Nós vivemos aqui nessa terra
Lutando para sobreviver
No lugar onde poucos têm muito
E muitos têm pouco comer
Olhando isso fico triste
E me pergunto qual é a solução
Eu tô feliz porque tenho a capoeira
Como uma forma de expressão
Tenho um canarinho cantador
Berimbau afiando e um cavalo chotão
E uma morena faceira
Que me deu o seu amor
E um menino chorão.
Ai, meu Deus, quando eu partir
Desse mundo enganador
Ao meu filho eu deixarei
Uma coisa de valor
Não é dinheiro, não é ouro nem é prata
É meu berimbau maneiro
Que meu amor me deu
Não é dinheiro, não é ouro nem é prata
É meu berimbau maneiro
Que eu ganhei do meu avô
Meu berimbau toca Iuna e Benguela
Toca paz e toca guerra
Toca até juras de amor.
Não é dinheiro, não é ouro nem é prata
É meu berimbau maneiro
Que eu ganhei do meu avô
Clique nas fotos para vê-las de perto.
Ontem, no dia em que se comemorava o Dia da Consciência Negra por todo o Brasil, com a afirmação de todas as inumeráveis manifestações das culturas afro-descendentes, no Novo Aleixo, zona Leste de Manaus, o grupo de capoeira Bantos, sob o comando do monitor Luciano, se reunião numa comunhão para conversar, jogar e pensar sobre a capoeira, que, dentro dessas manifestações afro, é hoje uma das mais reconhecidas pelo mundo afora.
Mas deixemos que Luciano fale sobre sua trajetória, sobre seu trabalho atual, sobre os entendimentos da capoeira e da consciência negra:
O objetivo dessa atividade de hoje é conversar um pouco sobre o Dia da Consciência Negra, porque a capoeira que nós jogamos foi criada pelos negros que vinham como escravo, foi criada dentro da senzala. Durante muito tempo a capoeira foi malvista, porque vinha dos negros, por causa do preconceito, que ainda existe um pouco. O grupo Bantos em Manaus está com seis anos aqui dentro de Manaus, vindo do Amapá. Começou com o professor Jari, que hoje está pra lá pra Macapá, jogando sua capoeira por lá. Mas ele fez sua parte aqui e vem aqui pelo menos uma vez ao ano vê como estão as coisas. E a gente continua aqui levando esse trabalho, que é importante pra gente e pra comunidade, pra todos que veem a beleza da capoeira e a sua importância cultural.
Eu aprendi capoeira com o mestre Espiga, quando eu tinha doze anos de idade; hoje eu tenho trinta, então faz dezoito anos que eu jogo a capoeira todos os dias. Temos esse trabalho aqui com a Igreja Francisco Xavier e também lá na Igreja Católica Nossa Senhora de Aparecida, temos uns alunos lá também. O nosso trabalho não se restringe só à capoeira, a gente faz um acompanhamento escolar, fazemos reunião com os pais também pra conversar sobre as relações deles com os filhos.
Além de ser um dia especial dos negros, que lembra a luta que eles tiveram, que é a luta que continua, a nossa luta, e também brincar um pouco com essas crianças, tentar fazer com que elas cresçam bem dentro da capoeira, e não só na capoeira, mas na vida pessoal delas como um todo. A capoeira tem um papel de diversão, mais vai além porque compreende toda a vida da pessoa e é a única luta brasileira autêntica. A criança não perde só o medo de cair, mas se movimenta livremente e aprende a tomar decisão livremente.
Marcley, um jovem de 17 anos, que tem uma deficiência física, fala sobre sua experiência de 4 anos com a capoeira, de como ela o auxilia física e mentalmente:
Eu busquei a capoeira por curiosidade. Eu tenho dezessete anos e faz uma base de uns quatro anos que eu pratico a capoeira. Eu comecei antes com o professor Jari, que viajou lá pra Macapá, que é a terra dele. Foi o professor Jari que me convidou, aí quando eu entrei não quis mais sair. Agora a gente tá aqui com o Luciano, porque ficou na responsabilidade dele. Eu aprendi muita coisa com a capoeira, a ter mais paciência, a ver melhor as coisas, ajudou muito com relação aos meus pais também. A minha deficiência física não atrapalha em nada a capoeira. A capoeira é que me ajuda a coordenar melhor os movimentos e, principalmente, a mente.
Conversamos também com Dona Jovem e com a mãe de Thalisson, uma das crianças que participa do projeto, e elas afirmaram estar contentes com com os resultados alcançados com a capoeira.
Meu nome é Jovelina, mas eu sou conhecida como Jovem, todo mundo aqui só me conhecem como jovem. O meu neto é o Thalisson, ele começou assim que abriu aqui esse trabalho. A capoeira tá servindo pra ele, ele tá se espertando mais, tá se desembaraçando. Eu nunca tinha vindo não, aí eu disse: ‘Eu vou olhar hoje’. É legal, é muito bom. Lá em casa, quando ele não tá na aula, ele só que tá de perna pra cima, brincando.
A capoeira fez o Thalisson melhorar bastante, tanto na escola como em casa. Ele tá mais cuidadoso com as coisas dele, ele tá observando o crescimento do próprio corpo dele. Com a capoeira ele vê melhor as coisas, vê que não precisa ele se meter com outras coisas na rua, ele procura o que é útil pra ele. Se ele vai pra rua é pra brincar a capoeira dele com os colegas, aqui. (Mãe de Thalisson)
Ao final, conversamos com Edmar e Adeíze, dois dos coordenadores do trabalho, que falaram sobre o Dia da Consciência Negra, sobre os projetos realizados e sobre a fundamental inserção da capoeira, fazendo uma avaliação sobre o evento:
Isso aqui é uma CEB’s, faz parte da Área Missionária São Francisco Xavier, onde nós temos um projeto com crianças, um projeto do Moccocci, no qual nós trabalhamos com crianças carentes de rua. Nós abrimos esse espaço para a capoeira porque nós achamos de bem trazer o jovem para participar uma arte autêntica do nosso povo. Pra isso, contamos com a colaboração do Luciano, e estamos felizes não só por ver o bonito trabalho que ele realiza, mas também por ver pais aqui acompanhando os seus filhos, apreciando esse trabalho. Que bom que a gente tá aqui lembrando da escravidão, e comemorando que ela não existe mais, mas que é importante lutar pelos direitos dos negros, das pessoas pobres. Que bom que a gente tá podendo fazer isso nesta comunidade com a capoeira, com todas essas crianças.
Eu sou uma das coordenadoras da comunidade, e tenho também motivos pessoais para gostar desse trabalho. É que os meus dois filhos sofrem um de asma e o outro de arritmia cardíaca, vieram pra capoeira e melhoraram totalmente do problema da asma. Além da saúde deles, antes era um gasto horrível com remédios, e baixou totalmente. No geral, o trabalho aqui vai muito bem. A gente tem um projeto que trabalha com crianças, totalmente voluntário. Temos um grupo de 40 crianças de rua, de 7 a 17 anos; dessas, 10 participam da capoeira. A capoeira chegou em boa hora.
- Grupo Bantos de Capoeira -
Área Missionária São Francisco Xavier
Rua Wilton Vieiralves
Contatos: 8843-6721 (Luciano)
9111-5696 (Adeíze)