Segunda-feira, Janeiro 30, 2012

SEGUNDA-FEIRA DOMINICAL

Dia das boa almas

# Falando em entrevista sobre o fim do Fórum Social Temático (FST) realizado em Porto Alegre, o membro do comitê organizador do evento, Celso Woyciechowski, disse que seus objetivos foram alcançados. Segundo Celso, os 40 mil presentes no FST mostraram o que pode acontecer na Cúpula dos Povos que ocorrerá paralelo a Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, Rio+20, que ocorrerá em junho, quando os movimentos sociais apresentarão que serão negociadas pelos governos.

“Todo o Fórum Social Mundial e, aqui também, essa edição temática, sempre tem expectativas e grandes possibilidades de essas expectativas serem concretizadas. Acho que esse FST concretizou as expectativas, tanto de público, tivemos mais de 40 mil pessoas participando de todas as atividades – quanto de construir uma extraordinária plataforma para encaminhar à Cúpula dos Povos, durante a Rio+20, em junho.

Esse elemento temático deu foco aos debates, motivou e fez com que as pessoas participassem mais, com conteúdo, com profundidade e, portanto, transformassem este fórum em uma das melhores edições no que diz respeito ao debate do conteúdo e no encaminhamento das resoluções. Nós, da comissão organizadora, estamos extremamente satisfeitos, pelo conteúdo, pela riqueza dos debates que aqui foram apresentados e pelas proposições que certamente serão levadas para a Cúpula dos Povos, no Rio de Janeiro” disse Celso.

Mesmo que a síntese do FST não fosse esta que Celso apresenta, de qualquer maneira, seria um grande resultado visto que reuniu pessoas para discutirem temas fundamentais a transformação da sociedade opressora.

# Enquanto isso, no Fórum Econômico Mundial, que terminou ontem em Davos, na Suíça, foi quase unanimidade a afirmação, diante do pessimismo que se abateu sobre os países europeus e norte-americano, que a América Latina é um “oásis” de instabilidade econômica, crescimento e oportunidade.

Os povos latinos americanos não devem ter nenhuma ingenuidade em crer em tal afirmação, visto que ela está carregada de grandes interesses desses países que criaram a crise econômica global e não sabem como resolvê-la. Além do mais, o Fórum Econômico Mundial é a expressão do capitalismo dominante. E sabe-se muito bem que o sistema de signos para elogio do capitalismo, não é outro que não o explorador.

# O show era de Rita Lee, mas a polícia de Aracaju, onde ela fazia sua última apresentação muito entusiasmada, resolveu também dá seu show de violência sentando o porrete nos participantes que para ela estava transgredido a ordem. Rita Lee não gostou e interferiu afirmando que o show era dela e não queria ali a presença da polícia agredindo seus faz. Um absurdo do tempo da ditadura, de acordo com Lee.

A polícia não gostou da atitude da roqueira e se aproximou mais do palco em tom de ameaça, mas Rita não se intimidou. O show continuou, e no final ela foi levada para delegacia, enquadrada no art. 287 do Código Penal, por crime de desacato e apologia ao crime ou ao criminoso.

“Este show é meu. Não é de vocês. Vocês não têm o direito de ir para cima das pessoas. Vocês são do tempo da ditadura… Vocês querem chamar a atenção… Eu tenho paranóia desse tipo de coisa. Por que isso? Eu queria saber. Cadê por escrito que vocês têm que fazer isso? Não pode ser… por causa de um baseadinho. Cadê um baseadinho pra eu fumar aqui… É rock and roll. Pô, é meu último show, queria tanto fazer vocês felizes…”, disse Rita aos faz, pedindo uma salva de vaias aos policiais, ao que foi bem atendida.

Semana passada Rita Lee divulgou que iria se aposentar. Segundo notícias, por causa um problema nas cordas vocais. Fato que seu discurso vibrante contra os policiais negam tal afirmação.

# E os pernas continuam provocando os amigos cupins. Os campeonatos de pelada dos dois mais pernudos estados, São Paulo e Rio de Janeiro, continuam a mostrar o celeiro inesgotável de pernas-de-pau.

O Periquito continua na mesma forma do Peladão Brasileiro, sempre empatando. Em três partidas empatou duas, enquanto o São Paulo ganhou as três, como o Coringão, mas esse feitos nãos os fazem superiores, posto que todos são referências deles mesmos.

Para as bandas do samba, o Mengão mostrou sua bela forma. Depois de perde nas Libertadores, empatou no carioquinha. Seu rival só em nome, mas igual em pernas, Vascão, ganhou o que não o faz melhor que os urubuzudas.

De formas, que as partidas são sempre as mesmas. O que está fazendo que até torcedor perneiro fanático, já esteja largando o brado de superioridade.

