“VEREQUETE. É, É VEREQUETE.”
O galo cantou, me deu alegria
O galo cantou, é sinar que vem o dia
O galo cantou no romper do aurora
O galo cantou e o Verequete vai embora

No momento em que escrevemos este texto, o corpo de Mestre Verequete é velado no Teatro da Paz, em Belém do Pará.
Embora estado vizinho do Pará, talvez pelo freudiano narcisismo de vizinhança, o Amazonas sempre conheceu o carimbó apenas por Pinduca devido a este ter morado durante vários anos em Manaus, ali no bairro da Redenção.
O encontro com o som desse maravilhoso mestre do carimbó foi casual. Um garoto paraense, no início de 2006, passando as férias em Manaus, e morando seu pai na rua onde é a sede da Afin, pegou um pequeno atabaque do boizinho Rizoma e entoou um carimbó a nós desconhecido. Ouvidos atentos, perguntamos de quem era. Ele falou o nome Verequete e tocou outra.
Nesta mesma internet (pode-se utilizá-la como máquina de guerra), pesquisamos e encontramos algumas informações sobre o velho mestre, que em 1971 foi o responsável pela primeira gravação de um disco de Carimbó. De lá pra cá foram mais 12 discos e 4 CD’s. Desses, conseguimos um chamado Verequete na Coluna.

Foto: Do disco “O Legítmo Carimbó Vol III – Verequete e o Conjunto Uirapurú – da gravadora CID (Companhia Indústria de Discos) – acervo de Jorge Calderaro (daqui)
Por curiosidade, numa kombi lotação Jorge Teixeira—João Paulo, zona Leste de Manô, ouvimos um forró da banda Calypso, na inconfundível voz da bela Joelma, uma música que nos pareceu familiar. Atentamos que a letra era justamente a que o garoto cantara, chama-se Lua Luar, que hoje sabemos ser composição de Mestre Lucindo, e que é conhecida no Pará também na voz de Nazaré Pereira.
A lua sai de madrugada
No romper do sol
Ela sai acompanhando
O namorado que é o sol
Ó, lua, lua, luar
Me leva contigo pra passear
Ó, lua, lua, luar
Me leva contigo pra passear
No janeiro passado, fomos a Belém para participar do Fórum Social Mundial (FSM 2009). Para nossa surpresa, o calypso e o forró paraenses, tão ouvidos em todos os espaços de Manaus, via rádio, televisão e indústria fonográfica, em Belém pouco se houve. Ao contrário, o carimbó está em todos os cantos, tanto o modernizado, eletrônico, quanto os velhos mestres da corda e tambor, como diria Verequete.
Entre os inumeráveis causos contados pelo ativo capoeirista Mestre Ray, também chamado Mestre Mundico, quando nos concedia uma entrevista, ouvíamos ao fundo um CD de carimbó, contendo faixas de diversos mestres carimbozeiros. Como lhe faláramos da vontade de ver o velho mestre, já então com 92 anos, ao tocar Chama Verequete, Mestre Ray parou e, apontando ao aparelho, disse a frase que vem no título desse texto: “Verequete. É, é Verequete.”
Chama Verequete, ê, ê, ê, ê
Chama Verequete, ô, ô, ô, ô
Chama Verequete, ruuuum
Chama Verequete…
Chama Verequete, oh! Verê
Oi, chama Verequete, oh! Verê
Ogum balailê, pelejar, pelejar
Ogum, Ogum, tatára com Deus
Guerreiro Ogum, tatára com Deus
Mamãe Ogum, tatára com Deus
Aruanda, aruanda, aruanda, aruanda ê
Mandei fazer meu terreiro
bem na beirinha do mar
mandei fazer meu terreiro
só pra mim brincar
A indústria cultural brasileira sempre foi um empecilho para a difusão das verdadeiras riquezas populares. A não ser por projetos como o de um Marcus Pereira, as manifestações culturais autóctones e autônomas são relegadas ao domínio público até o esquecimento. Mas estas manifestações autênticas seguem sem se importar com isso, com a potência de compor novos sons, novas cores, novos movimentos, novas formas de linguagem. E é isso que faz Augusto Gomes Rodrigues, desde que numa festa de santo foi com uma moça que gostava e um pai-de-santo disse: “Chama Verequete”, referindo-se às rezas ao vodun Toy Averequete:
“Eu gostava de uma moça; então ela me convidou para ir ao batuque que eu nunca tinha visto. Umas certas horas da madrugada o Pai de Santo cantou “Chama Verequete”. Eu era capataz da Base Aérea de Belém, na época da construção, cheguei na hora do almoço e contei a história do batuque… Quando acabei de contar, me chamaram de Verequete.”
Então Augusto virou mesmo Verequete e, com aquela potência dos negros prevista por Nietzsche, bateu os tambores e soltou a voz, sempre acompanhado dos companheiros do Uirapuru, também lá de Quatipuru, e as floridas saias rodadas das moças rodaram bonito no chão de terra batida.
No Pará persistem os grupos de carimbó tradicionais, como o Raio de Sol, de Mestre Come-Barro, entrevistado por este bloguinho na inesquecível Belém do Pará. E hoje, se o carimbó vai sendo incorporado ao rock, ao reggae, à música eletrônica, deve-se muito à incansável luta e ao amor de Verequete pela alegria em alegrar-se com o povo. A mesma luta que fez realizar-se em 2006 o lançamento da fundamental coletânea composta por uma caixa com o CD “Verequete é o Rei”, o DVD com o filme “Chama Verequete” e o livro “Som dos Tambores”.
Para baixar o CD clique na imagem.
A morte de Verequete faz lembrar a luta dos artistas paraenses no projeto junto ao Ministério da Cultura par transformar o carimbó em Patrimônio Imaterial da Cultura Brasileira.
Então, enquanto viver o Carimbó, Mestre Verequete não morrerá, porque na verdade ele só foi ali no mar cantar com a sereia…
A sereia mandou me chamar
(Olha o balanço do mar)
E eu vou com a sereia pra lá…








