preta, Dourada… São tantos. Te cuida Caetanazista. E não vem dizer que aqui não cabe a próclise, que Oswald de Andrade já sabia que existiam esses falsos intelectuais. “Deixa disso, camarada. Me dá um cigarro.”
Talvez Caenazista quisesse misturar a mestiça (“meio preta”, não esqueça) com a cabocla. Perguntemos: “Caenazista, qual é para você a raça de Lula?” Só não perguntamos porque sabemos que não importa. Em sua posição elitista, de direita, psdbista, Caetano só se utiliza de Marina para sacanear o “nordestino” Lula, porque “narciso acha feio o que não é espelho”. E Marina, que só foi alfabetizada aos 15 anos, também não percebeu o engodo da declaração caenazística.
Então, freudianamente, o rasteiro narcisismo de Caenazista é apenas a inveja de que um nordestino, Lula, tenha vencido os obstáculos da miséria – inclusive preconceitos dessa ordem – e se tornado um presidente “como nunca houve na história desse país”, enquanto Caenazista posava de outsider anárquico, sendo apenas um porra-loca que usava capitalisticamente a marca Tropicalismo em viagem pela Europa. Ao contrário de um Tom Zé, que precisou agir com inteligência, como artista, para fugir à censura e à prisão, encarando no gogó censores e delegados.
Mas talvez a inveja de Caetano seja mais velada. Seria porque Gilberto Gil, este, sim, negro, que se tornou um ministro da Cultura “como nunca na história desse país”? E justamente neste momento Caenazista perdeu os privilégios personalísticos que sempre alcançara com a direita que se instalou no país desde a Abertura, lucrando individualmente com falsos projetos sem alcance para a coletividade. Nesse caso, a fala preconceituosa de Caetano seria apenas merchandising, já que seus últimos projetos, inclusive um CD, não tiveram a menor repercussão. Qual mesmo o título?
Caenazista não sabe que todos temos intelecto e que, por isso, somos intelectuais. Ele não sabe, com Guattari e Deleuze, que a linguagem, antes de ser coisa de linguística, é coisa de política. E, por isso, utiliza-se do discurso autoritário, tirânico, nazista, tão óbvio, tão ululante. Favor não confundir com lulante.
Ele não sabe a diferença entre “analfabeto” e “iletrado”. Dona Damiana, na zona Leste de Manaus, dar-lhe-ia (gostou da mesóclise?) uma aula de política, mas como ela já é falecida, os alunos do Curso de Alfabetização – Enunciações Intensivas das Palavras, que a Afin promove, podem dar o toque: “O pior analfabeto é o analfabeto político” (Bertolt Brecht).
Pior, porque pode saber ler e escrever, e até falar tagarelice tatibitate, mas não vê, não ouve, tem menos sensibilidade do que uma múmia ambulante de filme hollywoodiano. Como te disse o, como tu, nordestino Belchior na Fotografia 3×4:
“Veloso o sol não é tão bonito pra quem vem do norte e vai viver na rua A noite fria me ensinou a amar mais o meu dia e pela dor eu descobri o poder da alegria e a certeza de que tenho coisas novas coisas novas pra dizer a minha história é ... talvez é talvez igual a tua, jovem que desceu do norte que no sul viveu na rua e que andou desnorteado, como é comum no seu tempo e que ficou desapontado, como é comum no seu tempo e que ficou apaixonado e violento como você Eu sou como você. Eu sou como você. Eu sou como você que me ouve agora. Eu sou como você. Como Você.
Mas, como você, Caenazista?!