 

Publicado por AFIN em 03:37:34 | Link | Sem Comentários »

O PASSO SEGUINTE DA HISTÓRIA E AS LINHAS DE PASSAGEM

O passo seguinte da história não virá da maquiagem verde do capitalismo, nem de miragens dissociadas das potencialidades e circunstancias do presente. O maior desafio é superar o déficit de democracia que sanciona a ganância do dinheiro sobre a economia, a natureza e a subjetividade. A principal urgência: colocar todo o sistema financeiro sob o controle do interesse público. O novo sujeito histórico consiste em unir o interesse comum em defesa do bem comum: as fontes da vida na Terra, a dignidade humana, a plena realização das potencialidades do indivíduo em nosso tempo. ‘Pinheirinho’ não é um ponto fora da curva: a lógica dominante não tem mais nada a oferecer exceto ‘Sofrimento e Dor’. A São Paulo tucana é a conexão mais avançada do capitalismo brasileiro com a saturação da ordem mundial. As eleições municipais deste ano na capital paulista não se resumem à mera troca de alcaide: elas confrontam duas lógicas diante da crise. Uma, disposta a superar as raízes do colapso em que vivemos, cujo limbo mais exposto é a desordenada ruína dos gigantescos conglomerados urbanos; a outra, decidida a impedir a mudança decretando a reintegração de posse sobre cada centímetro de cidadania conquistado pelos que vivem na soleira da porta, do lado de fora da cidade e da democracia.

Fonte: Blog Carta Maior

Publicado por AFIN em 03:11:32 | Link | Sem Comentários »

Sábado, Janeiro 28, 2012

INDA TEM FRANCÊS QI DIZ QI A JENTI NUM SEMO SERO

@ IGNACIO RAMONET, JORNALISTA FRANCÊS, DEFENDE COMISSÕES DE VERDADE e memória pública. O jornalista, ex-diretor do jornal francês, Le Monde Diplomatique, ao participar do debate sobre Direitos Humanos, Memória e Justiça, em sessão especial do Fórum Social Temático (FST) e do Fórum Mundial de Educação, em Porto Alegre, sugeriu que fossem criadas e fortalecidas comissões da verdade e memória pública para que os crimes cometidos nas ditaduras não sejam esquecidos e repetidos.

Para Ramonet, o reconhecimento da memória tem que ir além de reparações individuais às vítimas e familiares. Tem que ser tornado público para que a sociedade tenha conhecimento dos horrores que são cometidos contra os direitos humanos nas ditaduras. Para que isso ocorra, Ramonet sugeriu que sejam criados museus, construção de monumentos e a criação de datas nacionais para homenagear as vítimas.

“O relato do sofrimento e da resistência é indispensável para que novas gerações conheçam melhor o que se passou. Para que a memória não se degrade, é necessário que seja exercida em relação direta com o presente. É a única maneira de evitar a impunidade e de evitar que o horror se repita.

O que está em jogo é o direito das vítimas a uma reparação moral e o direito coletivo à memória, a poder estabelecer oficialmente que a ditadura foi uma abominação e que a impunidade é insuportável, a poder denunciá-la e proclamá-la em museus, nos manuais escolares ou em dias de memória coletiva como o de hoje.

A verdade é uma resposta essencial para as vítimas e os sofrimentos devem ser reconhecidos publicamente. É preciso saber em que condições se violaram os direitos humanos dessas pessoas e quais foram às razões que conduziram os torturadores a fazer o que fizeram para que tenhamos uma idéia do que não se pode repetir”, disse Ramonet. Inda tem francês…

@ RAQUEL ROLNIK, RELATORA ESPECIAL DA ONU pede a suspensão da ordem de despejo de Pinheirinho. A relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU), a urbanista brasileira, Raquel Rolnik, apelou às autoridades que suspendam a ordem de despejo no bairro Pinheirinho, em São José dos Campos, efetuada pela Policia Militar de São Paulo, que usando da violência expulsou do local, moradores que se encontravam na área há mais de oito anos. O despejo dos moradores seguiu a ordem da Justiça de São Paulo.

Dizendo-se “chocada” com o “uso excessivo de força” na operação de remoção, ela pediu que as autoridade se esforcem para encontrar uma solução pacifica e adequada para as famílias que foram expulsas.

“A suspensão da ordem de despejo permitiria que as autoridades retomassem as negociações com os moradores, a fim de encontrar uma solução pacífica e definitiva para o caso, em total conformidade com as normas internacionais de direitos humanos.

A situação atual das pessoas despejadas é extremamente preocupante. Sem alternativa de habitação, elas estão vulneráveis a outras violações de direitos humanos”, afirmou a relatora da ONU. Inda tem francês…

@ VALE É ESCOLHIDA A PIOR EMPRESA DO MUNDO. A empresa mineradora Vale, que foi privatizada pro Fernando Henrique, foi escolhida pelo Publics Eye Awards com o prêmio de Pior Empresa do Mundo, por prática de crimes ambientais e sociais. A divulgação do prêmio ocorreu ontem, dia 27, em Davos, na Suíça, onde ocorre o Fórum Econômico Mundial.

O prêmio é anualmente organizado pelas organizações internacionais Greenpeace, da área ambiental; e declaração de Berna, da área social para atentar contra as ações de corporações que realizam crimes ambientais e sociais.

A Vale foi eleita como a Pior Empresa do Mundo com 25 mil votos de internautas, derrotando até a empresa japonesa Tepco, responsável pelas usinas nucleares de Fukushima, que ficou com 800 a menos.

As entidades responsáveis pela indicação da Vale para concorrer ao prêmio e que se encontram participando do Fórum Social Temático (FST) comemoraram a escolha. Um dos membros da coordenação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Alexandre Conceição, desabafou em alegria.

