OTIMISMO EM GOTAS AMARGAS
O capitalismo como um sistema tem como sua ortodoxia a rigidez da representação. Daí que ser capitalista é ser sujeito-sujeitado a essa representação em sua enunciação semiótica como forma de doutrina definida como realidade inalterada. E como sujeito-sujeitado defensor e propagador dessa ortodoxia doutrinária.
Entretanto, a doutrina capitalista não se satisfaz apenas com a representação psicológica que cotidianamente o sujeito-sujeitado confirma com sua percepção obliterada, sua cognição senso comum e sua linguagem coisificada. A representação fundamental da doutrina capitalista é a que apresenta como seu fator social máximo o lucro. A forma fetichista do dinheiro que enseja no sujeito-sujeitado seu discurso de sucesso. Sem representação-lucro não há capitalismo, posto que essa representação-lucro se multifaceta nas expressões variadas de todas as representações da ortodoxia.
A LÓGICA DA TRAPAÇA OTIMISTA
Foi nesse espaço extenso sem diferenças e sem alteridades, muito bem segmentado economicamente, e eficazmente distribuído em territórios qualificados pelo valor representação-lucro que a Psicologia do Otimismo, que produz a esperança do sucesso pessoal e empresarial emergiu e floresceu, e provocou, subsequentemente, a manifestação da Psicologia do Marketing sustentada pela linguagem-tropo e as imagens entorpecidas como recursos sedutores imprescindíveis à vitória, ao brilho, à respeitabilidade e à inveja que todos os envolvidos nesse carrossel efusivo com suas faculdades sensorial e intelectiva obstruídas perseguem.
Assim, fixada a ordem do otimismo psicológico capitalista, produtos significados por este modelo, passaram a ser exibidos e vendidos nos mercados dos sonhos de não ser mais um rosto perdido no meio da multidão. Livros, cursos, conferências, truques, técnicas, passaram a ser oferecidos pelo preço da ambição do sucesso. “Querer é Poder”, “A Medida do Sucesso”, “Só os Fracos Não Vencem”, “A Vida é Dura para Quem é Mole”, “Vencer é Possível”, “Os maiores Vencedores da História”, “Seja um Vencedor”, “Otimismo em Gotas”, “O Triunfo é para os Fortes”, “Seja um Empresário Vencedor”, etcs, inúmeras fórmulas que só pretendem manter a ilusão do capital, que todos podem ser ricos, a grande fraude capitalista, já que se a riqueza social fosse distribuída para todos não seria o capitalismo. A patologia social.
Desta forma, sendo a representação-lucro a expressão e o conteúdo predominante da sociedade capitalista, tudo passou a ser submetido a sua realidade. E, entre eles, o conceito de pensar. Assim, o psicólogo da otimização norte-americana Napolleon Hill, o guru criador da enunciação-triste do sucesso pessoal, pesquisou 500 nomes dos que compõem as maiores fortunas do mundo e encontrou entre eles 15 itens responsáveis por seus sucessos. Aí, depois de publicar várias obras milagreiras da medida do sucesso sobre a tal psicologia, lançou o seu atual best seller “Quem Pensa Enriquece”, a bíblia dos desesperados do vale de lágrimas da ortodoxia capitalista. Como Hill sabe o que é pensar, e aqueles que não estão presos à ordem ortodoxa do capital não sabem, só resta atribuir a Hill a medalha da epistemologia capitalista, já que filósofos como Spinoza, Nietzsche, Marx, Sartre, Beauvoir, Hannah Arendt, Foucault, Deleuze, Guattari, entre tantos, não enriqueceram. Prova que Hill estava certo. Se não enriqueceram é porque não pensavam. Elementar, Wall Street, Manhattan!