“A Vale foi roubada do povo brasileiro durante o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso e entregue praticamente de graça ao mercado. Ainda hoje recebe financiamento público, via BNDES, para levar devastação ambiental e degradação social onde quer que ela atue”, disse. Inda tem francês…

@ PROTESTOS CONTRA O CÓDIGO FLORESTAL É NOTA NO FÓRUM SOCIAL TEMÁTICO. Várias entidades ligadas às questões ambientais que participam do Fórum Social Temático (FST), em Poro Alegre, vêm demonstrando em forma de protestos suas posições contra o Código Florestal, e o que acreditam que ocorrerá na Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, na Rio+20, que ocorrerá no mês de junho.

Para os manifestantes a chamada economia verde, não passa de um capitalismo verde sem qualquer conotação de alternativa de desenvolvimento sustentável. Para eles a economia verde não é nada mais do que uma forma de banalizar o discurso ambiental nos meios econômicos e na sociedade.

Especificamente sobre o Código Florestal, setores avançados da sociedade têm criticado com veemência as tentativas de alterações da legislação ambiental brasileira, como fez a coordenadora da Rede de ONGs da Mata Atlântica (RMA), Renata Cunha.

“As mudanças no Código Florestal afetam não somente a Mata Atlântica, mas todos os biomas brasileiros. Na verdade não se trata de um código florestal, mas de um código agrícola elaborado pelos ruralistas. É um retrocesso na legislação ambiental e estamos correndo um risco muito grande”, disse Renata.

Seguindo o mesmo entendimento que denuncia a ofensiva do capital rural, Pedro Stédile, dirigente do MST, relembrou os desrespeitos à lei executados pelos empresários ruralistas no episódio da introdução da soja transgênica no Rio Grande do Sul, como os ataques ao Estatuto da Terra.

“O capital se comportou contra a lei. Sempre que há uma lei que prejudica ou controla o capital, as elites brasileiras adotam essa política de comer pelas beiradas. Está sendo assim com esta anistia. O agronegócio precisa desmatar. Atualmente, são apenas três setores – a soja, a pecuária e a cana – que querem avançar sobre o Código Florestal. Querem avançar sobre a biodiversidade para impor a monocultura”, disse Stédile. Inda tem francês…

Vamos que vamos. Vamos!

Publicado por AFIN em 03:01:58 | Link | Sem Comentários »

Economia verde ou economia das verdinhas?

“Antes eles garantiram a parte morta da natureza e agora querem a parte viva”, disse a francesa Genevieve Azam, ativista da Attac, durante debate sobre a chamada economia verde. O americano Pat Mooney reforçou a fala de Genevieve: “Desde a Rio 92, é possível ser dono dos elementos da cadeia periódica e dos códigos genéticos dos seres. Agora o capitalimo está atrás do restante. Através da nanotecnologia e da biotecnologia, é possível tornar os elementos da natureza em produtos”.

Ivan Trindade

Porto Alegre – O segundo dia de atividades do evento Plenárias, Diálogos e Narrativas rumo à Rio +20 contou com uma plenária sobre alternativas à chamada economia verde, terminologia que os grandes capitalistas utilizam para posar de preocupados com o meio ambiente. Com o auditório da faculdade de direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul repleto, a francesa Genevieve Azam abriu as falas dizendo que o agora capitalismo verde quer em 2012 saquear o que não conseguiu saquear em 1992, época da Eco 92. “Antes eles garantiram a parte morta da natureza e agora querem a parte viva”, disse a ativista da ATTAC.

O americano Pat Mooney reforçou a fala de Genevieve: “Desde a Rio 92, é possível ser dono dos elementos da cadeia periódica e dos códigos genéticos dos seres. Agora o capitalimo está atrás do restante. Através da nanotecnologia e da biotecnologia, é possível tornar os elementos da natureza em produtos”. Além da crítica ao modelo de negócios da economia verde, Mooney mostrou-se alarmado com ações de governos, que não só não aceitam a responsabilidade pelos danos causados ao planeta, como estão tentando modificar o modo como a natureza funciona para adequá-lo ao modus operanti do capitalismo: “Eu chamo isso de geopirataria, Dois exemplos são o estímulo à super-reprodução de planctons, para que a absorção de CO2 seja maior.

De outra forma, o governo inglês está preparando um vulcão artificial que lançará cinzas à estratosfera para diminuir a penetração dos raios do sol e diminuir o aquecimento global”. E o pior, segundo, Mooney é que as as nações desenvolvidas não precisam de aprovação da ONU para fazer isso. Mooney encerrou com uma analogia sobre a geopirataria: “É como se aqueles que destruíram a casa, nos garantissem que acharam um jeito de reconstruí-la sem parar de derrubar as paredes”.

A seguir, falou o representante do Greenpeace, Pedro Torres, que enumerou os fatos que não se enquadram nas alternativas à economia verde. “Nessa alternativa, não cabe Belo Monte, não cabe a energia nuclear, que é suja e perigosa. Não cabem também as termoeléticas, como a que estão construindo em Soape, Pernambuco, que será a mais poluente do mundo, pois usará o diesel como combustível. Da mesma forma, o novo código florestal também não se encaixa. Esperamos que Dilma vete os artigos que premiam os desmatadores”.

O padre Dario, do movimento Justiça nos Trilhos, propôs uma viagem aos participantes ao contar a situação da região de Carajás, na divisa do Maranhão com o Pará: “Lá está a maior mina de minério de ferro do mundo, e a sua produção sai pela ferrovia que tem o maior trem do mundo, com 400 vagões. O Brasil gosta de se orgulhar desses números. Com dinheiro público, a Vale segue explorando o minério brasileiro e exportando, ao invés de beneficiá-lo aqui mesmo. Assim o Brasil segue comprando o produto industrializado mais caro enquanto vende matéria prima barata. E, depois de 30 anos desse processo, o que propõem? A duplicação da ferrovia!”.

O indígena equatoriano Rodrigo De La Cruz, representante da Coica, denunciou o desrespeito aos territórios indígenas em toda a América Latina, sempre pelo mesmo motivo: “São esses territórios que abrigam grande parte da biodiversidade das florestas. É preciso garantir a integridade dos territórios e a preservação dos seus valores culturais”. Cruz criticou também a criminalização do movimento indígena: “No Equador, há 200 índios presos”.

Alex Conceição, representante do MST e da Via Campesina, pediu o fim do uso de agrotóxicos pelo agronegócio. “Todo brasileiro ingere mais de cinco litros de agrotóxicos por ano. A agricultura brasileira e a política agrária é ditada por sete empresas multinacionais”, protestou Conceição. Para o trabalhador rural, uma verdadeira alternativa a qualquer projeto de economia verde no Brasil precisa passar pelo veto do novo código florestal e por uma reforma agrária verdadeira.

O mediador Pablo Solon encerrou as discussões com a constatação de que o capitalismo verde já está instalado e pediu resistência: “Querem especular com a natureza, como fizeram com o dinheiro. Não se pode permitir. Na economia verde, só se pensa em preservar o que tem algum valor. Há que se reconhecer que a natureza tem seu próprio ritmo e que o homem não é dono dela, mas parte dela”.

Os debates rumo à Rio +20 seguem nesta sexta-feira, 27.

Fotos: Ivan Trindade

*Carta Maior

watch?feature=player_embedded&v=g-sjE1Za5Ls

Publicado por AFIN em 02:54:56 | Link | Sem Comentários »

Não mexerei um palito pela blogueira cubana, diz Fernando Morais

No Fórum Social, jornalista e escritor especialista em Cuba diz que ajudar Yoani Sánchez é ficar contra revolução. Segundo ele, conquistas sociais do regime importam mais que liberdade para criticar, o que só interessa ao ‘inimigo’ EUA. Cético com política externa americana, Morais não vê chance de distensão entre Cuba e EUA sob Obama, pois não haveria diferença entre democratas e republicanos. Dilma vai a Cuba segunda.

André Barrocal

Porto Alegre – Jornalista e escritor, e portanto defensor e dependente da liberdade de expressão, Fernando Morais, reconhecido especialista em Cuba, não pretende se envolver no caso da blogueira cubana Yoani Sánchez, cuja tentativa de vir ao Brasil virou notícia nestes dias que antecedem viagem da presidenta Dilma Rousseff à ilha de Fidel Castro.

Morais quer distância do assunto por um motivo simples: política. Amigo da revolução castrista, cujo saldo considera positivo ao povo de lá, o escritor acredita que críticas públicas ao país – e ele diz que também teria razões para criticar – só “ajudariam o inimigo”, os Estados Unidos e seu bloqueio à ilha. Yoani discorda do regime e o ataca via blog. Para Morais, ajudá-la é ficar contra a revolução.

“Sou defensor da liberdade de expressão. Mas, em primeiro lugar, defendo o direito de 11 milhões de cubanos que estão sendo espezinhados pelos americanos”, afirmou o escritor nesta sexta-feira (27), durante um debate sobre livro que lançou no segundo semestre de 2011 sobre a prisão e a condenação de cinco cubanos nos Estados Unidos, chamado “Os últimos soldados da guerra fria”.

“Em nome das minhas convicções, não posso apoiar uma moça que vem dedicando a vida a combater a revolução”, disse Morais no debate, que fez parte das atividades do Fórum Social Temático, grande encontro de esquerda. “Eu não vou mexer um palito para que essa moça venha ao Brasil.”

Quando começou a correr a notícia de que Dilma irá a Cuba – será na próxima segunda-feira (30), a primeira viagem internacional da presidenta em 2012 -, Yoani anunciou no Twitter que queria um visto brasileiro, para vir ao país. Depois, escreveu uma carta a Dilma com o mesmo pedido.

Com dificuldade para obter visto no governo Lula, a blogueira teve mais sorte agora. Quarta-feira (25), o ministério das Relações Exteriores informou que daria um visto especial de 90 dias para ela. Mas ela ainda precisa de autorização do governo cubano para deixar o país, e Morais, que tem contato com as autoridades de lá, não pretende interceder a favor dela.

Para ele, apesar do tipo de crítica que Yoani faz – a falta de liberdade é a principal -, o saldo da revolução cubana não justificaria tentar derrubar o regime. No debate, o escritor disse que não se há crianças pedindo esmola na rua, analfabetismo e (caso único no hemisfério sul) desnutrição infantil, enquanto a taxa de mortalidade infantil é metade da vista nos EUA.

Tudo isso foi conquistado, lembrou, apesar do bloqueio norte-americano, que atrapalha o desenvolvimento cubano. O boicote começou nos anos 60 e foi reforçado nos anos 90 no governo do ex-presidente Bill Clinton, que pertencia ao Partido Democrata, em tese, mais à esquerda, dentro daquilo que pode ser considerado “esquerda” nos EUA.

“Já perdi a inocência com os Estados Unidos. Na política externa, não faz a menor diferença se é democrata ou republicano”, afirmou Morais. “Quem meteu os americanos nas piores aventuras externas foram os democratas. E quem tirou, foram os republicanos”, completou o escritor.

Para Morais, governo Obama “não mudou absolutamente nada” na política externa americana, apesar da expectativa inicial que foi criada. Por isso, ele não acredita que haja qualquer distensão na relação entre Cuba e EUA sob o comando do atual candidato à reeleição.

*Carta Maior
Publicado por AFIN em 02:48:53 | Link | Sem Comentários »

Sexta-feira, Janeiro 27, 2012

DURANTE SUA PARTICIPAÇÃO NO FÓRUM SOCIAL TEMÁTICO, DILMA, DEFENDEU CRIAÇÃO DE METAS DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

A presidenta Dilma Vana Rousseff, ao participar do Fórum Social Temático (FST) fez referência aos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU), chamando a atenção para criação de metas de desenvolvimento sustentável quando da Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, Rio+20.

Segundo a presidenta estas metas devem estar centralizadas no combate a pobreza e a desigualdade. Durante seu discurso a presidenta disse que se encontrava alegre por participar do FST, falando também de sua participação na edição do Fórum Mundial Social de 2001, na mesma capital, Porto Alegre, quando era secretária de Energia do governo do Rio Grande do Sul.

Ela também comentou que muitas coisas mudaram durante os 11 anos passados. A crise econômica, por exemplo, que se encontrava latente se manifestou real no ano de 2008, e que as turbulências financeiras dão uma conotação mais forte a Rio+20. A presidenta também fez referência aos governos progressistas que hoje comandam o panorama político e que podem fazer dos primeiros anos do milênio o início de uma nova era.

“Assumimos que é possível crescer e incluir, proteger e conservar (…).

Desde então, essa cidade transformou-se em referência para todos que buscavam criar uma alternativa ao equilíbrio da situação econômica e política global. Aqui, se firmou a idéia de que outro mundo é possível.

Deve ser um momento importante de um processo de renovação de idéias, diferente das COP – Conferência das Partes -. Queremos que a palavra desenvolvimento apareça, de agora em diante, sempre associada à sustentável.

A tarefa que nos impõem esse fórum e a Rio+20 é desencadear o desenvolvimento, a renovação de idéias e de novos progressos absolutamente necessários para enfrentar os dias difíceis que hoje vive ampla parte da humanidade.

É essa esperança que nos uni e nos mobiliza para a Rio+20 e que deve sempre nos guiar na busca de um novo modo de vida, inclusivo e sustentável, sabendo que o papel da sociedade civil será determinante para o êxito da conferência”, discursou a presidenta.

Publicado por AFIN em 02:42:55 | Link | Sem Comentários »

MOVIMENTOS SOCIAIS CRITICAM ECONOMIA VERDE DURANTE PARTICIPAÇÃO DE DILMA NO FÓRUM SOCIAL TEMÁTICO

Os movimentos sociais aproveitaram a participação da presidenta Dilma Vana Rousseff, no Fórum Social Temático (FST) para protestarem contra o conceito de economia verde que vai predominar na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, Rio+20, que ocorrerá em junho.

Para os movimentos sociais economia verde não é nada mais do que uma forma de repetir os padrões capitalistas de lucro que estão esgotando as potências naturais do planeta. O encontro foi marcado por vários discursos opostos entre os que são contra a política ambientalista dominante e os que são a favor da postura do governo.

A economia verde, pressuposto central da Rio+20, recebeu forte posicionamento contrário desferido pelo ambientalista boliviano Pablo Solon, para quem o novo modelo de desenvolvimento não deve repetir os mesmos erros dos padrões tradicionais que estão levando o planeta ao esgotamento. Durante sua interferência ele conclamou a sociedade civil para se manifestar em protesto contra a economia verde.

“Assim como vencemos a Alca venceremos essa tentativa de mercantilizar e privatizar a natureza”, disse Pablo.

Durante os discursos ambientalistas que se encontravam na platéia várias vezes interromperam os falantes exigindo que a presidenta Dilma vete o novo texto do Código Florestal, que ainda tramita no Congresso Nacional.

Por sua vez, a sindicalista Carmen Foro, que começou elogiando o governo Dilma cobrou da presidenta a efetuação de antigas demandas dos movimentos sociais, como a redução da jornada de trabalho de 44 horas para 40 horas semanais, o fortalecimento da legislação sobre o trabalho escravo e a ampliação da reforma agrária. Ela também censurou a economia verde.

“Não vamos aceitar termos uma economia rotulada de verde, como estão pensando os capitalistas que não têm responsabilidade nenhuma com a sustentabilidade. Vamos fazer a nossa parte, e fazer isso é fazer a crítica e uma grande mobilização, durante a Rio+20, para questionar o modelo, questionar o que vai ser economia verde. Nossa tarefa é de articulação, mobilização do conjunto da classe trabalhadora, vamos globalizar essa luta global”, discursou Foro.

Publicado por AFIN em 02:35:03 | Link | Sem Comentários »

DILMA COMENTA COM REPRESENTANTES DO FÓRUM SOCIAL MUNDIAL QUE “PINHEIRINHOS É BARBÁRIE”

Incitada pelo empresário, Oded Grajew, ex-presidente do Instituto Ethos de Responsabilidade Social, a tocar na irracionalidade política-policial, em Pinheirinhos, ao receber um documento sobre moradia escrito por entidades populares, a presidenta Dilma Vana Rousseff, criticou com veemência a ação truculenta da polícia de Alckmin.

O comentário da presidenta ocorreu durante o encontro que teve, ontem, dia 26, com cerca de 90 representantes do comitê internacional do Fórum Social Mundial. Embora não tenha culpado ninguém sobre a violência política-policial, em Pinheirinhos, executada contra moradores da área, a presidenta disse que “Pinheirinhos é uma barbárie”.

De acordo com Dilma, o governo foi surpreendido com o ocorrido, porque ele participava de uma negociação para um desfecho amigável, e em nenhum momento ocorreu a hipótese de despejo apresentada pelas autoridades do governo de São Paulo e de São José dos Campos. Ela disse também que o governo federal pouco pode fazer, porque respeita as autoridades do governo de São Paulo da prefeitura da cidade de São José dos Campos.

Publicado por AFIN em 02:26:50 | Link | Sem Comentários »

CARTA DE REPÚDIO DE INTELECTUAIS CONTRA OS TERRORISTAS-MIDIÁTICOS DA TV GLOBO, CÁIO BLINDER E DIOGO MAINARDI

Srs. Diretores da Rede GloboCausa profunda surpresa, indignação e perplexidade assistir a um programa de vossa emissora em que jornalistas, comentaristas e palpiteiros assumam a defesa explícita da prática de assassinatos como meio válido de fazer política. Isso foi feito abertamente, no dia 15.01.2012, por Diogo Mainardi e Caio Blinder, ambos empregados da Rede Globo.
 
Depois de fazer brincadeiras de gosto duvidoso sobre sua suposta condição de agente do Mossad (serviço secreto israelense), Caio Blinder alegou que os cientistas que trabalham no programa nuclear iraniano são empregados de um “estado terrorista”, que “viola as resoluções da ONU” e que por isso o seu assassinato não constituiria um ato terrorista, mas sim um ato legítimo de defesa contra o terrorismo.Trata-se, óbvio, de uma lógica primária e rudimentar, com a qual Mainardi concordou integralmente. Parece não ocorrer a ambos o fato de que o Estado de Israel é liderança mundial quando se trata em violar as resoluções da ONU, e que é acusado de prática de terrorismo pela imensa maioria dos países-membros da entidade.
 
Será que Caio Blinder defende, então, o assassinato seletivo de cientistas que trabalham no programa nuclear israelense (jamais oficializado, jamais reconhecido, mas amplamente conhecido e documentado)? Ambos – o “agente do Mossad” Caio Blinder e Diogo Mainardi – se associam ao evangelista fundamentalista estadunidense Pat Robertson, que, em abril de 2005, defendeu em rede nacional de televisão, com “argumentos” semelhantes, o assassinato do presidente venezuelano Hugo Chávez, provocando comentários constrangidos da Casa Branca.Ao divulgar a defesa da prática do assassinato como meio de fazer política, a Rede Globo dá as mãos ao fundamentalismo – não importa se de natureza religiosa ou ideológica – e abre um precedente muito perigoso no Brasil. Isso é inaceitável. Atenção: não defendemos, aqui, qualquer tipo de censura, nem queremos restringir a liberdade de expressão. Não se trata de desqualificar ideias ou conceitos explicitados por vossos funcionários.
 
O que está em discussão não são apenas ideias.Não são as opiniões de quem quer que seja sobre o programa nuclear iraniano (ou israelense, ou estadunidense…), mas sim o direito que tem uma emissora de levar ao ar a defesa da prática do assassinato, ainda mais feita por articulistas marcadamente preconceituosos e racistas. Em abril de 2011, o mesmo “agente do Mossad” Caio Blinder qualificou como “piranha” a Rainha da Jordânia, estendendo por meio dela o insulto às mulheres islâmicas.Mainardi é pródigo em insultos, não apenas contra o Islã, mas também contra o povo brasileiro. Se uma emissora do porte da Globo dá abrigo a tais absurdos, mais tarde não poderá se lamentar quando outros começarem a defender, entre outras coisas, a legitimidade de se plantar bombas contra instalações de vossa emissora por quaisquer motivos, reais ou imaginários – por exemplo, como forma de represália pelas íntimas relações mantidas com a ditadura militar no passado recente, pela prática de ataques racistas contra o Islã e o mundo árabe, ou ainda pelos ataques contumazes aos movimentos sociais brasileiros e latino-americanos.Manifestações como essas do “agente do Mossad” Caio Blinder e Diogo Mainardi ferem as normas mais elementares da convivência civilizada.
 
Esperamos que a Rede Globo se retrate publicamente, para dizer o mínimo, tomando distância de mais essa demonstração racista de barbárie. Agradecemos a atenção.Assinam os representantes e instituições:- Hamilton Otavio de Souza – Editor Chefe da Revista Caros Amigos- José Arbex Jr. – Chefe do Departamento de Jornalismo da PUC-SP- Fabio Bosco – Central Sindical e Popular- Francisco Miraglia Neto – Vice-Presidente Regional do ANDES-SN- Reginaldo M. Nasser – Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da PUC-SP- Marco Weisheimer – Editor da Carta Maior- Socorro Gomes – Presidente do Centro Brasileiro para a Paz- Soraya Misleh – Diretora de Imprensa do Instituto da Cultu ra Árabe- Soraya Smaili – Vice-Presidente da Associação dos Docentes da UNIFESP- Boris Vargaftig – Professor Titular da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências- Isabelle Somma – jornalista e doutoranda de Historia Social da USP.
Publicado por AFIN em 02:20:34 | Link | Sem Comentários »

A sabedoria do boêmio

Por Ana Ferraz

Noite dessas, Paulo Vanzolini sonhou com uma poesia de Olavo Bilac que decorou quando ainda era rapazote. Os versos, que são muitos, vieram por inteiro. Aos 88 anos, o autor de composições que atravessaram gerações sem perder a força, como Ronda e Homem de Moral, conserva a prodigiosa memória e se mantém imperturbável diante da fama.

Considerado por muitos o embaixador do samba de São Paulo, ele agradece o epíteto. “Não é verdade, mas eu gosto”, diz, sorriso nos lábios. Acomodado numa poltrona de couro na modesta casa do Cambuci, “bairro cheio de bares ótimos”, o homem culto que cresceu rodeado de livros e se tornou zoólogo de reputação internacional põe em perspectiva a criação de uma vida, 70 composições e 155 trabalhos científicos. “Que glória é essa, meu Deus”, questiona, num lapso, o declarado ateu, bisneto de anarquista. “É uma glória muito humilde. Não tenho motivos para ser vaidoso.”

Nesta sexta 27, semana em que São Paulo completa 458 anos, Vanzolini concederá ao público o privilégio de tê-lo na Choperia do Sesc Pompeia. Instalado numa mesa, cervejinha à mão, o artista acompanhará alguns de seus grandes sucessos, interpretados por Ana Bernardo e Carlinhos Vergueiro. Entre uma canção e outra, o show será pontuado pelas reminiscências do compositor que, junto com Adoniran Barbosa, de quem foi “amigo de muitas cachacinhas”, traduziu a cidade de forma definitiva.

“Adoniran era ótima pessoa, nos dávamos muito bem. O cara mais desligado que já conheci. Vinha de família italiana do Vêneto. De menino o chamavam de Joanim.” Os longos papos entre Vanzolini e João Rubinato (Adoniran), que em sua simplicidade dizia não entender bem o que o cientista fazia (“ele mexe com zoológico, sei lá”), jamais renderam samba. “Sempre me pedem para contar como era nossa conversa. Era muito cotidiana. Não tinha nada demais. Era nossa conversa.”

A famosa Tiro ao Álvaro, relembra, surgiu como um presente do jornalista e escritor Osvaldo Molles ao amigo Adoniran. Foi Molles também o criador do personagem Charutinho, de tiradas engraçadas embaladas por sotaque italianado, que interpretou com grande sucesso na Rádio Record. “Adoniran acabou assumindo na vida real o personagem da ficção. No fundo, ele era mesmo só o Joanim.” Quando a saudade aperta, Vanzolini dirige-se ao Mercado Municipal, o Mercadão da capital paulista. “Colocaram uma estátua do Adoniran numa mesa. De vez em quando vou lá tomar uma cerveja com ele.”

A prosa animada de repente silencia. O olhar do compositor vagueia pela sala, ambiente que Ana Bernardo, sua atual mulher, define como “totalmente masculino”. Justifica-se a quase queixa: sobre um aparador, uma grande cobra de madeira exibe a boca aberta (souvenir comprado na Espanha). A seu lado, outra, bem mais modesta nas medidas, porém, verdadeira, exibe-se sobre um tronco. Para alívio dos visitantes, o exemplar não se move, foi plastificado graças a uma técnica especial. A terceira fica na mesinha de centro. Ao lado da porta de entrada, o cabideiro dá pistas sobre a atividade profissional do dono da casa. Ali estão os chapéus que Vanzolini usava para adentrar o mato em busca de bichos.

Foi com a zoologia que o boêmio ganhou a vida. Ele fez-se médico pela Universidade de São Paulo somente para facilitar o doutorado em zoologia, em Harvard, nos EUA. Especialidade: répteis. “Nunca examinei um doente na vida.” Por motivos óbvios, tem grande apreço por lagartos e lagartixas. Até hoje mantém a postos seu kit de pegar bicho. No ano passado, uma editora reuniu toda a sua produção científica. Também em 2011, a Fundação Conrado Wessel concedeu seu prêmio máximo a Vanzolini. “Vou receber em junho, na Sala São Paulo. É bom pra burro, são 300 mil reais”, admira-se. “Só que vou ter de pagar Imposto de Renda.”

Em um ano repleto de homenagens, Vanzolini receberá a Medalha Armando de Salles Oliveira. Um gesto de reconhecimento ao homem de números científicos robustos: 47 anos de trabalho no Museu de Zoologia, 31 deles como diretor, 40 mil animais capturados e a construção do mais completo acervo sobre répteis da América do Sul. A paixão pelos tais bichos começou quando ele ainda era imberbe. Aos 14 anos já estagiava no Instituto Biológico, onde foi iniciado na branquinha. “Todo fim de expediente rolava uma cachacinha, eu ganhava meia.”

No rastro dos répteis, muitas histórias. “Durante um trabalho na Argentina, fui comprar um disco da Mercedes Sosa e saí de braço dado com um soldado”, diverte-se. “O agente da polícia queria saber por que eu estava comprando aquele disco. Disse: ‘Ela é uma boa cantora’. O sujeito ficou olhando na minha cara. Me ameaçou, mas não podia fazer nada.”

Em tempos de ditadura, Vanzolini foi surpreendido por um convite impossível de ser recusado. O general Golbery do Couto e Silva, o “feiticeiro” do regime militar, o convocava a Brasília. Sem mais explicações. Enviou passagem aérea e limusine com motorista. “Ele mandou me chamar para passar um sabão. Queria me dizer que eu era contra o governo. E eu era. Me disse que isso poderia dar mau resultado.” Com calma inabalável, o cientista retrucou: “Isso vai depender de quem aguentar mais tempo, nós ou vocês”. Conversa encerrada, voltou para São Paulo.

Foi durante o tempo em que serviu na cavalaria que Vanzolini compôs um de seus maiores sucessos, Ronda, clássico que adquiriu a impressão digital de Márcia, sua mais reconhecida intérprete. “Eu sou Ronda”, já assumiu a cantora ao autor. A música é líder de pedidos nos karaokês até hoje. “As japonesas são as que mais pedem. No bar em que a Ana canta, vem escrito no guardanapo: Honda”, conta o compositor, rindo. A verdade, confessa, é que sua relação com a canção inspirada nas mulheres que observava no entra e sai dos bares à procura dos parceiros se desgastou. “Sabe o que as minhas filhas dizem? Fez, agora aguenta!” Vanzolini argumenta que a composição, de melodia pungente, é uma piada. “Começa dando a impressão de que a mulher procura o sujeito para se reconciliar, mas é para desperdiçar um pente de revólver.”

Vanzolini começou a compor quando frequentava a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo. Diz não ter ideia de qual foi a primeira composição. “Aliás, lembro, mas joguei fora, não prestava.” Outra meia dúzia teve a mesma infausta sorte. A criação favorita? “Não me ocorre nenhuma.” Dali a pouco cita aquela que considera uma de suas melhores, Longe de Casa eu Choro. “Fiz em Cambridge, pensando em São Paulo. Era uma poesia minha. O Paulinho Nogueira pegou o livro e disse: ‘Você não é poeta, é sambista. Aqui está cheio de letras de samba esperando música’. Paulinho era meu amigo de infância. Fez a melodia com Eduardo Gudin.” Outra que também teve o auxílio luxuoso de Paulinho Nogueira é Valsa das Três da Manhã. “Paulinho era um sujeito de qualidade humana excepcional.” A que mais rendeu? “Só uma deu dinheiro, Volta por Cima. Comprei livros para o Museu de Zoologia.”

Paradoxalmente, e para assombro de quem não o conhece, Vanzolini nada sabe de música. “Tenho péssimo ouvido. Não sei ler música, não sei o que é acorde”, jura. “Meu professor foi o rádio.” O método para preservar as composições consistia em decorá-las. “Se esquecesse perdia tudo. Dá uma mão de obra danada, por isso larguei”, diz. “Fica uma coisa obsessiva. Até que a música saia você não pensa em outra coisa.” O método Vanzolini de compor é outro mistério. “Inspiração a gente procura. Na cabeça. Geralmente começa com uma frase. Aí vem tudo junto, letra e melodia.”

Para quem supõe haver sempre algo autobiográfico em cada letra, o mestre desmente. “Nunca sofri com dor de cotovelo, por exemplo, é só um tema.” Na belíssima Quando Eu For Eu Vou sem Pena, interpretada por Chico Buarque em Acerto de Contas, coleção com quatro CDs que reúne a obra do autor (“essa caixa completou a minha vida”), o tom é triste. Uma tocante despedida. Mas não se trata exatamente disso. A inspiração atende pelos nomes de Miriam, Marina, Carol e Cris. “Eu estava numa fazenda, durante excursão do museu. Comecei a pensar em como seria quando partisse”, conta. “Eram as alunas que estavam ali, ele fez para elas”, entrega Ana Bernardo, diante do olhar risonho do poeta fingidor.

Boêmio de carteirinha, mulherengo apenas “na medida da necessidade”, Vanzolini adorava percorrer as ruas de São Paulo até altas horas, sozinho. Nesse périplo pela então metrópole da garoa, fez várias descobertas. “Uma vez abri uma porta e descobri os Macambiras. De outra, Virgínia Rosa.” Ana Bernardo, companheira dos últimos 15 anos, também foi um encontro patrocinado pela música. A filha do fundador dos Demônios da Garoa encantou o compositor com sua voz firme e melodiosa. “Ela entende a música que canta. É minha melhor intérprete.”

Autodefinido sambista tradicional, Vanzolini mantém o entusiasmo pela música. Ouve com admiração Noel Rosa, Dorival Caymmi, Nelson Cavaquinho, Sílvio Caldas, Cartola e Paulinho da Viola, entre outros grandes. E considera-se realizado. “Estou recebendo mais do que esperava. É muita recompensa no fim da vida”, comenta, com a sabedoria dos modestos. Na segunda-feira que antecede o carnaval, a Banda Redonda, fundada por Plínio Marcos, vai homenageá-lo. O enfarte que lhe surpreendeu em 2004, roubando-lhe 70% da capacidade cardíaca, provou ser incapaz de deter o poeta. “Estarei lá, lógico”, garante, com brilho no olhar.

*Carta Capital

Publicado por AFIN em 02:08:41 | Link | Sem Comentários »